FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d’Hermès Trismégiste II. Le Dieu cosmique. Paris: Les Belles Lettres, 1990.
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A Conexão entre Alquimia e Espiritualidade Hermética segundo Zosimos
- O tratado alquímico de Zosimos, intitulado Computo final, inicia-se com um prólogo em forma de carta a Teosebeia, onde instruções espirituais e convites à meditação são inseridos entre descrições de receitas técnicas e a origem egípcia das tinturas; o autor, referindo-se explicitamente a Hermes e aos textos Poimandres e Crater, postula que para obter os segredos da Arte é necessário primeiramente encontrar Deus.
- Zosimos instrui que encontrar Deus exige um retorno a si mesmo e o silenciamento das paixões corporais que derivam da matéria e da influência dos astros, pois a agitação constante na busca externa nos afasta da verdade que reside no interior; a alma deve, portanto, concentrar-se em seu próprio fundo onde Deus está presente.
- A perfeição, ou teleiosis, conforme definida por Hermes no Crater, consiste em receber o batismo do Intelecto, o que reforma a compreensão humana e concede novas faculdades para participar da gnosis; somente através desse autoconhecimento é que se conhece a Deus e, consequentemente, as tinturas excelentes, pois todo saber emana da fonte divina da verdade.
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Definição do Gênero Literário: O Logos Hermético versus a Diatribe
- Para compreender adequadamente os escritos do hermetismo filosófico, é imperativo abandonar a perspectiva da piedade cristã posterior e situar esses textos em função de seus antecedentes helenísticos, revelando que, embora compartilhem a brevidade e o caráter de exortação da diatribe moral comum à época, o logos hermético possui diferenças fundamentais de tom e propósito.
- Enquanto a diatribe, associada à escola cínica, caracteriza-se por um tom propositalmente brusco, realista, vulgar e destinado a atingir o ouvinte em locais públicos como ruas e encruzilhadas, o logos hermético evita o realismo grosseiro e adota um tom de confidência íntima, solene e penetrante, assemelhando-se a um colóquio privado entre pai e filho ou mestre e discípulo em um santuário ou câmara fechada.
- Não existem paralelos exatos na antiguidade para este gênero, mas suas raízes podem ser traçadas até Platon; o logos hermético evoca o lirismo revelatório do Timeu e, mais especificamente, a revelação de Diotima a Socrates no Simposio, onde a instrução sobre a natureza do amor e a ascensão à visão do Belo ocorre em um ambiente de conversa privada e inspirada, mesclando dialética e passagens de alta elevação poética.
- Assim como no Simposio, os melhores escritos de Hermes apresentam um amálgama de partes dialogadas e longos discursos, transitando da vivacidade de uma disputa escolar para o lirismo de uma apocalipse, onde o mestre, seja como deus ou profeta, revela doutrinas sublimes sobre a natureza divina e a união com o absoluto através da gnosis.
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O Cenário Institucional: A Escola Filosófica e a Direção Espiritual
- As realidades concretas implicadas nas obras herméticas sugerem não a existência de uma igreja ou culto público, mas sim de uma escola privada ou uma espécie de convento laico de teosofistas, onde um pequeno grupo de iniciados se reúne para instrução e direção espiritual, refletindo a nostalgia da solidão e a busca por uma piedade interiorizada comum nas grandes cidades do Império Romano.
- Os textos frequentemente se iniciam com questões escolares padrão da filosofia da época — como o motor e o movimento, a definição de morte, ou a distinção entre sensação e intelecção — que servem de pretexto para que o mestre eleve a discussão para temas gnosticos superiores sobre Deus e o Intelecto, deformando os problemas filosóficos tradicionais no sentido da gnosis hermética.
- Este método aproxima o gênero hermético dos logoi de Plotino, conforme observado por Bréhier, onde as doutrinas e textos de Platon ou Aristoteles são utilizados não para construir um sistema orgânico, mas como ponto de partida para sermões destinados à ascensão da alma e ao progresso da vida espiritual, caracterizando a obra tanto de Plotino quanto de Hermes como um gênero de pregação e direção de almas.
- A atmosfera descrita nos textos, análoga àquela das biografias romanceadas de Pitagoras relatadas por Jamblico, mostra mestres reunindo jovens em locais solitários e sagrados para formá-los na vida espiritual através da palavra e da prova, indicando que os logoi herméticos foram concebidos e escritos nesse ambiente de retiro e instrução esotérica.
