BARET, Éric. De l’abandon. Paris: les Deux océans, 2004
Crê que pais possam aceitar a realidade quando têm um filho que fuma muito haxixe e que prejudica a saúde de uma forma ou de outra? Esses pais são violentos quando tentam uma ação para tentar mudar a situação?
Segundo nosso passado, nossos pais, a época em que nascemos, os meios que frequentamos, desenvolvemos a convicção inabalável de que o haxixe é dramático ou anódino. Esse preconceito, não podemos deixar de colocá-lo em ação. Não temos escolha nisso, é preciso aceitar.
Aqui, não se sugere contribuir em um sentido ou em outro, mas ver que nossa projeção sobre o haxixe ou sobre qualquer outra coisa depende de nosso nível cultural, intelectual ou outro. Lemos os jornais, experimentamos, interagimos, estudamos; adotamos certos pontos de vista; em função disso agimos.
Aceitar quer dizer escutar. Escutar quer dizer não saber nada. Se realizamos essa escuta de que se fala aqui, nos libertamos no instante de tudo que sabemos sobre o haxixe e sobre nosso filho. Nessa ausência de julgamento, o que resta? A não separação. Essa emoção, a compartilhamos com a criança. Aí, vamos encontrar a expressão apropriada. O que vamos dizer a nosso filho não importa: o importante é a maneira, o momento em que o diremos. Se lhe falarmos em um momento inapropriado, provocaremos o inverso do efeito esperado. O momento da tomada de um medicamento importa tanto quanto o medicamento. Segundo a hora, a mesma dosagem terá um efeito 30, 50 ou 80% menor, poderá até ser contraindicado: nosso Ocidente atrasado começa a descobrir isso... O mesmo vale para o que dizemos a alguém.
Em nossa escuta, sentimos o dia, o instante, a maneira de falar a nosso filho. Não buscaremos convencê-lo a fazer o que pensamos, mas tocar nele um espaço de ressonância no qual ele poderá escutar o que dizemos, e no qual o que ele escuta vai tocá-lo, efetivamente. Em seguida, segundo sua maturidade, segundo se é inteligente ou estúpido, segundo toda sua vida, ele poderá ressoar com o que transmitimos. Porque transmitimos uma escuta, um convite a olhar a situação.
Mas se quisermos transmitir informações, permaneceremos em um domínio muito limitado. Diremos a ele que lemos cinco livros provando que o haxixe é ruim: se não for idiota, ele trará dez demonstrando que não é tóxico. Nenhum aprofundamento é possível dessa maneira...
A única coisa a fazer com uma criança é levá-la a escutar a situação. Como se sente quando usa haxixe? Psicologicamente? Fisicamente? Como sente seu ambiente?... Claramente, levá-la a ver o que isso implica. Menos transmitirmos conhecimentos, mais ela poderá escutar, aprofundar e discernir suas próprias conclusões. Se dissermos: "Proíbo você de usar", ele usará em outro lugar. É preciso permitir que ele compreenda, escute, olhe como se sente em tal ou qual circunstância. Isso exige de nós a humildade de não saber nada.
Escutemo-lo, escutemos sua angústia, sua alegria.
Parar tal ou qual coisa supostamente nociva não serve para nada. A criança parará o haxixe e beberá álcool; suprimirá o álcool mas frequentará prostitutas, etc. O problema não está aí. O problema é levar a pessoa, segundo sua capacidade, a olhar claramente. Assim evita-se o conflito de gerações que aparece quando os pais pretendem saber. A criança pode então replicar: "Sua vida é tão bem-sucedida, vocês são tão totalmente felizes, para pretender me ensinar?" Iremos rapidamente ficar sem argumentos.
Portanto, em vez de transmitir informações de segunda mão, melhor explorar o assunto com ele. Compartilhar humildemente nossos medos exige uma grande escuta, uma grande humildade. Mas são nossos medos, não necessariamente os dele: a criança pode ouvir nossos medos. Se dissermos "Você deve ter medo", ele ri, pois fumar um baseado não lhe dá medo. Dizer a ele: "Tenho medo quando vejo você fumar", já é mais sincero: ele pode ouvir isso. Afirmar: "Se fizer isso, vai ter problemas": ele já fez e nada lhe aconteceu; esse discurso não tem alcance.
Portanto, falamos de nossos medos, não dos dele. Falamos do que nos é difícil, não do que lhe é difícil – isso, não podemos conhecer. Em nossa honestidade, ele encontrará a sua, e talvez nos confiará certas coisas que o levam a fumar ou a ter esses comportamentos que nos inquietam.
Tudo isso vem da escuta, do não saber.
As religiões transmitem todas um saber... Constatamos o resultado! Toda guerra vem da pretensão de saber o que é justo. Em um espaço de humildade, nenhum conflito é possível. Isso é verdade tanto no plano geopolítico quanto no plano individual.