DAVY, Marie-Madeleine. Tout est noces. Paris: Albin Michel, 1993
Durante sua existência, o homem, orientado para os valores espirituais, descobre a dualidade. Esta o cerca e se aninha nele. A dualidade se espalha por fora e por dentro. Como escapar dela? Ao mesmo tempo clima, atmosfera e morada, ela fragmenta, dilacera e provoca a deriva dos indivíduos. Semelhantes a destroços, estes aceitam seguir a corrente que os arrasta.
Resistir parece impossível. Recusar a dualidade mergulharia na solidão e na morte. A vertigem da solidão lança o homem em um desamparo abissal. Ele busca um caminho; uma embarcação na qual ele poderia encontrar um lugar a fim de participar de uma vida comunitária. A aura de um mestre resplandeceria sobre ele da mesma forma que um artista de renome valoriza seu aluno. No melhor dos casos, o iniciante percebe que sua busca é dual. Ele quer encontrar uma rota que alguns afirmam seguir com sucesso e contentamento, mas ele discerne nos outros e em si mesmo uma distância entre o dizer e a realidade. Na maioria das vezes, a dualidade reina também nos ashrams e coletividades espirituais. Nada é puro. As máscaras camuflam os rostos. O pseudo-aprendizado da liberação se tornou hoje um comércio com seus mercadores avisados e seus clientes ingênuos.
Todo buscador está condenado à errância enquanto não compreendeu que não há nenhuma via fora daquela da renúncia. Mas como renunciar a essa dualidade que ao mesmo tempo fragmenta e decuplica o instinto de propriedade por medo do vazio? Ninguém pode fazer, no lugar de outro, esta operação de despojamento que exige modéstia e fidelidade, autonomia e fé em uma liberação jamais inteiramente conquistada, pois sempre em capacidade de aperfeiçoamento.
Essa dualidade da qual o homem é a presa, isto é, a vítima, será examinada em um frente a frente ao mesmo tempo cruel e beatificante. O passante, que se volta para a aquisição da santa liberdade, vai experimentar uma nostalgia da unidade. Unidade não por anulação das diferenças, mas graças ao encontro e ao além dessas diferenças. Capaz de apreender o mistério de sua vocação pessoal e de sua própria singularidade, os diversos despojamentos aos quais ele deve consentir com facilidade se tornarão mais leves. Ele se tornará um viajante desprovido da menor bagagem suscetível de desacelerar sua marcha e de a tornar hesitante. Sua pobreza se transforma em riqueza, sua carência em plenitude. Pouco a pouco, ele passará do espesso ao sutil, aprendendo a decifrar os sinais. Um novo tipo de conhecimento se instaura. Libertando-se das formas que o mantinham prisioneiro, ele descobre seu fundo.
Primeiro, ele irá de fora para dentro, depois de dentro para fora. A luz se fará reveladora no dia em que ele perceber que não há mais para ele nem fora nem dentro. O exterior e o interior se unem. Suas relações com os outros se modificarão imediatamente. Ele ama todos os homens independentemente de sua raça, de sua religião, de seu ateísmo, de sua escolha, de sua excelência – aliás, raramente atingida – ou de sua miséria. Seu olhar se pousa sobre o cosmos com amizade. Nele, o passado e o futuro se reencontram no instante presente; a morte para o tempo e para a história realizada, uma vida nova se instaura e se desdobra.
No decorrer de sua peregrinação, o homem penetra em sua dimensão de profundidade. Nada se apropriar dá acesso à plenitude. Se seu caminho pudesse ter um nome, ele se chamaria superação. Assim, o homem consente em não conservar formas que não lhe convêm mais. Humanas ou pseudo-divinas, estas se esbatem e desaparecem. O despojamento aceito, nenhum gesto se esboça para tentar reter os vestígios dos “bens” que se afastam.
A singularidade de uma vocação se inscreve no seio de uma partitura melódica, que permite passar da fé à certeza, do isolamento a uma solidão cheia de ternura pelo universo.
Certamente, a entrada em um conhecimento combinado ao amor não se fará sem problemas duradouros. Os obstáculos são numerosos. É importante atravessar torrentes, escalar montanhas, atravessar vales apaziguadores. A espessura da noite corresponde à intensidade da luz que vai surgir e se desdobrar; ela ainda ilumina de uma forma furtiva, ao mesmo tempo que é deslumbrante em suas manifestações.
De repente, toda busca é parada. Dir-se-ia que uma mão invisível provocou essa ruptura fulminante. A agitação se eclipsa. O homem conhece um estado de repouso.
Em relação ao passado, este repouso é uma morte, uma saída do tempo que a eternidade se encarrega de sepultar. Anteriormente, o homem se ativava para buscar, cavar, alcançar. Tornando-se um homem novo, ele participa de uma vida nova. Seu olhar anteriormente remeloso adquire uma visão aguda. Seu coração se liquefaz. Tal como os amigos do esposo, aqueles que puderam acompanhá-lo de longe... se retiram.
No seio desse repouso festivo, os véus se rasgam, o segredo dos segredos se descobre. O homem ressuscitado, após a prova de uma morte sutil, exclama:
Não há dualidade e eu não o sabia: TUDO É NÚPCIAS.
Então, ele se maravilha!