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id da página: 11870 Celtas – Druidas – Roux e Guyonvarc’h – Poder da Palavra

Celtas Druidas Poder Palavra

GUYONVARCH, Christian-J.; LE ROUX, Françoise. Les druides. 4e éd ed. Rennes: Ouest-France, 1986.

  • A Palavra e a Função Política do Druida: O papel do druida como intermediário entre os deuses e o rei é o que explica integralmente a sua função política e determina sua intervenção em todas as circunstâncias notáveis da existência humana, do seu começo ao seu fim derradeiro. Em casos sérios, todo o corpo sacerdotal intervinha para salvaguardar os interesses ameaçados da autoridade espiritual e do poder temporal, como ocorreu quando Ai, Cridenbel, Lug Laebach e Bé Cuille cantaram contra Carman e seus filhos, forçando-os a recuar. A intervenção do druida visa sempre os interesses do rei, mesmo quando se traduz numa predição que por vezes constitui o aviso ou a ameaça de uma morte próxima.
  • A Ciência e a Predição: O estudo das técnicas rituais e mágicas dos druidas resume-se, em suma, ao exame das diversas aplicações concretas do peso de suas palavras. O druida interpreta o sinal, ou o cria, se necessário, pela força singular da sua magia verbal, seja ela incantatória ou divinatória. O acontecimento muitas vezes se realiza não em virtude de um encadeamento de causas fortuitas, mas porque a palavra ou a predição do druida determinou as condições da sua realidade, a curto ou a longo prazo, constrangendo assim, literalmente, o evento a ocorrer. A predição é simultaneamente uma técnica e a consequência de um saber, de um conhecimento, de capacidades que estendem seus efeitos a todos os domínios da existência humana, incluindo a existência póstuma. A única justificação da eminente posição de toda a classe sacerdotal reside na sua ciência, acrescida da prática do sacrifício, sendo que esta ciência se basta a si mesma e a todos os domínios do conhecimento e do ato religioso.
  • Predição e Política: No contexto das relações entre o druida e o rei, era inevitável que a predição servisse à política, no sentido etimológico de "governo da cidade", e não no sentido moderno de jogos parlamentares. O druida não arrogava para si o título e a função do rei, mas controlava a conformidade tradicional de suas palavras e atos quando não os inspirava, o que ocorria na maioria das vezes. Um exemplo da perenidade desta concepção é a intervenção política dos druidas da Gália, que predisseram o fim do Império Romano, embora com erro de quatro séculos, durante o incêndio que devastou a cidade sob Nero, uma informação atestada por Tacito em Histoires IV, 54 ao relatar que "O fogo era agora o sinal da ira celeste e os druidas cantavam, por uma vã superstição, que o Império das coisas terrestres ia passar aos Transalpinos". Na Irlanda, a predição é um costume generalizado, desempenhando seu papel tanto no governo dos estados quanto nos seus tumultuosos intercâmbios mútuos.
  • Força e Consequências da Predição: A força da predição é tamanha que, uma vez proferida, o druida torna-se incapaz de alterar o curso do destino que ela assinala, como se viu com o jovem Setanta (Cuchulainn) que, ao tomar armas e um carro após ouvir o druida Cathbad anunciar que quem o fizesse naquele dia teria uma vida gloriosa e curta, forçou a resignação ao inelutável, levando Cathbad a confirmar a previsão de que "serás brilhante, serás célebre, a tua vida será curta e de pouca duração". Outras predições, como a de Cathbad à sua esposa Ness sobre o futuro reinado de Conchobar, e a de sete videntes que anunciaram o nascimento ilustre de Conchobar em sincronismo com o nascimento de Cristo, demonstram a importância da predição na legitimação da realeza. No relato da Batalha de Mag Mucrima, a filha do druida Dil, Moncha, aceitou atrasar o parto, a pedido do pai, para que a descendência fosse de uma longa e ilustre linhagem real, resultando no nascimento de Fiacha Muillethan, cuja cabeça foi achatada pela pedra onde Moncha permaneceu imóvel até a hora auspiciosa.
