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id da página: 13260 Festugière – A Revelação de Hermes Trismegisto Livro 4 – Regeneração André-Jean Festugière

Festugiere Homem Novo

FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d’Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l’Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.

  • O tema geral da habitação de Deus no homem

    • A análise do tratado C.H. XIII revela imediatamente o tema central da habitação divina no interior do ser humano, distinguindo-se da ideia primitiva de possessão temporária ou êxtase profético, tal como descrito no tratado hipocrático sobre a doença sagrada ou nos Evangelhos; no hermetismo, o fruto essencial da regeneração não é o dom temporário da profecia, mas um estado novo e durável onde o homem conhece a Deus como Pai e se reconhece como filho de Deus, implicando uma transformação moral e ontológica do indivíduo.
    • Esta concepção de inabitação divina encontra paralelos na filosofia da época, como evidenciado na Carta a Marcela de Porfírio, onde se afirma que a alma é o habitáculo de deuses ou demônios e que o intelecto do sábio é o único templo digno de Deus; contudo, há uma diferença fundamental, pois enquanto para Platão e a tradição platônica o nous é uma parte divina inata que deve ser despertada e cultivada através do recolhimento, no C.H. XIII a regeneração implica a irrupção de Forças sobrenaturais vindas de fora que constroem uma nova pessoa divina, o Logos, substituindo o antigo eu vicioso.
    • A fenomenologia desta transformação hermética apresenta semelhanças notáveis com práticas descritas por Irineu sobre o gnóstico Marcos, o qual induzia mulheres a uma união espiritual ou casamento místico para receberem a Graça e profetizarem; em ambos os casos, hermetismo e gnosticismo de Marcos, observa-se uma sequência ritual de preparação, ordens para se abrir e receber, um momento de silêncio e a consumação da descida da Graça ou das Potências divinas.
  • As condições prévias para a iluminação

    • O recolhimento é estabelecido como condição indispensável para a contemplação, desdobrando-se em uma preparação remota, que consiste no afastamento do mundo e dos bens sensíveis, conforme preconizado por Numenius, Porfírio na Vida de Plotino e pelo alquimista Zosimo; e uma preparação imediata, que envolve o cessar da atividade dos sentidos corporais e o silêncio interior, permitindo que o nous desperte enquanto o corpo dorme, uma prática corroborada por autores como Maximo de Tiro, Celsus citado por Origenes e os Oráculos Caldeus.
    • A exigência de voltar-se para si mesmo e reunir os membros dispersos da alma, separando-se do corpo para encontrar o divino, é um topos recorrente que conecta a ascese hermética à tradição platônica e neoplatônica, visando uma reintegração da verdadeira natureza espiritual do indivíduo.
  • A concepção e gestação do homem novo

    • A descrição da gênese espiritual utiliza terminologia biológica de geração física, como matriz, semente e nascimento, uma linguagem metafórica comum na antiguidade para descrever processos espirituais, encontrada em Philo de Alexandria, nos Papiros Mágicos e em textos alquímicos; esta segunda nascimento é concebida como uma operação real onde Deus ou o Logos atua como o semeador e a Sabedoria ou o silêncio como a matriz receptiva.
    • A imagem do casamento espiritual entre Deus e a alma, resultando no nascimento de um ser espiritual ou de virtudes, aparece nos Atos de Tome e na Paixão de Santa Cecilia, sugerindo uma paternidade espiritual onde a semente incorruptível da palavra divina gera filhos vivos e imortais, libertos das preocupações do mundo material; embora existam paralelos com o hieros gamos dos mistérios e com as interpretações simbólicas de Plutarco sobre a tríade genérica de Osiris, Isis e Horus, a originalidade dos textos herméticos e apócrifos reside na aplicação deste simbolismo à regeneração moral e ontológica do indivíduo e não à cosmogonia.
  • A natureza do homem novo: aparência e realidade

