FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964
A inteligência é a forma do corpo. As opiniões e os atos humanos o demonstram claramente. Primeiro argumento. O homem é um animal razoável.
Não é somente a ordem da natureza que prova ser uma e a mesma alma que, no homem, pensa e sente, como já expusemos acima, mas também a opinião dos sábios e as ações humanas. Todos os que se dedicaram à filosofia concordaram em afirmar que o homem representa, entre os seres, uma espécie cuja diferença própria, que o distingue dos animais, é ser racional. Ora, é sempre necessário tirar a diferença própria da forma intrínseca do ser. Com efeito, nenhum ser difere especificamente de outro senão por sua natureza intrínseca. Mas o caráter racional não é assumido apenas pela alma cogitativa, pois nela há apenas uma razão particular. Ora, o homem age racionalmente em suas palavras e em seus atos segundo o bem e o belo em geral. Sua diferença é, portanto, derivada de uma razão universal, e esta reside na inteligência. A inteligência é, portanto, a forma pela qual cada um de nós é colocado na espécie humana.
Ora, se essa inteligência fosse separada do homem quanto ao ser, dela e desse homem não resultaria uma única espécie, e o homem, visto que sua carne lhe é intrínseca, seria chamado carnal com mais propriedade do que racional, uma vez que a razão lhe seria extrínseca.
E que Averróis não venha dizer que o homem é composto de um animal cogitativo e de uma inteligência, e que é por causa de uma de suas partes que o todo é chamado racional, assim como se chama chato um corpo cujo nariz é achatado. Com efeito, não há descontinuidade entre o nariz e o corpo, mas há uma entre a inteligência e a atividade cogitativa. Além disso, tal inteligência constitui uma espécie distinta do animal cogitativo, e esse animal, por sua vez, é em si uma espécie distinta da inteligência. A designação de diferença não passa de uma espécie a outra espécie separada.
E, assim como em Averróis a inteligência não é chamada cogitativa e sensível em virtude de sua vizinhança com a alma cogitativa, do mesmo modo a alma cogitativa não será chamada racional ou intelectual por causa da inteligência. A designação de diferença também não passará a um terceiro que resultaria dessas duas, pois uma diferença única exige uma única espécie e, inversamente, uma única espécie exige uma diferença única. Ora, não constituem uma só espécie, porque não se encontram em uma única essência e uma única existência.
É totalmente absurdo que o homem receba de uma inteligência única e separada a diferença que o faz homem; com efeito, nessas condições, os indivíduos seriam um único ser humano, uma pluralidade de animais, e a natureza da espécie permaneceria universal, enquanto a natureza do gênero se tornaria particular. Não é menos absurdo situar a espécie humana nesse agregado, pois, assim como não seria simplesmente una, do mesmo modo não seria, por assim dizer, nem simplesmente um ser, nem uma espécie substancial de seres, mas um agregado acidental; tanto mais que de duas coisas que, por si mesmas, existem em ato segundo uma espécie perfeita, não resulta uma unidade verdadeira em si, mas uma unidade falsa, e isso porque é um outro que serve de vínculo.
Aquilo que é perfeitamente capaz de existir por si não se lança no seio de outro, e o que se basta a si mesmo não admite naturalmente outro em seu interior. Ademais, uma vez que todos os seres se distinguem uns dos outros por seus atos e que, por conseguinte, o ato é o princípio da separação, os que existem em ato se opõem à união. Ora, a inteligência e o animal subsistem ambos em ato e não podem ser unidos por um terceiro, como mostraremos a seguir.
Aristóteles, contudo, ensina em sua Ética que há na alma uma razão universal pela qual sentimos e vivemos, e que é por causa dela que somos chamados racionais. No primeiro livro, diz que a inteligência está na alma como a visão está no olho, e também que há duas partes na alma: uma desprovida de razão e outra dotada de razão. Divide a primeira em duas: a parte nutritiva, que jamais obedece à razão, e a parte sensitiva, que por vezes lhe obedece. Divide a segunda igualmente em razão ativa e razão especulativa.
Coloca as virtudes morais na vontade e no apetite, submetidos à razão; os princípios das virtudes morais, na razão ativa; e as virtudes especulativas, na razão especulativa. Faz o mesmo no sexto livro, onde afirma igualmente que a potência racional é uma parte da alma humana e que possui dupla atividade: conhecer e governar os assuntos humanos pela prudência e pela habilidade, e contemplar as realidades naturais e divinas pela sabedoria, que está contida na inteligência e na ciência.
No livro dos Problemas, diz: “A natureza, mãe e autora de todas as coisas, implantou em nós dois instrumentos pelos quais podemos usar os instrumentos exteriores. Ao corpo concedeu a mão; à alma, a inteligência. Deve-se, com efeito, contar entre os dons que a natureza nos concedeu a inteligência, que desempenha sem dúvida o papel de um instrumento.” São estas suas próprias palavras nesse trecho.