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A reinterpretação do Budismo no contexto da Weltanschauung indiana e o contributo de Mrs. Rhys Davids.
- A obra de Mrs. Rhys Davids demonstra que o Budismo foi consideravelmente menos heterodoxo do que outrora se pensou.
- A popularidade do «Budismo» na Europa moderna fundamentou-se num equívoco completo acerca da sua verdadeira natureza.
- A doutrina budista não era mais «mansa ou doce» do que a de Jesus.
- Tanto a doutrina de Buda quanto a de Jesus opunham-se radicalmente ao individualismo moderno e ao interesse na «sobrevivência da "personalidade"».
- «Se há algo que o Buddha não é, é um "humanista"».
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A questão doutrinária do anatta (não-eu) e a sua reinterpretação por Mrs. Rhys Davids.
- A evolução do pensamento de Mrs. Rhys Davids concentrou-se sobretudo na interpretação de anatta.
- A perspetiva de que o Buddha pressupunha a existência do atman.
- «É talvez deplorável que, em nossa tradução da palavra atman, atta, nós não tenhamos usado persistente e conscientemente, não alma ou si mesmo, mas espírito. Pois, tanto na palavra espírito como no termo indio atman, dá-se a associação com "sopro"».
- O espírito como a essência da pessoa, o seu ser verdadeiro, distinto do ego empírico.
- A inadequação da tradução de atman por «Si mesmo» ou «alma».
- A tradução por «Si mesmo» ignora o conceito base de «espiração» e implica «egoidade».
- A tradução por «alma» é indesejável, pois o mukta indiano liberta-se tanto do corpo físico como da psique.
- A tradução preferível de atman por «espírito» ou «si mesmo espiritual».
- Esta tradução evidencia a equivalência entre a doutrina indiana do atman, a doutrina cristã do Spiritus Sanctus, a doutrina grega do pneuma e a doutrina árabe do ruh.
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A doutrina dos dois «si mesmos» ou a dualidade no conceito de atta.
- A existência de dois «si mesmos» em potencial conflito.
- O «Grande Si mesmo» (mahatta) ou «Si mesmo Limpo» (Kalyanam attanam).
- O «pequeno si mesmo» (ap'atumo) ou «si mesmo sujo» (papam attanam).
- A distinção entre o si mesmo espiritual (o homem interior) e o si mesmo psico-físico ou ego (o homem exterior).
- «o Si mesmo (o Espírito) é o Senhor do si mesmo (o ego)» — atta hi attano natho (Dhammapada 160).
- A aprovação do «amante de si mesmo» (attakamo) refere-se ao si mesmo espiritual.
- A desaprovação do «ego-amantísimo» (atta hi paramo piyo) refere-se ao si mesmo empírico.
- A relação entre os dois si mesmos pode ser de harmonia ou de conflito.
- «aqueles cujo comportamento é pueril têm "ao si mesmo como inimigo do Si mesmo"» — amitten-eva-attana (Samyutta Nikaya I.57).
- No Bhagavad Gita, o Espírito é amigo daquele em quem a carne foi conquistada pelo Espírito, mas inimigo daquilo-que-não-é-o-Espírito.
- A existência de dois «si mesmos» em potencial conflito.
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A negação budista do atta como sendo exclusiva, e não inclusiva.
- O erro do puthujana (a multidão inensinada) consiste em acreditar que há «atta no que-não-é-atta».
- A afirmação «na me so atta» («Isto não é o meu Si mesmo»).
- Esta expressão nega que o corpo ou a alma sejam o ser verdadeiro e espiritual, definindo-o por exclusão dos seus acidentes.
- «O corpo e a alma, isso não é o meu si mesmo, eles não são meus» — rupam… vinnanam… n'eso'ham asmi n'etam me (Samyutta Nikaya I.112).
- O ser perfeccionado é insuscetível de definição positiva, sendo descrito como innominado, indescubrível e inconnumerável.
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A questão da «reencarnação» e do karma à luz da doutrina do não-eu.
- A doutrina do karma é análoga à doutrina cristã do governo do mundo por «causas mediatas».
- A doutrina do karma e a crença na «reencarnação» não são interdependentes.
- A negação da transmissão de uma essência entre existências.
- A analogia do acender de uma lâmpada a partir de outra ilustra a transmissão de uma tendência, e não de uma essência.