    • O ser regenerado é descrito como fundamentalmente diferente do homem antigo, embora sua aparência externa permaneça inalterada; o homem novo é constituído pelo Logos, sendo invisível, impalpável, sem cor ou figura e perceptível apenas ao intelecto, uma doutrina que ecoa ensinamentos de Porfírio sobre o verdadeiro eu interior que transcende o corpo sensível e só é apreendido pela mente.
    • Esta dicotomia entre o homem exterior visível e o homem interior real é amplamente explorada nos Atos Apócrifos dos Apóstolos, como nos Atos de Andre e nos Atos de João; nestes textos, a conversão é apresentada como um retorno ao nous e o reconhecimento da própria natureza imaterial, santa e superior às potências mundanas, onde o corpo físico e suas paixões são vistos como estranhos à verdadeira essência do ser.
    • O docetismo presente nos Atos de João, onde o corpo de Jesus é descrito como polimorfo e imaterial, aparecendo de formas diferentes aos discípulos e não deixando pegadas, oferece um paralelo teológico à antropologia hermética do C.H. XIII; assim como o verdadeiro Jesus não é aquele que sofre na cruz, mas o Logos impassível, o hermetista regenerado, embora pareça um homem comum sujeito às leis da matéria, é em realidade um filho de Deus imortal e alheio às aflições corporais.
    • Relatos nos Atos de Filipe e nos Atos de Tomé descrevem a transfiguração dos apóstolos e santos em seres de luz, cujos corpos se tornam luminosos e incorpóreos, refletindo a crença popular e teúrgica de que o homem divino, ou theios aner, pode manifestar sua verdadeira natureza ígnea e espiritual, tal como atribuído também a Jâmblico e aos brâmanes por Filostrato.
  • A iluminação e o hino regenerador

    • O processo de regeneração culmina na iluminação, que ocorre em etapas: inicia-se com a aspiração e a vontade de receber o divino, segue-se o silêncio das faculdades sensíveis e a entrada das Potências de Deus que expulsam os vícios, resultando em uma primeira visão intelectual onde o iniciado se percebe em todas as coisas; a iluminação completa-se com a audição e entoação do hino das Potências, revelado apenas ao final da iniciação.
    • O hino do C.H. XIII é apresentado com rubricas litúrgicas específicas, instruindo a oração ao sol nascente e poente, o que sugere a utilização de formulários de oração tradicionais adaptados; o conteúdo do hino expressa que é o próprio Deus, através do Logos e das Potências que habitam no iniciado, quem canta louvores a Si mesmo, tornando o homem um instrumento passivo e transparente da ação divina.
    • A iluminação é compreendida não apenas como um fenômeno psicológico ou intelectual, mas como uma transformação substancial e quase física, análoga aos rituais de imortalização dos papiros mágicos e da teurgia, onde o pneuma ou luz divina preenche o indivíduo, conferindo-lhe poder e divindade; por isso, recomenda-se o segredo sobre a virtude ou poder (arete) da revelação, para evitar que esta força sagrada se dissipe ao ser exposta aos profanos, tal como Eliseu ordenou a Geazi ou Jesus aos seus discípulos.
  • O contraste entre a moral mística e a ética tradicional

    • A ética da regeneração hermética difere radicalmente da moral clássica grega de Aristóteles ou dos Estoicos, onde a virtude é um hábito adquirido pelo esforço e repetição; no hermetismo, a virtude é um dom gratuito da misericórdia divina, uma inserção de Potências sobrenaturais que substituem a personalidade antiga, sem que haja mérito ou conquista humana autônoma.
    • Decorre desta doutrina a ideia da impecabilidade do regenerado: uma vez que o novo eu é o próprio Logos divino e filho de Deus, ele é ontologicamente incapaz de pecar, e qualquer falha aparente é atribuída à ilusão externa e não à essência verdadeira; isso aproxima o hermetista da figura do sábio estoico em sua estabilidade, mas o supera, pois o hermetista não apenas se alinha com Deus, mas torna-se consubstancial a Ele.
    • Esta certeza de salvação inadmissível, baseada numa experiência mística de entusiasmo e identificação com o divino, pode conduzir a uma indiferença moral, ou adiaforia, onde o gnóstico se sente acima da lei; contudo, dentro do próprio corpus hermético, textos como o C.H. I mantêm uma perspectiva onde a conduta moral e a escolha do intelecto continuam sendo determinantes para o destino da alma, sugerindo que a doutrina da regeneração absoluta refletia a experiência exaltada de uma elite espiritual restrita, em contraste com a luta moral contínua da maioria dos crentes.