CORBIN, Henry. Temple et contemplation. Paris: Flammarion, 1981.
A Ciência da Balança e as correspondências entre os mundos em gnose islâmica
- A Ciência da Balança
- A Balança dos Sete e dos Doze
- A Balança dos Dezenove
- A Balança dos Vinte e oito
- Os cavaleiros do Invisível e a ciência das correspondências
- Apêndice: Explicação dos diagramas
Resumo analítico
A Ciência da Balança e as correspondências entre mundos na gnose islâmica
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Na gnose islâmica, a base metafísica e mística da ciência das correspondências é denominada ciência da Balança ou ilm al-Mizan, uma disciplina associada particularmente ao nome de Jabir ibn Hayyan e praticada por excelência pelos alquimistas, sendo fundamental libertar o conceito de alquimia das ambiguidades modernas para compreender que o processo alquímico e os processos hermenêuticos pertencem ambos a esta ciência, a qual não visa a redução do conhecimento a um sistema quantitativo, mas mede a intensidade do desejo da Alma durante sua descida através da matéria.
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A Balança, conforme entendida por Jabir ibn Hayyan, transcende a categoria de instrumento físico ou metáfora de medição quantitativa para se elevar ao nível de um princípio metafísico que expressa a harmonia e o equilíbrio das coisas, sendo superior a todas as categorias do conhecimento humano na medida em que é a causa de todas as determinações sem ser objeto de nenhuma, ligando-se intimamente à ideia de equidade divina ou adl e ao simbolismo escatológico.
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Na gnose ismailita, exemplificada nos escritos de Hamiduddin Kirmani, a Balança das coisas religiosas permite especificar a correspondência entre a hierarquia esotérica terrestre e a hierarquia angélica celeste, afirmando o princípio de que o aspecto visível de um ser pressupõe seu equilíbrio por uma contraparte invisível e celeste, onde o aparente e exotérico ou zahir é equilibrado pelo oculto e esotérico ou batin, constituindo um método analógico que segue o caminho anagógico de elevação através das gradações da hierarquia dos seres.
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A obra do pensador xiita iraniano do século XIV, Haydar Amuli, discípulo espiritual de Ibn Arabi, utiliza diagramas engenhosos para tornar perceptível no nível imaginal a estrutura dos mundos espirituais, funcionando como uma verificação experimental da exploração metafísica e ilustrando a ciência da Balança aplicada à história sagrada, onde figuras e personagens não são vistos como causas históricas sucessivas, mas como homólogos que assumem funções permanentes em uma ordem de simultaneidade espacial composta por círculos ou cúpulas.
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A matéria da obra de Haydar Amuli pesa na Balança três grandes livros que são o Livro dos Horizontes ou macrocosmo, o Livro das Almas ou microcosmo humano e o Livro revelado ou Alcorão, estabelecendo uma correspondência que ecoa as noções de Céu exterior e Céu interior encontradas em Paracelsus e Swedenborg, onde a ciência da Balança formula relações aritmológicas qualitativas para medir a função das figuras homólogas nestes três domínios.
A Balança do Sete e do Doze
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A hierarquia esotérica dos Amigos de Deus ou Awliya fundamenta-se na qualificação espiritual da walayah, que significa amizade ou intimidade divina e não meramente santidade, implicando que o wali é aquele cujo caso Deus assume em amizade, uma condição preeterna de graça divina onde o profeta ou o Imam assume a condição divina ao cessar de existir em si mesmo para subsistir em Deus, ecoando uma reminiscência joanina de não mais chamar servos, mas amigos.
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Dentro da hierarquia esotérica, o Profeta ou Nabi situa-se no cume, possuindo a missão de instrução gnóstica e, no caso dos Enviados ou Rasul, a missão legislativa de revelar uma nova Lei, sendo a walayah o pressuposto de seu carisma profético e a virtude pela qual seu sucessor, o Imam, é também considerado uma manifestação do Homem Perfeito, distinguindo a concepção xiita da sunita ao investir o Imam com uma função metafísica e sacral independente da escolha humana ou legitimidade política.
