CHARBONNEAU-LASSAY, Louis. Le Bestiaire du Christ. Paris: Desclée de Brouwer, 1934
I. O ANJO, EMBLEMA DE JESUS CRISTO
Veremos que três partes do corpo do homem, a Mão, o Coração e a Língua, foram tomadas isoladamente pelos simbolistas, para figurar o Poder do Redentor do mundo, seu Amor e a Palavra pela qual ele deu a conhecer aos homens "a Doutrina excelente"; mas o corpo humano completo com o qual a alma de Cristo foi unida na terra, que sofreu e morreu no Calvário, e sob o aspecto do qual os artistas de todos os tempos cristãos no-lo mostraram, só o representou simbolicamente sob a forma convencional do homem alado atribuída ao Anjo.
Esta forma, os gênios benfazejos já a haviam recebido na arte caldaica e nas artes da Grécia antiga, muito antes de nossa era; a arte cristã primitiva a adotou para representar convencionalmente os anjos — dos quais a Bíblia nos diz que se manifestaram algumas vezes sob as aparências de belos e jovens homens —, e também algumas vezes para figurar Cristo tomado como Angeles, como "Anjo", isto é, como "Enviado", como mensageiro do Pai, e portador da salvação.
Veremos este corpo humano e suas asas, sozinho, no Tetramorfo que reúne, como os Animais de Ezequiel, suas quatro faces. E o Tetramorfo que evoca, para o cristão, os quatro Evangelhos, representa a "Boa Nova", a doutrina desconhecida até então trazida por Cristo na terra e se refere ao seu caráter angélico de Enviado do Pai.
O Gelásio do século VI assim se expressa: Cristo é Angélus, quia missus; "Anjo, porque mensageiro"; ao que a Igreja latina faz eco invocando assim o Cristo; Jesu, magni consilii Angele, "Jesus, Anjo do Grande Conselho."
Muito cedo, os comentaristas dos Livros sagrados designaram como manifestações do Verbo divino, que seria o Cristo no curso dos séculos seguintes, os Anjos que, na Bíblia, transmitem aos humanos a palavra de Yahweh, por exemplo aqueles que se manifestaram a Abraão, a Jacó, a Moisés na Sarça ardente; eles viram também, este Verbo eterno, no anjo que reconfortou os jovens hebreus na fornalha da Babilônia; eles lhe assimilaram o anjo de Yahweh e o cavaleiro que, em Zacarias, se mantêm entre os mirtos, e o anjo do Livro dos Juízes que diz chamar-se "o Maravilhoso". É sempre o anjo de Yahweh, diferente de Miguel, de Gabriel, de Rafael, de Uriel; é mais mesmo que o Maléak dos Hebreus, "isto é o Enviado de Deus, o Anjo no qual está Deus", é o Anjo-Verbo do começo das coisas "que estava em Deus, que era Deus" segundo os termos de São João. Os comentaristas o reconhecem neste Anjo esperado de que fala Malaquias: "Eis que vos envio meu mensageiro, ele preparará o caminho diante de mim, e subitamente virá em seu templo o Senhor que buscais, o Anjo da Aliança que desejais."
Os artistas se fizeram algumas vezes os intérpretes dessas opiniões teológicas: deram então a Jesus Cristo a aparência convencional do Anjo, tal como sua época de vida a havia adotado. Outras vezes substituíram diretamente Jesus ao anjo bíblico: foi o fato de Nicolas Froment que, no século XV, em seu belo quadro da Sarça ardente da catedral de Aix-en-Provence, colocou o Salvador nas chamas do arbusto em brasa. Às vezes mesmo, ele porta asas como os anjos, assim como o vemos no medalhão central de uma cruz de altar, de feitura medieval, (Fig. I) e no duplo triângulo de uma pintura bizantina do século XV (Fig. II).
II. A FORMA HUMANA ATRIBUÍDA AO ANJO NO CURSO DOS SÉCULOS
Não é este o lugar de estudar em detalhe as diversas formas humanas escolhidas pela arte cristã para representar os anjos, e, ocasionalmente, Jesus Cristo enquanto Anjo supremo; digamos somente que, nos primeiros séculos cristãos, os ortodoxos romanos e os gnósticos nos mostraram os anjos com um corpo humano, revestidos de uma roupa justa na cintura, e providos de um par de asas de pássaro. O meio do primeiro milênio foi mais idealista algumas vezes: é assim que os anjos aparecem no século VI, numa miniatura de Kosmas Indikopleustes, como formados de um rosto humano portado sobre vários pares de asas elegantemente dispostas. (Fig. III). A arte bizantina os mostrou em radiantes visões nos trajes suntuosos dos oficiais ou dos arautos do palácio imperial; não são eles os arautos e os ministros do Imperador do Paraíso? A Idade Média ocidental, durante a época românica, os figurou de todas as maneiras, mas sempre hieráticos e muitas vezes providos de asas múltiplas; no antigo pórtico da abadia de Saint-Bénigne, em Dijon, os anjos tinham quatro asas (Fig. IV); e no tímpano de Notre-Dame du Port, em Clermont-Ferrand, três pares de asas os envolvem, tipo impressionante que pode permitir saudá-los com as palavras de Dante:
...Fuochi pii
Che di sei fannosi cuculla...
"piedosas chamas que se fazem um hábito de suas seis asas..."
Na última parte da Idade Média, o Anjo se humanizou mais e os maravilhosos espíritos que pintou Fra Angelico são radiantes aparições do tipo humano mais deliciosamente idealizado.
Ao mesmo tempo, o hábito de figurar São Miguel sob o aspecto de um cavaleiro coberto de sua armadura conduziu a representar também, algumas vezes os anjos anônimos sob esse mesmo arnês de guerra: os Anjos não são a milícia do Deus dos exércitos celestes? Em Ewelme, em Oxfordshire, o artista que decorou, no fim do século XV, o túmulo da duquesa de Suffolk fez alternar ao redor os anjos-levitas e os anjos-cavaleiros; estes últimos armados de pé em capa portam largos escudos, e todos são providos de asas repliadas.
Os três últimos séculos da Idade Média viram adotar uma forma mais imaterial que reduziu o Anjo ao só rosto humano enquadrado de duas asas, figura muito etérea que, pela supressão do corpo e dos membros aproxima o Anjo de "a Ave do Paraíso" dos simbolistas desse mesmo tempo. Esta criação, tímida e rara ainda no século XIII (Fig. V) tornou-se frequentemente empregada no fim do XV, por exemplo o belo círculo angélico que cerca o coro da igreja Saint-Séverin, em Paris; mas este tipo tão elevado foi rebaixado muito rápido pela aplicação muito material que a Renascença dele fez a Eros, ao amor profano.
III. A FORMA HUMANA DE SATANÁS
Nas artes, Satanás, o Anjo caído, recebeu muitas vezes a forma do Anjo celeste; mas então índices ignominiosos o traem: pés de bode, orelhas de fauno, pois ele é "o Anjo da Luxúria"; de ordinário suas asas são membranosas como as do morcego, porque ele é o "Príncipe das trevas"; enfim nossos pais proveram sua fronte de chifres porque ele é o chefe das "Potestades do Mal", e o dotaram da cauda símia, porque ele é o "Macaque de Deus".
E, para marcar ainda mais a decadência do Anjo maldito, os artistas o figuraram muitas vezes sob as formas bestiais do bode, do sapo, da salamandra, da hidra, do dragão do vampiro, do porco, da serpente. A cada capítulo desta obra, ou quase, encontraremos essas vis formas emblemáticas que se opõem aos divinos símbolos de Cristo glorificado.