Dedicou-se ao estudo do Xivaísmo da Caxemira em especial a questão da Palavra (Vac) na tradição hindu. A seguir um resumo de seu prefácio da culminação deste estudo em sua tese de doutorado, que se tornou livro: PADOUX, André. Vāc: the concept of the word in selected Hindu Tantras. Jaques Gontier. Albany: State University of New York Press, 1990.
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Delimitação do escopo e fundamentação metodológica da pesquisa
- O propósito central desta obra reside no exame detalhado das especulações relativas à Palavra, ou vac, conforme encontradas em diversos textos sânscritos de caráter tântrico, com uma ênfase particular nas doutrinas concernentes ao poder ou energia, a sakti, inerente à Palavra.
- Devido à vastidão milenar da ênfase cultural indiana sobre a Palavra, o estudo restringe-se a "Tantras selecionados", focando primordialmente nas escrituras do Saivismo não dualista que emergiu na Caxemira, provável e inicialmente no início do século IX d.C., pois essas tradições oferecem os desenvolvimentos mais sutis, articulados e fundamentados sobre o tema, embora obras não caxemires ou não saivas tenham sido consultadas para ampliar o escopo da investigação.
- Reconhece-se que desenvolvimentos similares ocorreram no Budismo e que houve interações históricas entre o Vaisnavismo e o Saivismo na Caxemira, contudo, a mente humana necessita organizar a diversidade dos fatos em um sistema, e a estrutura adotada reflete a orientação básica das especulações de inspiração tântrica sobre a Palavra.
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A continuidade histórica e a natureza da Palavra no pensamento indiano
- As especulações indianas sobre a palavra abrangem necessariamente a linguagem, a fonética e a gramática, disciplinas desenvolvidas na Índia muito antes da era comum, sendo o Saivismo frequentemente uma religião de gramáticos ou filósofos-gramáticos cujas concepções foram assimiladas pelo Tantrismo.
- A Palavra, vac, foi concebida desde os primórdios como uma força criativa e mãe dos deuses, funcionando como um símbolo da Divindade ou como a revelação da presença divina no cosmos, atuando como a força que cria, mantém e sustenta o universo.
- Essas noções antigas, embora sujeitas a transformações, mantiveram uma continuidade essencial na cultura indiana, sendo reafirmadas e desenvolvidas no Hinduísmo Tântrico sob a premissa fundamental de que a Palavra é uma energia que pode ser acessada e utilizada por qualquer indivíduo capaz de penetrar sua natureza secreta.
- Para a mentalidade indiana, no princípio era a Palavra, mas diferentemente de outras tradições, aqui a Palavra é concebida distintamente como uma força ativa passível de ser utilizada para a ação.
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A ambivalência antropocósmica e a manifestação da energia fônica
- Existe uma constante ambivalência e um deslocamento contínuo nas descrições entre o humano e o cósmico, característica distintiva da mente indiana desde o Vedismo, onde o conhecimento da realidade suprema se fundava no conhecimento das correlações antropocósmicas.
- A energia, ou sakti, é simultaneamente Palavra, consciência, sopro e energia vibratória ou vital, denominada prana, de modo que não há distinções absolutas ou descontinuidades entre o humano, o cósmico, o vital, o psíquico ou o espiritual.
- O ato criativo é visto como uma enunciação, um ato humano cuja ordem é revertida pelo sistema para ser compreendida como a reprodução, no nível humano, de um processo arquétipo e divino, onde o universo emerge dentro da consciência divina através de quatro estágios da fala.
- As categorias da manifestação cósmica, ou tattvas, surgem concomitantemente com os fonemas sânscritos, ou varnas, organizados em sua ordem gramatical, fazendo com que a gramática e a fonética tradicional sirvam para explicar a cosmogonia.
- O sânscrito é considerado a linguagem da revelação divina, e a gramática é vista, segundo Bhartrhari, como o portal para a salvação, próxima ao brahman e considerada a ascese das asceses.
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Soteriologia, autonomia divina e o retorno à fonte
- A Palavra não aparece apenas como a energia que traz deuses e mundos à existência, mas fundamentalmente como a substância na qual eles são reabsorvidos e como um meio para os seres humanos progredirem em direção à libertação através dos mantras.
- A liberdade absoluta ou autonomia, denominada svatantrya, é uma característica central da Palavra suprema enquanto energia espiritual idêntica ao princípio primordial; Abhinavagupta considerava essa noção tão fundamental que por vezes referia-se ao seu sistema Trika como a doutrina da autonomia.
- Com o fluxo cósmico de emanação, a liberdade divina diminui gradualmente até que a Palavra perde sua autonomia absoluta e se torna a linguagem humana, sujeita a convenções e fonte de aprisionamento.
- O retorno à fonte da Palavra implica uma identificação com a espontaneidade e a autonomia criativa da origem, levando a um Além que transcende a Palavra, uma área de silêncio e pura transcendência, mantendo a visão tradicional de que o proferido está subordinado ao não proferido.
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Desafios terminológicos e conceituais na tradução de Vac
- A tradução do termo sânscrito vac apresenta dificuldades inerentes, pois ele denota voz, fala, palavra, enunciação e linguagem, sendo também a Palavra personificada e divinizada, a Deusa que é Palavra.
- Opta-se pelo termo Palavra, ou Verbo, como a tradução menos inadequada, visto que vac é tanto aquilo que é dito quanto aquele que diz, mas não deve ser confundida com o logos grego, cujo estatuto é distinto.
- O termo linguagem seria totalmente inadequado porque vac, nos estágios descritos, é anterior a qualquer linguagem e, em seu uso tântrico mais óbvio nos mantras, não possui conexão necessária com a linguagem discursiva.
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A primazia da oralidade e o estatuto do Sânscrito
- Uma característica maior da Palavra na Índia é seu caráter estritamente verbal ou aural, onde a Revelação é a Sruti, aquilo que é ouvido pelos sábios, refletindo uma desconfiança histórica em relação ao aspecto escrito da palavra, que é muitas vezes considerado letra morta se não for impartido oralmente.
- Apesar da existência de textos escritos e da importância de diagramas rituais como mandalas que criam um isomorfismo entre o visual e o aural, a preocupação primária recai sobre a Palavra falada, sonora e vibrante.
- A primazia do oral sobre a escrita parece paradoxal considerando que o sânscrito, a única língua referida neste contexto, provavelmente nunca existiu como uma língua corrente popular, mas sim como uma língua litúrgica e erudita, a língua dos deuses e não dos homens comuns.
- Conforme distinção mencionada por Walter J. Ong e R. K. Ramanujan, o sânscrito atua não como língua materna, mas como uma língua paterna, servindo de veículo para a cultura literária, religiosa e científica, interagindo constantemente com os meios não sânscritos.