FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964
Quarto argumento. Os poderes da alma, às vezes se neutralizam, às vezes se estimulam mutuamente
Toda vez que uma única e mesma natureza, a qual possui duas potências de agir dessemelhantes, se aplica com demasiada intensidade ao ato de uma delas, quase renuncia ao ato da outra. É assim que convivas mal podem, ao mesmo tempo, ouvir distintamente o som da lira e saborear manjares. Se a intensa atenção dedicada à degustação não impedisse a audição, afirmar-se-ia que essas duas potências não pertencem a uma só substância, mas a duas substâncias. Ora, os atos intensíssimos da nutrição e da sensibilidade impedem a intelecção humana e reciprocamente. O que bem demonstra que o intelecto é em nós uma faculdade dessa mesma alma, que tem a faculdade de nutrir e aquela de sentir.
A isto os partidários de Averróis replicarão que o sentido e a fantasia são duas potências de nossa alma e que, em consequência, se neutralizam mutuamente, mas que se, além disso, o ato da inteligência é igualmente enfraquecido, quando o ato da fantasia diminui de intensidade em razão da tensão excessiva dos sentidos, não é porque a inteligência está na mesma alma que a fantasia ou o sentido, mas porque para criar e ver as espécies, a inteligência necessita do concurso da fantasia. Embora os Averroístas não estejam no direito de dizer que a fantasia diminui de intensidade por causa da tensão dos sentidos, visto que, a seu ver, a fantasia é um movimento produzido pelos sentidos, e embora seja inverossímil igualmente que a fantasia seja muito enfraquecida pelo cuidado que dedica a nutrir o corpo, deixe-se, todavia, de lado por ora o que concerne à nutrição e ao sentido e retenha-se a fantasia e a inteligência.
A experiência demonstra-nos efetivamente que, no caso em que a fantasia é demasiadamente tensa, a intelecção humana ou a razão relaxa-se e inversamente, a ponto de que quando a fantasia, mesmo normal e moderada, se demonstra demasiado imperativa, a atividade da inteligência ou da razão torna-se quase nula, e inversamente. O mesmo se produz, quando o sentido, mesmo em seu estado normal, se volta com mais atenção para os objetos exteriores, distrai a fantasia e inversamente. Por outro lado, quando nas pessoas que sonham, que se embriagam, que estão com cólera, que estão apaixonadas ou que estão em presa à demência ou ao frenesi, a fantasia revolve e revira em si suas imagens com toda a tensão da alma, porventura todo juízo da inteligência ou da razão não está completamente adormecido? Quando, ao contrário, nos filósofos, a razão fixa seu olhar ardente nas realidades divinas que observa, porventura a fantasia não guarda completo silêncio e se intervém, porventura a razão não lhe impõe logo silêncio e não a impede ou de ser demasiado arrebatada pelos desejos ou de dar demasiado livre curso às suas habituais divagações? Quem, pois, poderia negar que a inteligência e a fantasia são as potências da mesma alma, visto que se enfraquecem por sua tensão recíproca?
Mas, seja, conceda-se aos Averroístas que a reciprocidade de pôr em movimento que existe entre a inteligência e a fantasia corresponde exatamente àquela que existe entre o senso comum e os sentidos particulares; do mesmo modo, pois, que a imagem de um objeto que brilha no olho reflete-se daí no senso comum e que o ato da visão se reflete do olho sobre o senso comum, assim as imagens bem como os atos que delas decorrem espalham sua luz da fantasia na inteligência. Todavia, parece igualmente que a reciprocidade que existe entre a inteligência e a fantasia é mais importante que entre o sentido interno e o sentido externo, porque as imagens tanto quanto os atos são refletidos da inteligência na fantasia, ao passo que no outro caso, não se vê muito bem, e os Averroístas não o dizem claramente, como isto se produz entre o sentido interno e comum e o olho. Se eles alegam que isto se produz também às vezes no sonho, seja.
Poder-se-ia ainda encontrar outro ponto sobre o qual a reciprocidade que existe entre estas potências supera a dos sentidos. Com efeito, entre a inteligência e a fantasia, não é apenas uma mudança recíproca de espécie e de ato, mas também de disposição e de "habitus" que se opera, o que jamais se produz entre o senso comum e o senso externo. Por conseguinte, visto que entre a inteligência e a fantasia existe uma parentela maior e um laço mais indissolúvel que entre o senso comum e o senso externo, e que, contudo, um e outro sentido estão na mesma alma, por que, a inteligência e a fantasia não estariam, elas também, na mesma alma? Por que a inteligência eterna está quase sempre tão levada para a fantasia temporal que lhe obedece, a lisonjeia e que quando esta se aflige e se queixa, compartilha, se assim se pode dizer, suas penas, suas alegrias, se não é porque todas as duas têm por fundamento a mesma natureza e a mesma substância? Como a potência finita da fantasia está tão frequentemente associada em seu ato à potência de certo modo infinita da inteligência, a tal ponto que na medida em que esta pensa, aquela imagina, se não é porque a mesma substância as torna ambas iguais?
Jamais se produz entre duas coisas quaisquer uma troca de qualidades imediata, fácil e total, se elas não têm por suporte uma matéria comum. Por conseguinte, nem o intelecto se tornaria jamais tão imaginativo, nem a fantasia tão inteligente, nem o intelecto se tornaria por vezes irracional, nem a fantasia se tornaria por vezes racional, se todas as duas não repousassem sobre um sujeito comum. Como uma roda põe outra em movimento porque todas as duas dependem do mesmo mecanismo, assim estes dois apetites, o racional e o irracional, põem-se em movimento mutuamente muito facilmente, tanto por instinto quanto por juízo, porque estão na mesma substância da alma. Daí esta palavra de Aristoteles, no terceiro Livro da Alma: "Do mesmo modo que uma esfera move uma esfera, assim a concupiscência move a vontade". Mas a concupiscência não pode pôr em movimento a vontade senão se é ou bem como uma espécie de esfera superior que arrasta uma esfera inferior, o que ninguém pode dizer, ou bem uma esfera ligada ao mesmo mecanismo que a inteligência.