  • Múltiplas Formas de Adivinhação e Conhecimento Druídico: O druida Cathfaid, "chefe dos druidas da Irlanda", demonstrava uma abordagem multifacetada à adivinhação, observando e perscrutando profundamente "as nuvens do ar, a posição das estrelas e a idade da lua" com um pacote de "livros mágicos" para obter a predição e o conhecimento do destino reservado à criança, como no relato do "Exílio dos Filhos de Uisnech". A profunda inserção da predição nos hábitos sociais da Irlanda antiga permitiu a sua transposição para o cristianismo, com a atribuição de profecias anunciando a vinda de São Columba a São Patrício, a outro eclesiástico e até a personagens não cristãos como Finn mac Cumail, que profetizou a vinda do santo a partir do comportamento incomum de seu cão Bran. O relato dos druidas de Conall Gulban, filho de Niall dos Nove Reféns, que predisseram o nascimento de São Columba após os cães terem demonstrado clemência para com a caça, ilustra o quadro conceptual indestrutível do druida que aconselha o rei e o informa do valor profético de um acontecimento insólito ou maravilhoso. Muirchu, autor da Vida Tripartite de São Patrício, demonstra ter uma conceção ainda mais elevada do poder dos druidas ao fazê-los predizer a chegada de São Patrício ao rei Loegaire.
  • Louvor e Censura (A Satira): A função do bardo (ou file irlandês), que era encarregado do louvor e da censura, possui uma dualidade funcional, sendo que o louvor é infinitamente mais frequente do que a censura, a qual se manifesta exteriormente pela sátira. Segundo Strabon (Géographie IV, 4), os bardos são "cantores de hinos e poetas", e Diodoro da Sicilia (Histoires V, 31, 2) é mais preciso ao descrever que "Há entre eles próprios poetas líricos que denominam bardos: estes poetas acompanham com instrumentos semelhantes a liras os seus cantos que são ora hinos ora sátiras". A sátira não é mera poesia, mas sim poesia incantatória e mágica, uma sentença proferida por um druida contra um indivíduo que transgride uma regra do seu estado.
  • O Poder e as Consequências Mágicas da Sátira: A primeira sátira da Irlanda, proferida pelo poeta Coirpre, filho de Etan, contra o rei Bres por falta de hospitalidade, ("Não há riqueza em Bres"), resultou na ruína de Bres, que teve que abandonar a realeza. A sátira pode causar a decaída física (fealdade, deformidade) e intelectual (vergonha, impotência, covardia) e constitui uma verdadeira condenação à morte, como demonstram os casos em que a sátira de Nédé contra o rei Caier fez surgir três protuberâncias no seu rosto e o obrigou a abdicar, ou quando Aithirne Ailgesach e seus filhos usaram o glam dicinn contra uma jovem, deixando em suas faces "três inchaços: Vergonha, Mácula e Fealdade, preto, vermelho e branco", levando-a à morte por vergonha. A lei irlandesa demonstrava que a sátira é a constatação de uma verdade e a busca por justiça, e por isso não devia ser recitada ou cantada sem a dupla presença do autor e do visado. A ameaça de sátira do file Forgoll contra o rei Mongan, que teria satirizado o pai, a mãe e o avô do rei, e cantado contra as águas, as florestas e as planícies para torná-las estéreis, demonstra a enorme potência desta arma verbal.
  • As Consequências do Falso Julgamento: A verdade do julgamento do file ou druida era protegida por sanções automáticas: se um juiz se desviasse da verdade natural, apareciam protuberâncias nos seus rostos. Sencha, filho de Ailill, não pronunciava um julgamento falso sem que lhe viessem três furúnculos ao rosto. Quando Fachtna, seu filho, proferia um falso julgamento na época dos frutos, todos os frutos do território caíam, e na época do leite, as vacas o recusavam aos bezerros. O colar de Morann apertava-se em torno de seu pescoço quando proferia um falso julgamento e alargava-se se proferisse um julgamento exato. O file que proferisse um falso julgamento era excluído da sua profissão e tornava-se incapaz de realizar o teinm laegda ou o imbas forosnai.
  • Evocação e Interpretação de Sinais: Quando o file não sabia, cabia-lhe arranjar uma solução; para obter na sua integralidade a grande narrativa do Roubo do Gado de Cooley (Tain Bo Cualnge), o file Muirgen, filho de Senchan, cantou sobre o túmulo de Fergus mac Roig, que lhe apareceu em belíssimo equipamento e lhe deu conhecimento da Tain completa, ilustrando a prática celta de passar a noite perto dos túmulos dos seus heróis para recolher oráculos, tal como atestava Nicandre de Colofon segundo Tertuliano em De anima 57. O druida também interpretava sonhos, como o de Cathair, no qual o druida Bri, filho de Baircid, discerniu presságios sobre o nascimento de um lago e o poder do rei sobre Banba (Irlanda). De forma mais original, o druida Dub Da Rind interpretou o sonho do rei Muirchertach como um anúncio de morte, ligando o navio naufragado ao fim da sua idade e o grifo à mulher que o levaria à morte por fogo.
