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id da página: 8052 Henry Corbin – IBN ARABI – O Coração como órgão sutil Ibn Arabi

Corbin Ibn Arabi Cordis

O Coração como órgão sutil

O coração (qalb) em Ibn Arabi como no sufismo em geral, é o órgão pelo qual é produzido o verdadeiro conhecimento, a intuição compreensiva, a gnose (marifa) de Deus e dos mistérios divinos, em resumo o órgão de tudo aquilo que pode ser compreendido soba a designação de ciência do esotérico (ilm al-Batin). É o órgão de uma percepção que é, como tal, experi6encia e gosto íntimo (dhawq), e embora o amor seja igualmente referenciado ao coração, o centro próprio do amor é em geral para o sufismo, o ruh, o pneuma, o espírito.

Sempre é bom lembrar que esta referência não é ao órgão de carne denominado coração, embora haja certa conexão, cuja modalidade é ignorada. Trata-se de uma “fisiologia mística” que opera em um “corpo sutil” comportando órgãos psico-espirituais (centros sutis ou latifa em Semnani) que importa distinguir dos órgão corporais. É possível se falar da função teândrica do coração posto que sua suprema visão será aquela da Forma de Deus (surat al-Haqq), e isto porque o coração do gnóstico é o “olho”, o órgão pelo qual Deus se conhece a ele mesmo, se revela a ele mesmo nas formas de suas epifanias. O gnóstico é como o Homem Perfeito, o antro da consciência divina de Deus, e que Deus é o antro e a essência da consciência do gnóstico. Em resumo o poder do coração é um poder ou energia secreta que percebe as Realidades divinas por um puro conhecimento hierofânico, sem qualquer mistura, porque o coração do gnóstico é como um espelho no qual se reflete a forma microcósmica do Ser divino.

Este poder do coração é aquele designado pela palavra himma, equivalente do grego enthymesis que significa o ato de meditar, conceber, imaginar, projetar, desejar ardentemente, quer dizer ter presenta no thymos, o qual é força vital, alma, coração, intenção, pensamento, desejo. Na gnose de Valentino, enthymesis é a intenção concebida pelo trigésimo Eão, Sophia, em seu elã para compreender oa grandeza do Ser ingênito. Esta intenção se destaca dela, reveste uma existência separada; é a Sophia separada do Pleroma, mas de substância pneumática. O poder de uma intenção tal qual ela projeta e realiza um ser exterior àquele que a concebe, corresponde de fato ao caráter próprio desta potência misteriosa que Ibn Arabi designa como himma.


  • O coração (qalb) como órgão do conhecimento verdadeiro e da gnose (ma'rifa) divina no sufismo de Ibn Arabi

    • Produção do conhecimento por meio da intuição compreensiva e da percepção experimental designada por "dhawq"
    • Distinção entre o coração (qalb) como centro do conhecimento esotérico e o espírito (ruh) como centro específico do amor
    • Caracterização do "coração" como um órgão da "fisiologia sutil" ou "mística", distinto do órgão físico
    • A "fisiologia sutil" enquanto sistema baseado na experiência ascética, extática e contemplativa, expresso em linguagem simbólica
    • Função "teândrica" do coração, cuja visão suprema é da Forma de Deus (surat al-Haqq)
    • O coração do gnóstico como o "olho" pelo qual Deus conhece a Si mesmo nas formas de Suas epifanias
    • O poder do coração como uma força secreta (quwwat khafiya) que percebe as realidades divinas por um conhecimento hierofânico puro (idrak wadih jali)
    • O coração do gnóstico desvelado comparado a um espelho que reflete a forma microcósmica do Ser Divino
  • A "himma" como poder criativo específico do coração

