91. Eis aqui que tua mina produziu outras dez. Perfeita resulta essa providência de chamar os gentios e fazer condenar aos judeus, posto que estes não quiseram ter a Cristo por rei, o qual lhes propôs essa parábola para que não pudessem dizer "que não havia dado aos judeus nenhuma predileção para que pudessem ter sido melhores"; ou então, "porque reclamar algo daquele que nada recebeu ?" Em verdade, esta mina não tem um valor desprezável, já que por ela, como vimos antes, a mulher do Evangelho acendeu uma luz, pois antes não a buscava com ajuda dessa luz, e, uma vez encontrada, se felicitava sem cessar (Lc 15,8).
92. Ao fim, um, com uma mina, logrou produzir dez minas mais, e outro cinco. Quiçá tenham estas minas uma aplicação moral, vendo nelas os cinco sentidos do corpo, e nas dez, que são o dobro, os mistérios da Lei e a prática da virtude. Por isso também em Mateus se encontram os cinco talentos e os dois talentos, com o fim de que os cinco sejam uma figura da prática, e os outros dois sejam, por sua vez, da ascética e da mística. E assim, este último, que é em menor número, é de um conteúdo muito mais rico. Também podemos ver nas dez minas o decálogo, quer dizer, a doutrina da Lei, e nas cinco, as normas de uma boa conduta. Mas, a mim me parece que um doutor da Lei deve ser perfeito em tudo: pois não está em palavras o reino de Deus, mas sim em realidades (1 Cor 4, 20).
93. E posto que fala dos judeus, cita, muito bem de acordo, que só dois foram os que apresentaram um capital que havia crescido, e não por rendas pecuniárias, mas sim pela predicação, já que uma coisa é o juro do dinheiro aplicado em crédito e outra diferente a da doutrina celestial.
94. Aliás, quando o Senhor disse: Porque não entregaste meu dinheiro ao banqueiro?, não reclama nosso dinheiro, mas sim o seu.
95. Um disse que o escondeu na terra (Mt 25,18), parecendo querer dizer que havia ocultado a razão, dom que leva impresso a imagem e semelhança de Deus, no esconderijo dos maus desejos, sepultando-a na fossa da carne. Não se fala dos outros que, como pródigos devedores desperdiçaram tudo o que receberam. Nestes dois estão representados o pequeno número daqueles que por duas vezes foram enviados aos trabalhadores da vinha (Lc 20, 10), enquanto que os outros simbolizam os judeus. Também Mateus nos quis dar a explicação desta comparação do seguinte modo: Igual que o rico, que não distribuiu suas riquezas entre os pobres, assim também, quem não dispensou o benefício de sua doutrina para os ignorantes quando lhes podia ter ensinado, se torna réu de uma culpa bastante grave. E como isto temos tratado nos livros da fé, é conveniente passar para outro ponto.
96. Quanto as dez cidades, que outra coisa podem significar senão essas almas ante aqueles que se colocam como modelos, com toda justiça, à Esse que depositou nas inteligências dos homens o dinheiro do Senhor, quer dizer, "essas palavras castas e acrisoladas como a prata" ? (Sal 11, 7). porque as almas pacíficas são, ao igual que Jerusalém, cidades bem construídas (Sal 121, 3). E do mesmo modo que os anjos presidem a ela, assim também o farão aqueles que mereceram possuir a mesma vida dos anjos.