  • A Palavra do Druida como Previsão Inelutável: As predições dos druidas são inevitáveis, mesmo as sinistras; ao rei Diarmaid, que perguntava como morreria, os druidas anunciaram calmamente que seria "de assassinato", que usaria uma camisa feita com uma única semente de linho e um manto com lã de um só carneiro na noite da sua morte, que morreria por afogamento numa cerveja feita com um só grão e por queimadura com toucinho de porco que nunca tinha sido parido, e que, apesar de Diarmaid duvidar da probabilidade, tudo se cumpriu e ele sofreu a tripla morte sacrificial. A precisão do druida era valorizada, sendo que o rei Conn teve que esperar cinquenta e três dias para o seu druida nomear e explicar o grito da Pedra de Fal, presságio de soberania, mostrando o cuidado em assegurar a "explicação conveniente".
  • O Triunfo da Magia Cristã sobre a Druídica: O conflito entre o rei Cormac, convertido ao cristianismo, e o druida Maoilgheann, que adorava o bezerro de ouro, levou à morte do rei, atingido por uma espinha de salmão na garganta por instigação do druida, o que demonstra a fatalidade quando a solidariedade entre rei e druida é rompida por motivos religiosos. No entanto, na hagiografia irlandesa, a luta do druida e do santo é sempre mágica e não doutrinária, sendo que o santo não converte o druida pela virtude das parábolas, mas vence-o no seu próprio terreno, impedindo-o de exercer a sua magia ou, em casos extremos, matando-o. O santo Patrício utilizou o jejum contra Deus e impôs o jejum aos reis, o que era, na lei irlandesa, uma tática de credor plebeu contra devedor nobre, obtendo favores e fundações monásticas, mas deixando de dar conselho político ou jurídico.
  • Princípios Fundamentais do Ideal Druídico: O conjunto dos documentos descreve técnicas inseridas no domínio das grandes ideias religiosas e revelam o ideal que governava a "espécie druida", mostrando uma sociedade arcaica e anacrónica. Os narradores irlandeses não inventam prodígios, mas transmitem um relato por uma tradição venerável, aceitando-o porque não está em seu poder alterá-lo. O ideal descrito a propósito de grandes figuras lendárias como Cathbad, Mog Ruith, Dallan e Sencha é revelador das conceções fundamentais que governavam toda a espécie "guerreiro" ou toda a espécie "druida".

Principais Empregos da Palavra do Druida nas Técnicas Rituais e Mágicas
  • Dénominação: O druida impõe o nome ao nascimento ou nos primeiros anos de vida em função de uma circunstância ou de uma causa muito precisa.
  • Injunção ou Interdito: Por injunções (positivas) ou, mais frequentemente, por interditos (negativos), o druida impõe a um indivíduo, qualquer que seja, uma ou mais regras constrangedoras. Um sinal de morte próxima é que este indivíduo, rei ou herói, seja colocado pelos acontecimentos numa situação tal que não possa fazer de outra forma senão violar os seus interditos.
  • Predição: É geralmente solicitada, enquanto serviço político (ou pessoal), por um rei (ou uma rainha) a um druida para conhecer um futuro próximo ou longínquo. A predição não é obrigatoriamente favorável ou desfavorável, sendo, do ponto de vista dos druidas, uma ciência exata cujas técnicas se aproximam muitas vezes das da adivinhação, acompanhadas, em casos sérios, de sacrifícios.
  • Louvor: É a matéria mais usual do poema oficial celta (poesia de corte); o druida ou file, na Gália o bardo, louvam o rei ou o príncipe a quem estão ligados por todas as suas qualidades físicas e intelectuais, seus feitos, sua coragem, sua força, sua celebridade e sua generosidade. O louvor é obrigatório aquando das cerimónias fúnebres.
  • Censura: O blame é o contrário do louvor e, por este facto, praticamente ausente dos relatos ou compilações poéticas. Foi, na generalidade dos casos, confundido com a sátira da qual é, todavia, teoricamente distinto.
  • Sátira: A sátira é uma incantação cantada e rimada, dirigida contra um indivíduo expressamente nomeado ou um grupo humano bem definido. Toda a incantação não é obrigatoriamente uma sátira, mas toda a sátira, qualquer que seja, é incantatória: ela provoca a decaída física (fealdade, deformidade) e intelectual (vergonha, impotência, covardia) e constitui uma verdadeira condenação à morte.