FESTUGIÈRE, André Marie Jean. La Révélation d’Hermès Trismégiste I. L’astrologie et les sciences occultes. Paris: Les Belles lettres, 1989.
- A alquimia, enquanto pseudo-ciência, possui uma longa história cuja investigação neste contexto se restringe ao período greco-romano, deixando de lado o seu desenvolvimento subsequente entre sírios, árabes e latinos medievais.
- A própria palavra 'alquimia' é de origem árabe, alkimiya, cuja etimologia é disputada, sendo por alguns derivada do egípcio chemi, que significa 'negro', associado ao grego chēmia que designaria tanto o Egito como 'a terra negra' quanto a matéria original da transmutação, enquanto outros a conectam ao grego chýma, significando 'fusão de metal'.
- A operação fundamental da alquimia era a transmutação de metais comuns, como cobre, ferro, estanho e chumbo, em ouro e prata, processo que se resumia a três procedimentos principais: a tintura superficial de metais básicos com uma pequena adição de metais nobres, a aplicação de um verniz que imitasse o brilho do ouro ou da prata, e a produção de ligas com a aparência desses metais preciosos.
- A alquimia greco-egípcia, origem de todas as demais, surgiu da confluência de uma prática factual — a ourivesaria tradicional no Egito — e de uma doutrina filosófica grega, emprestada principalmente de Platão e Aristótote, misturada com fantasias místicas, evoluindo através de três fases sucessivas: a alquimia como arte puramente técnica, a alquimia como filosofia e, finalmente, a alquimia como religião.
- Inicialmente, a alquimia consistia em uma técnica de tinturas, ou baphai, onde metais, pedras e tecidos eram imersos em soluções para adquirirem a aparência de ouro, prata, esmeralda ou púrpura, uma prática que, partindo do princípio de que a cor define a qualidade específica do metal, levou à crença de que operações repetidas poderiam produzir ouro e prata 'verdadeiros'.
- Os primeiros escritos alquímicos eram simples receitas técnicas, mantidas em segredo nos arquivos dos templos e transmitidas de forma restrita, utilizando uma linguagem simbólica com termos como 'leite de loba', 'espuma do mar' e 'sangue de dragão' para proteger os conhecimentos da concorrência e dos não-iniciados.
- A transição crucial da química técnica para a alquimia filosófica é atribuída a Bolo de Mende, o Democriteo, no século II a.C., que, ao compilar as Baphika, não apenas reuniu receitas de tintura de ouro, prata, pedras preciosas e púrpura, mas lhes deu uma fundamentação doutrinal baseada no princípio das simpatias e antipatias ocultas entre as naturezas, expresso no axioma 'uma natureza se deleita com outra natureza, uma natureza vence outra natureza, uma natureza domina outra natureza'.
- As Physika kai Mystika atribuídas a Demócrito, embora em sua forma atual não possam ser anteriores ao século I d.C. e contenham elementos interpolados e polêmicos contra escolas rivais, preservam em seu núcleo a doutrina de Bolo, integrando narrativas de revelação, como a evocação do fantasma de Ostanes, com a aplicação prática do princípio das simpatias nas receitas de crisopeia e argiropeia.
- A doutrina central da alquimia grega combinava o conceito de matéria-prima — inicialmente identificada com o chumbo em estado fluido ou o 'negro primeiro' — com a lei das simpatias e antipatias, postulando que a trasmutação era um processo de mudança qualitativa, onde as qualidades, e não os corpos, se interpenetravam, permitindo a passagem de um metal comum a um metal nobre através de operações de tingimento que exploravam as afinidades naturais entre as substâncias.
- Após as Physika kai Mystika, a literatura alquímica se expandiu através de uma proliferação de apócrifos atribuídos a figuras divinas ou lendárias, como Hermes Trismegisto, Agatodemônio, Isis, Cleopatra, Ostanes e Maria, a Judia, testemunhando a necessidade helenística de fundamentar todo conhecimento em uma revelação primordial e a existência de diversas escolas de pensamento.
- Zosimo de Panópolis, no final do século III ou início do IV d.C., representa o ápice da alquimia como autor original, cuja extensa obra, notavelmente seus 28 Livros a Teosebeia, é impregnada de um misticismo religioso e gnóstico, onde as operações alquímicas são equiparadas a sacrifícios e cerimônias de iniciação, e a salvação da alma, obtida através do conhecimento e da purificação, torna-se um objetivo central.
- Os fragmentos remanescentes dos escritos alquímicos de Hermes Trismegisto, citados por autores posteriores como Zosimo, Sinesio, Olimpiodoro e o Anepígrafo, revelam uma mescla de técnica prática — com receitas envolvendo mercúrio, lixiviação e branqueamento — e princípios doutrinais, como a unidade do Todo e a correlação microcosmo-macrocosmo, demonstrando a interconexão entre o hermetismo filosófico e o hermetismo das ciências ocultas.
- No Comentário sobre a Letra Ômega e no Cômputo Final, Zosimo articula uma visão profundamente religiosa da alquimia, onde o praticante, para ter sucesso na Arte Sagrada, deve transcender o destino através do autoconhecimento, da imaterialidade e da união com o Filho de Deus, enfatizando que a preparação espiritual é mais crucial do que a mera habilidade técnica ou o conhecimento de receitas.
- A evolução da alquimia, de uma técnica artesanal para uma filosofia e, finalmente, para uma religião de salvação, espelha a transformação mais ampla do espírito religioso no mundo helenístico e romano tardio, onde as preocupações com a purificação da alma e o acesso ao divino através da gnose tornaram-se centrais para muitas correntes de pensamento.