- A interpretação dos Jatakas e da recordação de nascimentos passados.
- A afirmação «eu fui fulano» significa que fulano foi um elo na sequência sem começo de vidas, das quais a consciência presente é o último termo.
- A realização do estado de «Não-ser-alguém» (Akincannayatana) não implica aniquilação.
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A natureza do arahat e o uso convencional da linguagem.
- O arahat, tendo transcendido a noção de «eu sou fulano», pode usar expressões como «eu» e «meu» apenas como uma conveniência prática.
- A continuidade da essência daquele que realizou ser «nenhum que» (akincana).
- «"eu" ando errante no mundo, uma nada instruída (...), …incontaminado aqui e agora pelos laços humanos» — akincano manta (…) carami loke, idha lippamano manavehi (Suttanipata 455-456).
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A doutrina da ação (karma) e a identidade do agente.
- «Nós» somos a consequência do que foi feito (karma), mas não como consequência do que um «eu» fez.
- A pergunta «Se as obras se fazem sem um fazedor, (...), quem é esse que experimenta os resultados delas?» (Samyutta Nikaya II.75, III.103).
- A resposta tradicional é que toda a ação é obra do Espírito, e não do indivíduo.
- «Se pelo Espírito mortificais as obras do corpo, vivereis» (Romanos 8:13).
- «As obras de um homem que é conduzido pelo Espírito Santo, são as obras do Espírito Santo mais bem que as suas próprias» (Santo Tomé de Aquino).
- A resposta de Cristo em São João 9:2-3, «Nem este homem tinha pecado, nem seus pais: mas as obras de Deus devem manifestar-se nele», está de acordo com a doutrina tradicional.
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A liberação (vimutti) como transcendência da localização e da personalidade.
- O experimentador, o actor, «não está em nenhuma parte».
- O Buddha não está aqui nem ali, mas é (Milindapanha 73).
- O Reino do Céu ou o «Fim do Mundo» está «dentro de vós», significando que é omnipresente e, portanto, não está em nenhum lugar específico.
- A liberação implica transportar a consciência de ser do pequeno «si mesmo» para o grande «Si mesmo».
- Esta é a «divisão entre a alma e o espírito» de São Paulo (Hebreus 4:12).
- «toda a escritura é um clamor pela liberação do si mesmo».
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A prática da salvação e o papel do esforço individual.
- «Trabalhai a vossa salvação (...), os Buddhas só contam o relato» — tumhehi kiccam atappan, akkhataro tathagata (Dhammapada 276).
- A possibilidade de realizar aqui e agora o estado de arahat (jivan-mukta) não é um facto demonstrável, mas também não pode ser negada por quem não se «abrasou na tarefa».
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A análise dos termos bhu e jhana (dhyana).
- A tradução de bhu por «devir» em vez de «ser» em muitos contextos.
- O imperativo de o homem zuwerden was er ist, o que implica deixar de ser was er nur zuzein scheint.
- O valor atemporal do futuro bhavissami em contextos gnómicos.
- A equivalência fundamental entre bhavana («fazer devir», cultivar) e jhana («contemplação»).
- A natureza activa e criativa da contemplação (jhana/dhyana).
- A contemplação não é uma experiência passiva, mas um acto criativo.
- O mundo é uma criação contemplativa — idam dhyayate (Maitri Upanisad VI.17).
- No Rg Veda, as coisas são feitas «por uma contemplação» (dhiya) ou «intelectualmente» (manasa).
- Os termos adequados para traduzir os estados de concentração: «consideração» (dharana), «contemplação» (dhyana) e «rapto» ou «êxtase» (samadhi).
- Jhana como elevação do nível de referência para a percepção das razões eternas, e samadhi como identificação com essas razões.
- A tradução de bhu por «devir» em vez de «ser» em muitos contextos.
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Conclusão sobre o objectivo do Budismo primitivo.
- Os primeiros Sakya buscavam fortalecer e expandir, ou antes, adaptar, o verdadeiro núcleo do ensino brahmânico.
- A compreensão dos dois atmans e do Spiritus Sanctus imanente é central.
- Quem compreende plenamente a resposta à pergunta fundamental «por qual si mesmo?» (ken'attana) não recuará do conceito de um «anonadamento de si mesmo» e entenderá os diferentes sentidos de «renascimento».