    • Designação do poder do coração pelo termo "himma", correlato ao grego "enthymesis" (conceber, imaginar, desejar ardentemente)
    • Correspondência com a 'ενθύμησις (enthymesis) na gnose valentiniana, como uma intenção que se projeta e se torna um ser exterior
    • Caráter criativo da himma no sentido "epifânico" próprio da teosofia de Ibn Arabi
    • Dupla função prática da himma: concernente a fenômenos parapsicológicos e à percepção mística do "dhawq" (sabor íntimo)
    • A Imaginação Humana envolvida pela Imaginação Incondicionada, garantia de que as intenções da himma não são ficções vãs
    • Declaração do xeique: "Graças à sua faculdade representacional (wahm), todo homem cria em sua Imaginação Ativa coisas que possuem existência apenas nesta faculdade. Esta é a regra geral. Mas, por sua himma, o gnóstico cria algo que existe fora da sede desta faculdade"
    • Diferença entre a função meramente representacional da Imaginação Ativa na maioria dos homens e sua função a serviço da himma criativa no gnóstico
    • Projeção, pelo coração do gnóstico, daquilo que nele se reflete, tornando-se a aparição de uma realidade extrapsíquica, designada como Imaginação destacada (munfasil)
    • Exemplo da percepção do Anjo Gabriel na forma do jovem Dahya apenas pelos místicos
  • A himma na experiência de oração e na criação de imagens

    • Importância da himma para a experiência paradoxal da visão da "Forma de Deus" na Oração
    • O coração como espelho no qual o Ser Divino manifesta Sua forma, projetando uma Imagem que é a "objetivação" dessa Forma
    • Confirmação da ideia de que o coração do gnóstico é o "olho" pelo qual Deus se revela a Si mesmo
    • Aplicação do conceito de himma à iconografia material e às imagens criadas pela arte
    • Reconhecimento de uma imagem divina por outros como resultado da criatividade espiritual (himma) do artista
    • A himma como termo de comparação para medir a decadência dos sonhos e das artes
  • A primeira função da himma: projeção de intenções e fenômenos extra-sensoriais

    • Cumprimento da primeira função da himma ao dar corpo objetivo às intenções do coração (himma, ενθύμησις)
    • Abrangência de fenômenos designados hoje como percepção extra-sensorial, telepatia e visões de sincronicidade
    • Testemunho pessoal de Ibn Arabi na "Risalat al-Quds" sobre evocar o espírito de seu xeique, Yusuf al-Kuma
    • Relato de Sadruddin Qunyawi sobre o dom de Ibn Arabi de encontrar o espírito de qualquer Profeta ou Santo falecido
  • A explicação dos fenômenos da himma pelas "Presenças" (Hadarat)

    • Explicação dos fenômenos mediante os planos hierárquicos do ser, as "Hadarat" ou "Presenças"
    • Enumeração das cinco Presenças ou Descidas (tanazzulat): o Mistério Absoluto, o mundo angélico dos Espíritos, o mundo das Almas, o mundo das Imagens-Arquétipas ('alam al-mithal) e o mundo sensível
    • Estrutura das relações entre as Presenças, caracterizadas pela relação dual Criador-Criatura (Haqq e Khalq) em cada plano
    • Designação de cada Descida como um "casamento" (nikah), cujo fruto é a Presença seguinte na hierarquia descendente
    • Cada Presença inferior como imagem, correspondência (mithal) e reflexo da Presença superior imediata
    • Tudo no mundo sensível é o reflexo e tipificação (mithal) do que existe no mundo dos Espíitos, e assim sucessivamente
    • Intuição dos significados místicos (kashf ma'nawi) como conhecimento de que o manifesto é a forma de uma realidade ideal do mundo do Mistério (ma'na ghaibi)
    • Correspondência e homologia entre os planos de ser, permitindo que um mesmo ser exista simultaneamente em formas diferentes em vários planos
    • A "criação" pelo gnóstico por meio da himma entendida como o fazer aparecer, no plano sensível, algo que já existe em ato em uma Presença superior
    • Controle sobre uma coisa pela concentração da himma em sua forma existente em uma ou mais "Presenças", preservando-a enquanto durar a concentração
    • A Presença (hadra) que se torna presente para o gnóstico comparada ao Alcorão, por mostrar tudo que existe nas outras Presenças como um espelho
    • Compreensão desta doutrina apenas por aquele que é, em sua pessoa, um "Alcorão"
  • O estado de "ser um 'Alcorão'" e a segunda explicação da himma

