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id da página: 587 Eric Baret – Do Abandono – Técnica Baret

Baret Tecnica

Eric Baret – Do Abandono – Técnica


BARET, Éric. De l’abandon. Paris: les Deux océans, 2004

Aconselhas a não pensar durante a prática de uma arte. No entanto, há a técnica. Se não a dominamos, fazemos rabiscos.

Claro. Para expressar o sentido, cantar, dançar, fazer um círculo em uma página branca, dar um soco, atirar com arco, uma vida inteira é necessária.

Todas as artes demandam um fervor total, mas é pela alegria. Trabalharemos enormemente, e cada vez melhor. Depois com a idade vamos enfraquecer, nosso traço ou nosso passo será um pouco vacilante, nosso soco menos percussivo, regrediremos. Mas como nos situamos nesse sentido, não colocamos a ênfase na técnica, mesmo quando formos muito idosos, que nossa pintura ou nossa arte marcial tenha perdido sua majestade técnica, a emoção que transmitirmos permanecerá intensa.

Se há apenas técnica sem maturidade, com a idade ocorre uma forma de decadência. Constatamos isso nos dançarinos. Aqueles que se expressam pelo sentido dançam ainda depois dos 50 anos. Aqueles cuja expressão dependia da técnica perdem o gosto por isso a partir dos 40 anos.

Isso é verdade para todas as artes: aquele que se agarra à técnica é psicologicamente afetado pelo envelhecimento, mas para aquele que evoluiu pelo coração, nesse despojamento de si mesmo, outra coisa assume a técnica. Um outro corpo está aí, um corpo não representável.

O corpo não é o corpo. É preciso uma forma de maturidade para se dar conta disso.

E quando a técnica, justamente, se torna difícil, que o sentido está presente mas passamos por estágios de sofrimento para dominar essa técnica...

Na prática de artes marciais podemos ter dor, mas é pela alegria. A incapacidade momentânea de um poeta de encontrar uma rima provoca um sofrimento, mas há alegria. Para um escritor sem inspiração ou para um artista antes de subir no palco: é igual. Essa angústia não é uma angústia psicológica: participa da vida... exceto se algo não estiver integrado.

Antes da expressão artística como antes de encontrar nosso amante, ocorre uma espécie de febrilidade. Não é uma estratégia ou uma preparação, mas uma espécie de eco. Antes do encontro, já há o encontro. Antes de subir no palco, já estamos nele. De fora pode-se acreditar que é nervosismo, mas não congela. Essa chama vai permitir a expressão.

Quando o ator ou o artista permanece na angústia ou na dificuldade, é que deixou o que é essencial. Isso acontece, mesmo entre os grandes pintores. Visitem o ateliê da maioria dos pintores: encontrarão telas inacabadas. Algo não estava mais aí e, por respeito, não quiseram terminar tecnicamente. Constatamos isso também na música...

Inversamente, quando não pode mais lutar, um velho mestre de arte marcial vive sempre sua arte, mesmo que não seja perceptível do exterior.

A técnica se aprende, seja qual for o medium. Só o Ocidente decadente imagina que um poeta ou um escritor possa escrever sem aprender poesia ou possuir o domínio da língua, que um pintor possa realizar uma obra-prima sem conhecer a técnica da pintura. Isso não impede pessoas extremamente talentosas de passar por cima; mas se tivessem possuído mais técnica, teriam ido ainda mais longe na expressão.

Jean Klein dizia que trabalhar era agradecer. Praticar a técnica era para ele o sinal do respeito para com a vida. Nenhuma preguiça possível: a paixão, a intensidade, o fervor. Nada de amadorismo. A técnica deve ser aprendida pelo coração, por amor à arte. Então ela se torna fácil, e mesmo a dificuldade, o obstáculo, não são problemas.