CHARBONNEAU-LASSAY, Louis. Le Bestiaire du Christ. Paris: Desclée de Brouwer, 1934
I. O ASPECTO DO TETRAMORFO
Inspirando-se sobretudo no texto da visão de Ezequiel, os artistas cristãos representaram na maioria das vezes os quatro Animais sagrados por suas quatro cabeças enxertadas pelo pescoço em um corpo humano. Mas, detalhes na composição desta imagem estranha são por vezes emprestados a São João, tal como o uso de seis asas em lugar de quatro e os olhos numerosos que, às vezes também, cobrem certas partes do Tetramorfo; e mesmo a visão de Isaías relativa aos Serafins parece ter exercido também influência sobre várias dessas representações.
Eis algumas dessas hieráticas e surpreendentes figuras:
A primeira, que data do século XI, está pintada a fresco no mosteiro de Vatopédi, que faz parte do grupo religioso do Monte Athos, na Grécia (Fig. I). O Ser que apresenta é provido de seis asas, e seus pés humanos repousam sobre rodas aladas; olhos recobrem cada uma das asas.
A segunda imagem tetramórfica, do século XI também, está pintada em miniatura na Bíblia de Lobbes, que se encontrava no século XIX, no seminário de Tournay (Fig. II). É inspirada apenas em Ezequiel, porta apenas quatro asas e cascos de bovino.
O terceiro Tetramorfo figura sobre uma placa esmaltada do Museu do Louvre, que parece ser do século XIII (Fig. III); as asas ali estão em número bastante mal definido e uma delas forma, sobre o peito humano, uma espécie de escudo todo recoberto de olhos, de contorno cordiforme.
O quarto Tetramorfo, de arte bizantina e menos antigo talvez que os outros, foi-me comunicado pelo Revmo. Pe. Léon de Lyon, conservador do Museu Franciscano de Roma; o original é uma pintura proveniente da região de Esmirna: as seis asas e os braços do Ser humano ali estão em notável disposição cruciforme (Fig. IV).
Alguns artistas antigos arriscaram Tetramorfos fantasistas que, na maioria, não são felizes invenções: assim o iluminador do Hortus deliciarum, da abadessa Herrade de Landsberg, pintou, no século XIII, as quatro cabeças hieráticas sobre o corpo de um quadrúpede, singularidade que se vê também num vitral de Friburgo em Brisgóvia. Às vezes mesmo este quadrúpede porta um pé de homem, uma garra de leão, um casco de boi e uma garra de águia: o tipo do só tema bíblico é bem bastante estranho para que se possa dispensar complicá-lo ainda mais.
II. O TETRAMORFO, EMBLEMA QUÁDRUPLO DE JESUS CRISTO
Tal como o representam as imagens reproduzidas nestas páginas, o Tetramorfo realiza em um só conjunto os grandes caracteres místicos que os Padres da Igreja e os Doutores antigos atribuíram a Jesus Cristo. É conforme eles que, no simbolismo medieval, o corpo e o rosto humanos do Tetramorfo recordam o "Filho do Homem que, por nós, os homens, e para nossa salvação desceu do céu"; a face de leão diz que ele é rei; a cabeça do touro dos sacrifícios exprime que ele é ao mesmo tempo sacerdote e vítima; e a da águia proclama que, Deus ao mesmo tempo que homem, ele veio do céu e que para ele retomou o caminho.
E foi ainda conforme os mestres da fé cristã que, na Idade Média, Pedro de Capua escreveu estas palavras: Fuit homo nascendo, vitulus moriendo, leo resurgendo, aquila ascendendo.
"Foi homem por seu nascimento, bezerro por sua morte, leão por sua ressurreição, águia por sua ascensão".
No século XII, o arcebispo de Tours, Hildeberto de Lavardin, assim se expressava, de sua parte:
Christus Homo, Christus Vitulus, Christus Leo, Christus Est Avis, in Christo cuncta notare potes.
Est Homo dum vivit, Bos dum moritur, Leo vero Quando resurgit, Avis quando superna petit.
O que se pode traduzir literalmente assim:
Cristo é Homem, Cristo é Bezerro, Cristo é Leão, Cristo é Ave; em Cristo pode-se notar tudo. É um Homem quando vive, um Boi quando morre, é o Leão quando ressuscita e a Ave quando aos céus se dirige.
E não se diria uma paráfrase deste texto nestas linhas do manuscrito medieval nº 102 da biblioteca da cidade de Lille, falando de Jesus Cristo:
"Primeiro, de sua humanidade, por isso tem face de homem; segundo, de sua Paixão, por isso tem face de boi; terceiro, de sua ressurreição, por isso tem face de leão; quarto, de sua divindade, por isso tem face de águia...
E racionalmente (os) quatro evangelistas tratam estas quatro maneiras de Jesus, por quanto ele foi, primeiro homem, que nasceu de virgem temporalmente; segundo, boi em sua Paixão, quando sofreu fortemente; terceiro, leão em sua ressurreição, quando ressuscitou poderosamente; quarto, águia, quando na ascensão subiu tão altamente."
Mesmo quando os artistas separaram uns dos outros os quatro Animais para agrupá-los em torno do Salvador como sendo os emblemas de seus Evangelistas, atribuindo o Homem a São Mateus, o Leão a São Marcos, o Touro a São Lucas, a Águia a São João, é ainda a Cristo que estes Animais se reportam, pois então figuram antes os quatro Livros evangélicos que seus autores, os livros que são os quatro escrínios da história, da doutrina e dos preceitos de Cristo. Assim, neste caso, os artistas sempre o fizeram representar na atitude do mestre que ensina.
Este foi o assunto preferido no século XII para a ornamentação dos portais principais das grandes igrejas: assim o vemos nas catedrais de Chartres, do Mans, de Bourges, de Angoulême; nas igrejas monásticas de Moissac, de Charlieu, de Lavaudieu, de Saint-Bénigne de Dijon, e também em Saint-Sernin de Toulouse, em Saint-Trophime de Arles, em Semur em Brionnais etc.
Acrescente-se que em alguns casos os quatro Animais figuram pessoalmente os quatro Evangelistas; é o caso, por exemplo, num vitral de Brou onde estão atrelados ao carro triunfal do Salvador, cujas rodas são impulsionadas pelos doutores da Igreja, século XVI.
O Tetramorfo, em seu aspecto hierático de um só Ser de faces múltiplas, sobretudo, condensa em si os diversos sentidos crísticos dos quatro Animais que o compõem, e esta "forma" impressionante, tomada no domínio mesmo onde o Eterno se mantém, velado para nós pelo mistério, possui tal potência que arrebata o pensamento infinitamente longe do plano terrestre onde vivemos como efêmeros, para prosterná-lo diante de um Cristo estabilizado em uma apoteose eterna.