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id da página: 70 Mestre Eckhart – Jean-François Malherbe – Ainda Perder a Deus Mestre Eckhart Mestre Eckhart

Eckhart - perder a Deus

Mestre Eckhart – Jean-François Malherbe – Sofrer Deus


MALHERBE, Jean-François. Souffrir Dieu. La prédication de Maître Eckhart. Paris: Cerf, 1992

Veja: Sofrer Deus e Perder Deus

Ainda perder a Deus

É por isso que se ora a Deus para ser desprendido de Deus e acolher a verdade e dela gozar eternamente onde os anjos mais elevados e a mosca e o burro são iguais.


Esta oração, de aparência no mínimo estranha, parece poder compreender-se em dois sentidos pelo menos. Por um lado, pode querer dizer que a alma que sofre Deus, a alma que não está desde então mais às voltas com seu próprio sofrimento, mantém-se, solitária e magnífica, acima de todo desejo de Deus. O resultado do nascimento de Deus em nós seria então um ateísmo franco e sereno. Nesse sentido, é legítimo falar de um "ateísmo eckhartiano". O ateísmo de Eckhart refere-se a Deus (got) e não à deidade (gotheit).

Mas esta primeira interpretação conduz a outra, mais profunda ainda. É essencial à alma não poder escrutinar a fundo seu criador, pois de outro modo, é que o verdadeiro Deus (gotheit) não existiria mas apenas deuses (Got mit uns!). É por isso que a afirmação segundo a qual a alma liberta está estabelecida no estado de não ter mais Deus é na realidade uma afirmação (impossível em rigor de termos) da existência de Deus (gotheit). O ateísmo em relação a Deus (got) não é de si uma afirmação indireta da existência de Deus (gotheit)?

É um erro fatal para o homem colocar uma distância entre ele e Deus (gotheit). Pois se o homem pode bem afastar-se de Deus (got), Deus, ele (gotheit), nunca vai longe, mantém-se sempre na proximidade, e se não pode permanecer no interior do homem porque este o mantém à porta, não se ausenta, nunca vai mais longe que diante da porta:

Deus me é mais próximo que eu o sou de mim mesmo.


E também:

Deus jaz oculto no fundo da alma.


E ainda:

Deus não cessa de chocar sob a cinza e de queimar, com toda a sua riqueza e todas as suas delícias.


Este último aforismo exige um comentário. Perante a perspectiva da violenta dilaceração ligada ao nascimento de Deus nele, mais de um homem recua, temporiza, hesita. O medo da violência pode fazer recuar mais de um. E mesmo cada um de nós em certos momentos. Isso não é motivo para desesperar, pois, como uma brasa sob as cinzas, Deus choca e queima. Eckhart ensina aliás que Deus é fiel:

Nossa beatitude é tão necessária a Deus que ele nos atrai para si por tudo o que é capaz de nos levar para si, seja alegria ou sofrimento.


Não deixa de ser verdade que buscar Deus é ainda e sempre perdê-lo novamente. E no entanto, este caminhar, de perda em perda, de morte em morte, de luto em luto é o único verdadeiro. O "vislumbre" do ser interior através da dilaceração do ser exterior, tal é o momento catártico da busca de Deus. Este vislumbre não pode ser o fruto de nossos só esforços; é portanto um dom e não uma conquista. É no entanto um dom que não podemos receber sem preparação:

Mas nós lhe fazemos violência e torto impedindo-o de cumprir sua operação natural por nossa falta de preparação.


E a melhor das preparações permanece o exercício do silêncio que, a longo prazo, facilita o desapego em relação às criaturas, a renúncia a exercer nossa vontade própria e o estilhaçamento de nossos falsos deuses. Este vislumbre para o essencial cumpre-se no grito silencioso da violência consentida; abre o horizonte para a transmutação essencial da existência. De sofrer Deus transfigura a criação, o homem e o próprio Deus.

Mas se o vislumbre é a obra de Deus, e que o homem não pode senão preparar-se para vivê-lo mas não provocá-lo, pode-se perguntar qual é, para Eckhart, o sentido da oração e da oração de petição em particular.

Seria manifestamente incongruente pedir a Deus isto ou aquilo. Mas não se poderia orar-lhe para que cumpra sua vontade? O místico dominicano reconhece que essa é uma verdadeira possibilidade de oração:

E é por isso que a melhor oração que o homem possa fazer não deve ser: Dá-me esta virtude ou esta maneira de ser, ou ainda: Senhor, dá-te a mim, ou dá-me a vida eterna, mas sim: Senhor, dá-me somente o que tu queres e faze, Senhor, o que tu queres e da maneira que tu queres. Esta oração supera a outra tanto quanto o céu domina a terra. E se se ora assim orou-se bem: quando, na verdadeira obediência, se saiu completamente de si mesmo para ir a Deus.


Mas o pensamento de Eckhart não se detém nesta resposta clássica:

Aquele que pede algo ao outro é um servo. E aquele que o concede é um senhor. Perguntava-me recentemente se poderia receber ou pedir algo a Deus. Quero deliberar a fundo comigo mesmo pois, se devesse pedir algo a Deus, estaria submisso a Deus como um servo, e ele seria um senhor ao dar. Não seremos assim na vida eterna.


Eckhart familiarizou-nos com a ideia de que o homem é o igual de Deus. Encontrar-se-á aliás ainda este tema no fim do próximo capítulo. Mas não é essa, parece, a razão mais profunda desta recusa inaudita de ser o servo de Deus. É que a salvação da alma lhe advém quando sofre Deus. E como poderia sofrer verdadeiramente daquilo que já conheceria? E como poderia pedir o que não conhece já? A oração de petição teria sentido se fosse possível. Mas não o é. Pois Deus nos vem sempre de modo diferente do que esperamos!