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id da página: 7504 Evangelho de Filipe – Nicole Daumard

Evangelho de Filipe Nicole Daumard

Evangelho de Filipe – Nicole Daumard


Por que o Evangelho de Filipe, que faz parte dos manuscritos antiquíssimos de uma biblioteca gnóstica dos primeiros séculos, descoberta em 1945 em Nag Hammadi, no Egito, apresenta-se, aparentemente, como um verdadeiro enigma? Já nos séculos II ou III seria necessário ocultar certos ensinamentos? A “grande Igreja” de Roma, antecessora da Igreja Católica, teria já começado a perseguir, para expurgar ou destruir, os escritos cuja doutrina não correspondia exatamente à sua?

Na tradição alquímica, parece também que os autores tenham adquirido o hábito de trocar certas frases ou parágrafos, de modo que apenas os leitores instruídos pudessem reconhecer-se neles, e para que aqueles que neles não percebessem sentido algum não fossem tentados a desnaturalizá-los ou fazê-los desaparecer. Na realidade, essa maneira de proceder remontaria à mais alta Antiguidade, quando os “mistérios” só eram revelados aos iniciados. A esse propósito, também a Bíblia possuiria um sentido velado.

Tratar-se-ia, então, de uma transcrição escrita de um ensinamento secreto transmitido oralmente, e não poderia ser ele o próprio ensinamento do homem a quem Filipe chama Jesus, destinado aos seus discípulos mais próximos?

O Evangelho de Filipe é um escrito “erudito”, como todos os textos gnósticos, no sentido de que nele se dá um jogo sutil entre o sentido literal e o sentido figurado de certos termos-chave, entre o significado comum de determinadas palavras ou proposições e as imagens que evocam, bem como os sentidos simbólicos possíveis. O autor não deixa também de jogar com as inevitáveis contradições aparentes da vida — o dia e a noite, a vida e a morte —, aquilo que se denomina “os extremos”, isto é, os aspectos opostos inerentes à dualidade da existência terrestre, cujo símbolo se encontra, aliás, nas primeiras páginas da Bíblia, sob a forma das trevas e da luz, das águas e da terra, da árvore da ciência do bem e do mal.

O pensamento gnóstico move-se com facilidade entre todos esses contrários, assim como entre os diversos sentidos de um mesmo conceito, porque conhece e percebe a unidade subjacente do todo — donde provém, sem dúvida, a expressão “os extremos se tocam” e a imagem do ouroboros, a serpente que morde a própria cauda.

Ora, a desventura dos homens tem precisamente por causa essa dualidade dos extremos, que está na base de toda reflexão filosófica e religiosa sobre a condição humana, e que inspirou a Hegel, por exemplo, o conceito de “dialética”. Dir-se-ia que essa dualidade foi criada para nos fazer sonhar com uma unidade aparentemente inacessível aqui embaixo — sonhar com um mundo onde a felicidade não teria como contrapartida a infelicidade, nem o amor, o ódio.

Parece que o homem, em sua ignorância, se empenha com todas as forças, mas em vão, em estabelecer essa unidade sobre a terra; enquanto o gnóstico “sabe”, porque o experimenta, que existe um mundo onde ela existe. Não se trata de outro planeta, mas de outra natureza. “O meu reino não é deste mundo”, diz Jesus.

O dualismo facilmente observável em nosso mundo nada tem a ver com o dos gnósticos. E o desejo ancestral de resolver o dualismo terrestre da felicidade e da dor, do frio e do calor, do aqui e do além, não é senão o reflexo da profunda aspiração do gnóstico de todos os tempos de libertar-se da matéria em que o homem se atolou, para alcançar a natureza divina. A Gnose concede o conhecimento e a possibilidade dessa libertação.

Todas essas características levam a concluir que o Evangelho de Filipe é um texto tipicamente gnóstico, pertencente a uma época em que a Gnose inspirava uma profusão de escritos e de movimentos diversos em todo o mundo, entre os quais o cristianismo primitivo. Filipe foi um gnóstico, e é próprio do gnóstico receber as revelações interiores necessárias à sua progressão no caminho da iniciação e à missão que lhe é confiada nesta terra para a libertação da humanidade.