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Metodologia de Ensino e Transmissão do Saber (A Tradição Escolar)
- A estrutura interna dos diálogos herméticos reflete rigorosamente os costumes das escolas filosóficas gregas, especificamente a distinção estabelecida por Jamblico na escola pitagórica entre o ensino oral (dialexeis), as anotações de curso (hypomnemata) e as composições finalizadas (syngrammata).
- O ensino oral é a forma predominante no Corpus Hermeticum, figurando Hermes quase sempre como o didascalo que instrui discípulos individuais como Tat, Asklepios ou Amon, seja através de monólogos magistrais ou de trocas de perguntas e respostas que evitam a disputa dialética agressiva em favor de uma instrução confidencial.
- É comum a presença de um ou dois auditores silenciosos durante a lição dirigida a um discípulo específico; por exemplo, no C.H. X, a lição é dirigida a Tat enquanto Asklepios assiste mudo, e no Asclepius, tanto Tat quanto Amon são convidados a assistir, mas o diálogo ocorre exclusivamente com Asklepios e deve ser inscrito apenas em seu nome, evidenciando a prática escolar de limitar a participação ativa para manter a ordem e o sigilo iniciático.
- A exclusão de estranhos e a limitação do número de participantes, como visto no Asclepius onde Hermes proíbe a entrada de outros além dos três discípulos para não violar o discurso religioso com a presença da multidão, reforça o caráter de iniciação (myesis) da transmissão do saber, onde o silêncio e o segredo sobre a paradosis são imperativos.
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A Dualidade entre Oralidade e Escrita (Hypomnemata e Syngrammata)
- Os textos demonstram a passagem natural da lição oral para o registro escrito; no C.H. XIII, após a experiência de regeneração, Hermes menciona ter registrado o logos em seus cadernos (hypomnemata) para uso exclusivo do discípulo, e no C.H. XIV, o mestre envia um resumo escrito (kephalaia) dos pontos principais da doutrina a Asklepios, que estava ausente da aula oral ministrada a Tat.
- Esta prática de enviar anotações aos ausentes ou compilar resumos é típica da boa escola antiga e explica as referências internas aos "escritos" dentro de diálogos que se pretendem orais; os textos são, simultaneamente, representações de aulas orais e composições escritas (syngrammata) destinadas à leitura, como observado no Stobeu Hermético II B, onde o autor diz estar "compondo" o tratado enquanto fala.
- A natureza de hypomnemata (notas de curso) desses escritos, conforme a definição de Alexandre de Afrodisias citada por Simplicio, justifica a falta de um sistema coerente e unificado no hermetismo; os tratados são independentes, muitas vezes contraditórios entre si e desorganizados, assemelhando-se a compilações de opiniões escolares divergentes justapostas sem rigor sistemático, tal como ocorre em Filo ou Clemente de Alexandria.
- As contradições flagrantes encontradas no Corpus — como o mundo sendo ora considerado maligno, ora divino, ou a variação sobre a metensomatose em animais — decorrem do uso de uma tradição escolar comum (topoi) que não pertence a um único autor, mas é adaptada conforme a necessidade da pregação ou do momento pedagógico, onde a consistência lógica é secundária à eficácia espiritual.
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Recepção Histórica e o Caráter Esotérico
- A natureza esotérica e restrita desses escritos, destinados a circular apenas dentro de pequenos círculos de iniciados (conventículos), explica por que foram praticamente ignorados pela literatura profana contemporânea dos séculos II e III, não sendo mencionados por autores como Plotino, apesar das semelhanças de método.
- Plotino provavelmente ignorou os escritos herméticos devido à sua aversão fundamental a qualquer forma de revelação que substituísse o esforço racional da filosofia pela fé em um dom gratuito de um deus ou profeta; para ele, a verdade deve ser conquistada pelo pensamento, não recebida passivamente.
- Inversamente, o caráter de revelação divina e as semelhanças monoteístas atraíram os Padres da Igreja, como Tertuliano e Lactancio; Lactancio, em particular, exaltou Hermes Trismegisto como um profeta antiquíssimo, anterior a Pitagoras e aos Sete Sábios, que, embora homem, foi divinizado e testemunhou verdades cristãs essenciais, como a unicidade de Deus, conferindo aos textos herméticos uma autoridade que faltava aos filósofos pagãos comuns.