Onde na Luz se encontram todas as luzes e nas Trevas todas as trevas, a essas luzes e a essas trevas, esplendor sem igual, homenagem!
No curso da verdadeira tradição, o Trika foi explicado de muitas maneiras, mas é [aqui] segundo Utpaladeva que a essência dos Tantra é exposta.
Sempre completamente novo e secreto, antigo e universalmente conhecido, este Coração sem-igual fulgura de si mesmo em supremas irradiações.
Aqui, a divindade que é nosso próprio Si, estando prestes a atingir o despertar perfeito, interroga este Si, tendo [para isso] se encarnado por uma fração apenas de sua Consciência. É por isso que se diz: “a Deusa diz”. O que ela pede?
— Eis:
Ó Deus, como o Sem-Igual dá de si mesmo a perfeição de kula, ele que basta conhecer para obter a identidade com khecari?
Ó Deus, o senhor que é nosso próprio Si e que, por toda parte, no conhecimento e na ação, é presente e primeiro, seu aspecto sem-igual é o mais alto, preeminente, o que está acima de tudo. Ele é o sujeito que apreende em relação a tudo o que é inerte. Mas, em relação a ele, puro sujeito consciente, brilhando por si mesmo, nenhum outro pode se encontrar na situação de sujeito que apreende: daí vem que ele é sem igual.
Desde então, o Sem-Igual sendo suprema consciência, sem cessar e por toda parte manifesta, para quem não existem antes nem depois, tempo nem lugar, e nada podendo escondê-lo, o que dizer aqui? — Eis, em verdade, o que se diz: como, por que meio ele dá de si mesmo, ou seja, livremente, os poderes que são manifestados já que são cognoscíveis pelas duas [categorias de] sentidos e que são de kula, ou seja, pertencentes ao conjunto de kula, cujos aspectos sem precedentes são os corpos, os sentidos, os mundos, etc.
[Se se refere aos sentidos atribuídos à raiz DA:] “Da: para expressar o dom”, “da: para expressar o corte”, o sentido a tirar da raiz [na expressão siddhidam: “que dá a perfeição”] é: ele emite e ele reabsorve.
Mas, se ele é pura consciência, sem igual, como pode fazer isso? Deve-se entender que ele brilha sempre novamente por uma diferenciação — da qual se pode discutir — em objetos a conhecer, conhecimento, sujeito conhecedor, etc. Mas ainda, dir-se-á, como isso? [A resposta é:] “basta conhecer”, ou seja, que ao conhecer desta forma, por si mesmo, se obterá, se chegará a, se conhecerá, a identidade — que é plenitude e ausência de dualidade conceitual — com khecari, esta energia da consciência que se move no nível do despertar espiritual.
Sem tal conhecimento [não se alcançará] khecari, pois esta não se move [no nível do] objeto a conhecer fragmentado, onde não há despertar espiritual. A energia, de fato, quando é limitada por objetos a conhecer tais como o azul, etc., perde sua plenitude.
Os poderes obtidos pelo [controle do] sopro, o yoga, etc., são [alcançados] por meio de um processo de concentração, etc. [Pode-se, por outro lado, perguntar] como o Sem-Igual, pura consciência e atemporal, pode dar a perfeição de kula, associada à sucessão temporal, Ele que basta conhecer para atingir a natureza da Deusa.
Ó Senhor, que é meu Si, diga este segredo, grande não-secreto. Esta energia que permanece no Coração, que é kaulini e kulanayika, graças à qual eu encontrarei um perfeito assouvissement, diga-a para mim, ó Mestre dos deuses.
Este não-manifestado, extremamente grande, ou seja, eminente; não-secreto, ou seja, brilhando por si mesmo; sendo tal como é, ó Senhor, o senhor que por natureza é a causa original [dos ciclos da manifestação] ao esconder e ao manifestar sua essência, ó eu, ou seja, eu mesmo, a mim, pura consciência que [p. 3] faz a pergunta, diga, ou seja, conduza-me no caminho da tomada de consciência que se termina [em seu nível inferior] pela continuidade da linguagem ordinária.
Mas [o Senhor] não fulgura, como sujeito que percebe, no coração de todos? Desde então, por que esta pergunta?
— É verdade, mas embora ele fulgure ali, ele não é, no entanto, verdadeiramente tomado no coração.
Ora, o que não é realmente tomado no coração, embora manifestado, é como se não existisse, tais como as folhas, a erva, etc., para o carro que passa. O assouvissement é obtido quando se chega a esta tomada no coração: é o estado de liberado vivo. E o assouvissement, que deve ser atingido pela compenetração de [a alma e de] esta Energia, é também um poder sobrenatural. Este assouvissement tem, portanto, um duplo aspecto, e ele não pode ter lugar sem tomada de consciência. A pergunta se justifica, portanto: se vai mostrá-lo.
Esta Energia tem por característica a total liberdade. Ela permanece no Coração, ou seja, se encontra no Coração que é consciência absoluta. Sua família (kula), constituída pelo círculo dos objetos apreendidos, do sujeito que apreende, e da apreensão, é seu objetivo, pois é isso que ela deve produzir. É por isso que [a Energia é chamada] kaulini. Desta família uma vez produzida, ela é a mestra, ou seja, aquela que a domina. Ela causa a manifestação dela ao tomar consciência dela e ela reabsorve a essência dela. Isso, diga-o para mim, ou seja, conduza-me no caminho da tomada de consciência global. Graças a isso, sendo guiado para esta tomada de consciência global, eu encontrarei o assouvissement, ou seja, a fruição e a liberação. Diga-me — é um causativo — esta forma de consciência.
Assim, quando a suprema Consciência, estando prestes a ser perfeitamente desperta, faz uma pergunta cuja natureza é a da mais alta realidade mas com o brilho ainda escondido, então, atingindo o estado de perfeito despertar, a plenitude, e sendo o deus Bhairava, ela se torna dispensadora da resposta. Não há ali nada [do qual se possa dizer] “isso é em primeiro, isso vem depois”. Tudo pertence somente ao passado, [ou seja, se passa no mesmo momento]. É de fato somente pela concepção mental de divisão do tempo que [uma coisa parece] se passar depois [da outra]. É assim aqui porque [o diálogo é relatado] no passado e isso é dito desta forma porque a [suprema Consciência] não pode ser conhecida diretamente por causa de sua natureza divina, mas somente de maneira indireta.