22. A ignorância é a causa incitadora do fluxo universal (samsrti), o conhecimento, a causa única (ekakaranam) da libertação. Todos os tratados o proclamam:
E isto não é uma tese que nos é própria (svaupajna), comenta Jayaratha. De fato:
23. “A ignorância, diz-se, é a impureza fundamental (mala), causa do broto que dá nascimento ao fluxo do devir.” É o que declara o Malinivijayottara [tantra, l. 23].
“A ignorância é trevas, conhecimento limitado, ela provém de que o Senhor esconde sua própria essência pelo jogo de sua pura liberdade; este conhecimento limitado, concepção errônea que confunde eu e não-eu, é a ‘impureza atômica’ ou de finitude (anavamala) e não a impureza substancial (dravyarupa) refutada nos capítulos 9 e outros deste tratado.”
Segundo Utpaladeva (IPKII. 2,4): “Conhecimento sem liberdade, liberdade sem conhecimento, tal é a dupla impureza que se deve à ocultação da própria essência de si.”
Embora a ignorância tenha um duplo aspecto aparecendo no nível do espírito (purusha) e no do intelecto (buddhi), apenas o primeiro aspecto é aqui tratado.
Abhinavagupta declara então:
24. Esta precisão afastando a possibilidade de que esta [ignorância] seja aquela que reside no intelecto e que é posterior ao samsara, [o Senhor] diz que a libertação ocorre na ausência desta [ignorância].
“Precisar que a ignorância é a causa do broto do samsara, diz Jayaratha, não significa que a ignorância intelectual, [se] tão difícil de definir, é a causa da impureza de ação ou de atividade, mas, ao contrário, que esta última é a causa da ignorância [intelectual].
“O corpo, com efeito, é causa da ação, devido a que é formado pelo conjunto dos órgãos sensoriais e intelectuais que cumprem suas tarefas [respectivas]. ‘A impureza de ilusão (mayiyamala), proclama-se, toma o aspecto do corpo e dos mundos’. O conhecimento intelectual é, portanto, posterior ao samsara, ou seja, ao corpo.
“Por que mencionar que é eliminada a possibilidade desta [ignorância intelectual]? A libertação não procede do desaparecimento desta ignorância, já que, se esta não funciona mais e que surja o conhecimento intelectual, este último, embora dotado de puros vikalpa, produz, no entanto, o fluxo do devir. Segundo o que é dito: ‘Todo vikalpa referente a este fluxo, que o sábio ou o pandit não se apegue nem mesmo ao vikalpa [relativo a] a última Realidade (paramartha)’. E também: ‘que diferença há, com efeito, entre vikalpa puro e vikalpa impuro?’
“Se, no entanto, a ignorância espiritual deixa de operar, ao final da iniciação e de outros meios, e se o conhecimento intelectual aparece, este, como se dirá, permite obter a libertação durante a vida; mas, por si só, ele não faz adquirir nenhuma coisa. Por outro lado, o conhecimento espiritual devido ao desaparecimento da ignorância espiritual é causa de libertação sem que seja necessário adquirir nenhuma outra coisa.
“Na iniciação, diz uma estrofe citada por Jayaratha, devem ser purificados os laços espirituais e não os do intelecto (dhigatah). Portanto, a iniciação não será infrutífera mesmo se o pensamento conservar imperfeições.”
“[O conhecimento espiritual] é por essência puro conhecimento (jnana-matra), ausência de ignorância, ou seja, perfeita compreensão (purna khyatih), essência da Realidade, massa densa de luz consciente e de felicidade. Seu desdobramento constitui a libertação.” (pp. 56-57)
Precisando o que entende aqui por ignorância, Abhinavagupta acrescenta:
25. A palavra ‘ignorância’ não significa ‘ausência de conhecimento’, o que levaria ao erro de uma definição muito extensa (atiprasanga). Não se vê, com efeito, que um torrão de terra e outras [coisas inanimadas, portanto ignorantes,] não transmigram por isso?
O termo ‘ignorância’ designa, portanto, um conhecimento incompleto [ou imperfeito] (apurnajnana).
26. É o que dizem os Shivasutra [para quem] a ignorância é apenas um conhecimento que não ilumina a realidade a conhecer em sua totalidade.
27. “O Si é consciência”, “o conhecimento é o laço”. Estes dois [primeiros] aforismos [dos Shivasutra], quer se unam ou se tomem separadamente, confirmam nossa concepção [da ignorância] como conhecimento limitado.
Os dois sutra são: caitanyam atma e jnanam bandhah. A interpretação de ‘ignorância’ como ‘conhecimento limitado’ resulta igualmente das leituras possíveis destes dois sutra: jnanam ou ajnanam, segundo se a palavra atma do primeiro sutra é conectada ou não à palavra seguinte, jnana. O termo ‘ignorância’ designa, portanto, um conhecimento imperfeito. No nível da realidade a conhecer (cf. sl. 26), as impressões objetivas como a cor, ou subjetivas como o prazer, que constituem o conhecimento incompleto [da dualidade], não fazem a realidade aparecer sob seu aspecto universal. A Suprema Realidade a conhecer é, com efeito, Shiva, idêntico à luz consciente.
28. No primeiro sutra, a palavra caitanya, consciência, cujo sufixo (-ya) implica a abstração, exprime a pura liberdade definitiva, além de toda distinção (anaksiptavisesa).
29. O segundo sutra, ao contrário, concerne a uma ação ou um instrumento de ação (karana), o que implica a dualidade na essência desta pura consciência.
30. A ignorância, [ela], não é senão desdobramento da dualidade e esta, sendo vazia de realidade [inconsciente, tucchatvat], é um laço; ela deve, por isso, ser cortada; é o que diz [o sutra se se o lê] de forma diferente [ou seja, se se lê ‘ajnanam’].
“Tudo aqui embaixo é consciência, diz Jayaratha, e a consciência, caitanya, é soberania, liberdade sem divisão (bheda) alguma, nem mesmo a dos atributos como a eternidade, a omnipenetração, embora estes a caracterizem normalmente. O sufixo -ya expressando uma noção abstrata indica a ausência de outros atributos. No ato consciente, consciência e agente se identificam.
“O segundo sutra, se se lê “ajnanam bandhah”, implica, por outro lado, de forma condensada, o desdobramento da dualidade, sugerindo que agente, objeto da atividade e atividade ela mesma são distintos e causas de separação (avacchedaka).
“Assim, logo que a dualidade, que é ignorância ou conhecimento limitado, se desdobra, a essência plenária, idêntica à não-dualidade da consciência (samvit), não é mais percebida e, porque não se percebe a plenitude, mundos e corpos se revelam como produções mentais (manyata) sob aspectos múltiplos, maléficos e benéficos.
“Já que este conhecimento é limitado, se o chama de ‘laço’ e este ‘laço’ não é outra coisa senão a tríplice impureza. Se ela é um laço, a ignorância que é não-conhecimento, a-jnana, deve ser completamente destruída. É o que diz uma estrofe: ‘Impureza de ação, impureza de ilusão, [impureza] ‘atômica’, tudo isso deve ser abandonado.’
“Mas aqui, como se sabe, pergunta-se Jayaratha (p. 61), que o conhecimento limitado é ignorância, não-conhecimento (a-jnanam) como desdobramento da dualidade? É o que é dito, quando se lê os Shivasutra de forma diferente, conectando os dois primeiros sutra: caitanyam atmajnanam bandhah”.