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A função polar ou Qutb domina toda a hierarquia esotérica e é a pedra angular que preserva a existência do mundo, sendo o local para onde Deus olha para visionar os seres, homólogo ao arcanjo Seraphiel no sustento da vida cósmica, culminando na função do Polo dos Polos que, no período pós-maometano, pertence ao décimo segundo Imam, o Mahdi oculto, diferindo do sufismo sunita que, segundo a crítica xiita, tenta fundar uma imamologia sem Imam ao transferir a função polar para xeiques que não pertencem ao pleroma dos Doze.
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Existem categorias hierárquicas descritas por Haydar Amuli e outros mestres como Sa'duddin Hamuyah e Ibn Arabi, que incluem os quatro Awtad ou pilares cósmicos correspondentes aos quatro arcanjos e aos quatro cantos da Caaba, os sete Abdal ou substitutos que correspondem aos sete climas e planetas, os quarenta Nujaba e os trezentos Nuqaba, formando uma estrutura complexa que reflete a ordem astronômica e espiritual.
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A redução da hierarquia esotérica aos grupos de sete e doze por Haydar Amuli estabelece uma correspondência rigorosa onde o grupo de sete profetas legisladores corresponde aos sete planetas e o grupo de doze Imams corresponde aos doze signos do zodíaco, revelando um ritmo de héptada e dodecada como lei fundamental do ser que equilibra o Céu interior da profecia com o Céu exterior da astronomia visível.
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A origem metafísica do grupo de sete remonta aos sete anjos extáticos de amor no oitavo céu, formas teofânicas dos sete Atributos divinos fundamentais (Vida, Conhecimento, Poder, Vontade, Fala, Audição, Visão) e seus respectivos Nomes, que se manifestam no mundo espiritual como os sete grandes profetas (Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi, Jesus, Maomé) e no mundo físico como os sete planetas, cada um regendo um clima e um dia da semana.
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A origem do grupo de doze encontra-se nos doze anjos criados no nono céu ou esfera sem constelações, que recebem o influxo dos doze Imams e o transmitem aos doze signos do zodíaco, marcando o equilíbrio e a equidade da ordem divina que se reflete também nas doze tribos de Israel, nas doze fontes de Moisés e nos doze herdeiros espirituais ou awsiya que sucederam cada um dos grandes profetas legisladores ao longo da história sagrada.
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A cosmologia angelológica de Ibn Arabi, incorporada por Haydar Amuli, descreve o Querubim ou Anjo Nun como o detentor da ciência sintética da criação, e o Anjo Cálamo ou Escriba que recebe e analiticamente inscreve o destino na Tábua Sagrada, assistido por hierarquias de anjos governadores nos doze signos zodiacais e vinte e oito camareiros nas estações lunares, todos supervisionando a execução dos decretos divinos no mundo sublunar.
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A concepção cíclica do tempo na gnose islâmica, onde a palavra tempo ou zaman é um anagrama de balança ou mizan, implica que o tempo tem uma forma circular que retorna à sua origem, permitindo que a realidade profética maometana, que existia antes de Adão, se manifeste plenamente no final do ciclo, estabelecendo uma correspondência trans-histórica onde a sucessão temporal é estabilizada na ordem da simultaneidade espacial, revelando o significado escatológico da Balança.
A Balança do Dezenove
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O número dezenove regula a estrutura dos três Livros (Horizontes, Almas e Alcorão), baseando-se na aritmosofia pitagórica exposta pelos Irmãos da Pureza ou Ikhwan al-Safa, onde o universo inteiro é concebido como sendo à imagem de Deus ou Imago Dei, justificando a correspondência entre o cosmos como Grande Homem e o homem como microcosmo, ambos constituídos por dezenove princípios quando se somam as esferas celestes, os elementos, os reinos naturais e as faculdades humanas.
