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id da página: 3612 Aristóteles Faculdades Alma Aristóteles

Aristóteles Faculdades Alma

Aristóteles — Faculdades da Alma

AS FACULDADES DA ALMA

Das faculdades da alma, a alguns viventes pertencem todas as mencionadas, como dissemos; a outros, algumas delas; ainda a outros somente uma. As faculdades que indicamos são as da nutrição, o apetite, a sensação, o movimento local, o pensamento. Nas plantas só se encontra a nutrição; em outros entes, esta e a sensação, e se têm sensação têm também o apetite, pois o apetite compreende o desejo, a coragem e a vontade; porém os animais todos têm, pelo menos, uma das sensações, o tacto, e onde há sensação há prazer e dor e o agradável e o penoso, e onde estes se encontram, também o desejo, pois este é apetite do agradável. Possuem, ademais, a sensação da nutrição, porque o tacto é o sentido do alimento; todos os animais, com efeito, alimentam-se de coisas secas e úmidas, quentes e frias (e o sentido destas qualidades é o tacto, que só o é acidentalmente das demais sensíveis); pois para a nutrição nada contribuem o som, a cor nem o odor, e o sabor é uma das qualidades tangíveis. A fome e a sede são desejos: a fome, do seco e quente; a sede, do frio e úmido; e o sabor é como um condimento dos mesmos. Será mister explicar estas coisas mais adiante; no momento, baste dizer sobre isso que os animais que têm tacto possuem também o apetite. A respeito da imaginação, não está claro: será necessário indagar depois. A alguns pertence, além destas coisas, a locomoção; a outros também a faculdade de pensar e o entendimento, como aos homens, e se há algum outro ente semelhante ou superior.

É evidente, portanto, que há uma única definição da alma, do mesmo modo que há a da figura; pois nem neste caso há figura alguma fora do triângulo e das demais, nem no outro há nenhuma alma fora das mencionadas. Poderia haver também uma definição comum às figuras, que conviria a todas mas que não seria própria de nenhuma delas. O mesmo ocorre com as almas enumeradas. Por isto é ridículo, acerca destas coisas e de outras, procurar a definição comum, que não será uma definição própria de nenhuma das coisas, nem aplicável à espécie particular e ínfima, descuidando este último tipo.

E é semelhante o que ocorre com as figuras e com as almas: pois sempre está em potência o anterior no consecutivo, tanto entre as figuras como entre os entes animados; por exemplo, no quadrilátero, o triângulo, e no sensitivo, o nutritivo. De tal modo, que em cada caso se deve investigar qual é a alma de cada vivente; por exemplo, qual é a da planta e qual a do homem ou a do animal. Deve-se indagar qual a causa de estarem nesta ordem: porque sem o nutritivo não existe o sensitivo, mas o nutritivo está separado do sensitivo nas plantas; também sem o táctil não existe nenhuma das demais sensações, porém o tacto existe sem as demais, pois muitos animais não têm nem vista, nem ouvido, nem sentido do sabor; e dos entes sensitivos, uns têm a faculdade da locomoção e outros não a têm; por último, muito poucos têm ademais raciocínio e pensamento, pois aqueles dos entes corruptíveis que possuem razoamento têm também todas as faculdades restantes, enquanto que os que possuem qualquer destas não têm, todos, raciocínio, alguns carecendo de imaginação e outros vivendo só dela. Quanto ao entendimento teorético, é outra questão. É claro, portanto, que falar acerca de cada uma destas faculdades é também o mais adequado para tratar da alma.

(De Anima, II, 3.)


A ALMA E AS COISAS


Recapitulando agora o que dissemos acerca da alma, repitamos que a alma é de certo modo todas as coisas; pois todos os entes são ou sensíveis ou inteligíveis, e a ciência é, em certo sentido, o sabido nela, e a sensação o sentido; como é assim, é preciso investigar.

A ciência e a sensação se dividem segundo as coisas; a ciência e a sensação em potência correspondem às coisas em potência, e as mesmas em ato, às que estão em ato. A faculdade sensitiva e a faculdade cognoscitiva da alma são em potência seus objetos, isto é, o cognoscível e o sensível; e é mister que sejam idênticas a eles mesmos ou a suas formas; porém não o podem ser a eles mesmos, pois não está a pedra na alma mas apenas sua forma. De tal modo, que a alma é como a mão, pois assim como a mão é o instrumento dos instrumentos, o entendimento é a forma das formas, e o sentido a forma dos sensíveis.

Porém visto que não há, segundo parece, nenhuma coisa separada, à parte das magnitudes sensíveis, as formas inteligíveis existem nas sensíveis, tanto as que chamam abstratas, como as qualidades e aquilo que afeta as coisas sensíveis. E por isto o que não sente não poderia aprender nem compreender nada, e quando alguém contempla, tem que contemplar em presença de uma imagem, pois as imagens são como percepções sensíveis, salvo que são imateriais. A imaginação, sem dúvida, é diversa da afirmação e da negação, porque o verdadeiro e o falso consistem em uma complexação de noções. Porém, em que difeririam as noções primeiras das imagens? Não são certamente imagens, mas não poderiam existir sem imagens.

( De Anima, III, 8.)