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id da página: 7661 Gnosticismo – Émile Gillabert – Gnose Emile Gillabert

Gillabert Gnose


GILLABERT, Émile. Jésus et la gnose. Paris: Dervy-Livres, 1981

Não se brinca impunemente com a gnose. Ou bem se a trata como um evento histórico entre outros, e neste caso ela se recusa a entregar o sentido oculto de seu ensino, ou bem se sente implicado pelas questões que ela coloca e se quer responder a elas de outra maneira que não pelo saber: duas atitudes fundamentalmente diferentes. A primeira oferece uma visão exterior tal como a de um rio visto da margem: se avista a corrente com o que ela carrega na superfície; se adota em relação a ela uma atitude crítica; a segunda é uma démarche, uma aventura; se lança à água, no sentido da corrente e se vai aonde ela leva. A primeira deixa intacto, se não for que aumenta o saber; a segunda modifica em profundidade porque as questões colocadas pelos gnósticos permanecem colocadas para nós. Elas nos são endereçadas e é apenas na medida em que se tenta respondê-las por si mesmo que se tem chances de aprofundar a gnose. No fundo do homem, a um grau de profundidade que atingem apenas alguns seres ao longo dos séculos, há um fundo universal, independente das instituições humanas; por nossa vez, não se pode rejoindre esse fundo senão por uma démarche individual sob condição de experimentar a nostalgia imperiosa dele e de não ceder aos atrativos do coletivismo sob qualquer forma que seja. Quem não vê que se trata de fato de uma recolocação em questão pessoal? Somos condicionados por uma religião, uma cultura, uma família, em suma por hábitos mentais que nos adormecem ou nos alienam. Ora a gnose ensina a única maneira possível de nos comportarmos face aos dualismos do mundo: conhecer-se a si mesmo; e para isso despir-se, desvelar-se, descondicionar-se, tornar o inconsciente consciente.

Então o mal cessa de se opor ao bem; está ligado à manifestação e aparece simplesmente como a expressão de tudo o que aumenta a entropia do mundo. O dualismo porta sobre a gênese e não sobre a essência do universo. É verdade que esse dualismo ele mesmo evoluiu, que os maniqueus concebiam um universo onde o Mal era co-existente e co-eterno ao Bem e que os bogomilos da Bósnia e os cátaros do Languedoc perpetuaram essa forma de dualismo. Mas o que importa saber é que a grande gnose sempre teve por objetivo essencial ultrapassar o espetáculo onipresente e angustiante do mal que por toda parte parece se opor às forças do bem, transcender a antinomia para curar do despedaçamento que ela produz.

Contudo, transcender o dualismo, é obedecer a uma exigência de verdade interior que constrange a recolocar em questão todo o saber e a rejeitar todas as ideologias, todos os sectarismos, todos os fanatismos. As opiniões ilusórias que se trata de abandonar são outros tantos vestuários superpostos que nos atrapalham, a nudez total tendo por nome despertar ou realização. Certos desses vestuários colam à pele do homem branco a um ponto tal que apenas uma nostalgia fundamental e uma vontade determinada de pagar o preço de sua liberação podem vir a cabo de resistências como as que estão ligadas a uma forma de salvação no devir, a uma concepção antropomórfica do divino, a um dualismo que mantém a separação no tempo e na eternidade do complexo humano com a divindade...

Trata-se de fato de sua verdadeira metanoia, a qual significa etimologicamente mudança de mentalidade. Ela acarreta um abalo das estruturas mentais e uma recolocação em questão global. Ora as ideologias fizeram do homem branco um ser assistido. O resgate pelo sangue redentor é a forma de assistência por excelência já que os méritos da paixão de Cristo nos asseguram a salvação eterna. O marxismo apenas prolongou no tempo a ideologia cristã limitando-a ao plano terrestre. Como a Igreja, ele quer controlar o mundo para mudá-lo e para isso adia a vida. Se amanhã deve ser melhor, investe-se para amanhã, canalizam-se os recursos para o que deve advir. Em curso de caminho, esqueceu-se o que era preciso mudar. Não importa: os transbordamentos imprevisíveis da natureza são conjurados; a disciplina é assegurada, pouco importa que seja a de um partido ou de uma igreja. Enquanto isso, ganham-se pontos para a aposentadoria e pouco importa que ela seja terrestre ou celeste: se é assistido.

Vá-se pedir àqueles que estão atingidos por essa doença mortal, que estão em sobrevida desde sua juventude por terem negado no fundo de si mesmos suas necessidades verdadeiras, por terem eludido a vida no presente a ponto de matar literalmente o tempo até a morte, vá-se pedir a essas pessoas que são a grande maioria que abracem a vida aqui e agora no esquecimento do que dá uma aparente coesão e duração ao que de fato não tem!

Essa acusação daquilo que nos impede realmente de viver é o próprio da gnose. Contudo, numa sociedade onde o mal é generalizado, é a saúde que faz figura de agente mortífero, de sorte que o doente não está de modo algum preparado para recobrar a saúde. Seria preciso antes de tudo que ele o desejasse e que se desse conta de que se trata para ele de uma questão de vida ou de morte. Seria pedir-lhe uma tomada de consciência da qual é bem incapaz e que poderia, aliás, notemos bem, provocar traumatismos graves.

Aquele que quer realmente pagar o preço do conhecimento, ainda que passe pelo fogo, sabe onde encontrar a resposta a suas questões; é guiado por seu instinto vital. De modo algum é preciso alimentar a tola pretensão de vir em sua ajuda. Resta que os encontros entre pessoas que se votaram à pesquisa essencial não têm apenas o preço das coisas raras mas um perfume de conivência: se conhece, se reconhece sem se ter visto, se fala a mesma língua sem necessariamente falar o mesmo idioma, se está em toda parte em casa... Mas a sorte, mesmo se a favorecemos, não se renova frequentemente. Já no tempo de Jesus ela era raríssima:

As raposas têm suas tocas e os pássaros têm seu ninho mas o Filho do homem não tem um lugar onde inclinar a cabeça e repousar. (Logion 86)