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A estrutura do Livro do Alcorão baseia-se no número dezenove através das dezenove letras da fórmula Basmallah (Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso), que recapitula todo o livro sagrado, sendo que cada letra corresponde a um grau da hierarquia cosmológica (desde o Intelecto Primeiro até o Homem) e a um grau da hierarquia profetológica (os sete profetas e os doze Imams), demonstrando que o universo é um fenômeno de escrita e o livro da misericórdia divina.
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A análise da raiz verbal ser ou KWN e dos dias da criação (Hexaemeron) revela múltiplos de nove e dezoito mil mundos, que somados à unidade do Homem Perfeito totalizam o número dezenove, um número que também cifra a imunidade contra os dezenove guardiões do Inferno mencionados no Alcorão, os quais correspondem aos hábitos psíquicos viciosos resultantes das ligações do homem com as influências astrais, devendo ser substituídos pelos dezenove anjos do Paraíso através da libertação espiritual.
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A interpretação esotérica das letras do alfabeto árabe distingue entre as catorze letras com pontos diacríticos, pertencentes ao mundo visível, e as catorze letras sem pontos, pertencentes ao mundo espiritual, totalizando vinte e oito, mas o segredo da teofania reside na letra Alif, que simboliza a Essência divina pura e se oculta na grafia das palavras Bism, Allah e Rahman, indicando que a Essência se manifesta nas formas das outras letras assim como Deus se manifesta nas formas do universo.
A Balança do Vinte e Oito
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O número vinte e oito desempenha um papel central na profetologia, correspondendo aos vinte e oito profetas mencionados no Alcorão, às vinte e oito letras do alfabeto que manifestam a fala divina e às vinte e oito estações lunares, servindo para estabelecer o equilíbrio estrutural entre a ascendência física do Profeta Maomé e sua descendência espiritual através dos Imams.
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A genealogia do Profeta, rastreada até Adão através de cinquenta e um antepassados, destaca a figura de Al-Nadr ibn Kinanah como o décimo quarto ancestral e fundador dos Coraixitas, criando um ponto de simetria onde os catorze graus da ascendência coraixita são equilibrados pelos catorze graus da descendência espiritual, composta pelo Profeta, sua filha Fátima e os doze Imams, totalizando vinte e oito figuras que constituem a plenitude do ciclo maometano.
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A topografia do Inferno e do Paraíso, descrita por Ibn Arabi e comparável à de Dante, estrutura-se também sobre o número vinte e oito, resultante da multiplicação das sete portas ou círculos pelas quatro categorias de habitantes, refletindo uma justiça divina exata onde as moradas póstumas correspondem às palavras ou disposições de fé manifestadas pelo ser humano durante a vida.
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O tempo do Imamato é concebido como um tempo litúrgico que equilibra a história sagrada, onde os doze Imams protegem as doze horas do dia e da noite e servem como guias para a visão interior, homólogos aos doze signos do zodíaco que guiam a visão exterior, transformando a sucessão cronológica irreversível em uma permanência trans-histórica de retorno e orientação espiritual.
Os Cavaleiros do Invisível e a ciência das correspondências
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A existência de uma ciência das correspondências depende da atividade de uma categoria espiritual denominada por Ibn Arabi como os cavaleiros do Invisível ou rukban, que se dividem entre os contemplativos puros ou Afrad, correspondentes aos anjos litúrgicos, e aqueles dedicados à atividade prática e ao governo oculto do mundo, responsáveis pela hermenêutica que conecta o visível ao invisível.
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A condição humana normal neste mundo é descrita pelo Profeta como um estado de sono, do qual a morte é o despertar, implicando que tanto as visões oníricas da noite quanto as percepções sensoriais do dia necessitam de uma interpretação ou ta'wil para serem compreendidas em sua realidade verdadeira, uma travessia ou travessia da ponte que é a função primordial dos cavaleiros hermeneutas.
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A Noite do Destino, na qual o Alcorão e os anjos descem a este mundo, simboliza o tempo da realização da hermenêutica esotérica, onde os cavaleiros do Invisível realizam a travessia ao encontro das realidades espirituais que descem, abolindo a fronteira que mantém o homem cativo das aparências e atualizando o significado oculto das parábolas divinas.