    • Caracterização do estado de "ser um 'Alcorão'" como um estado de concentração (faná') que suspende a discriminação entre os atributos do Criador e da Criatura
    • O estado de faná' não como aniquilação, mas como experiência prévia que preserva de falsas discriminações, antecedendo o estado de baqa' (persistência)
    • Segunda explicação da himma como a "causa" que leva Deus a criar certas coisas, embora ela mesma, estritamente, nada crie
    • Definição da himma como "uma potência oculta que é a causa de todo movimento e de toda mudança no mundo"
    • Correspondência da himma, nesta função, ao estado de faná'
    • A "criação" pelo místico no estado de faná' entendida como a mesma operação divina, intermediada pelo gnóstico isento de seus atributos humanos e persistente em seus atributos divinos
    • Lembrança da discussão dos Ash'aritas sobre se os atos humanos são criados pelo homem ou se Deus é o único agente
    • A Criação como teofania, ocorrendo perpetuamente a cada instante (khalq jadid)
    • Cada "Imaginação Criativa" do gnóstico é uma nova Criação recorrente, ou seja, uma nova teofania, cujo órgão é seu coração como espelho do Ser Divino
  • A himma como órgão do conhecimento verdadeiro e a "ciência do coração"

    • A questão central da himma não sendo o controle sobre as coisas (taṣarruf) ou a realização de milagres, mas a função de possibilitar o conhecimento verdadeiro das coisas
    • A himma designando a percepção pelo coração, termo que os sufistas denominam "sabor íntimo" (dhawq)
    • Exegese (ta'wil) do versículo corânico: "Certamente, nisto há uma lição para aquele que tem um coração, que ouve e é testemunha ocular (shahid)"
    • Classificação dos homens em três categorias com base nesse versículo: os discípulos da ciência do coração (as-hab al-Qulub), os discípulos do intelecto racional (as-hab al-'Uqul) e os crentes simples (mu'minun)
    • A possessão da ciência do coração como percepção das metamorfoses divinas e do Ser Divino através da visão intuitiva (shuhud)
    • Contraste entre o teólogo escolástico, que formula um dogma sem ser testemunha ocular (shahid), e o místico, que é testemunha
    • O Deus do dogmático como um "ausente", incapaz de ajudar contra o Deus de outrem
    • O dogma como limitação (taqyid) que vê outros dogmas como contradição, incapaz de apreender a rububiya e a 'ubudiya como polos de uma mesma haqiqa
    • A ciência do coração (qalb) como ciência da transmutação (taqlib), que transforma o dogma em símbolo (mazhar) que mostra outras teofanias (tajalli)
    • Afinidade entre crentes simples e grandes místicos, ambos sendo pessoas "que ouvem e são testemunhas oculares"
    • Os vários graus na Presença do coração (hudur bi'l-qalb), desde a fé dos crentes simples até a Presença imaginativa (hadrat khayaliya) e a visão teofânica superior
    • A progressão espiritual realizada pelo aumento da capacidade de tornar-se presente à visão pela Imaginação (istihdar khayali)
    • A visão testemunhal imaginativa (shuhud khayali) tornando-se visão do coração (shuhud bi'l-qalb), onde o contemplante é o contemplado
    • Os místicos, como discípulos da ciência do coração, atendendo ao chamado dos Profetas para a visão, levando à perfeição a resposta inicial dos crentes simples
    • A capacidade visionária do místico, liberta das normas coletivas, permitindo reconhecer Deus em cada forma reveladora (mazhar)
    • A forma de cada teofania sendo correlata à forma da consciência à qual ela se desvela
    • O cumprimento do preceito profético "Adore a Deus como se O visse" pelo entendimento dessa interdependência (ta'alluq) em cada instância
    • O segredo da "Oração teofânica" praticada por Ibn Arabi, onde a visão da "Forma de Deus" corresponde ao ser mais íntimo do místico