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id da página: 7669 Gnosticismo – Émile Gillabert – Gnose, espaço, tempo Emile Gillabert

Gillabert Gnose Tempo


GILLABERT, Émile. Jésus et la gnose. Paris: Dervy-Livres, 1981

A Condição do Gnóstico e a Alienação Humana

  • A condição paradoxal do gnóstico é a de estar no mundo mas não ser do mundo, sentindo-se um estrangeiro e sendo visto como tal, etimologicamente um "alienado".
  • Ele compreende sua origem em outro lugar e a tarefa de reencontrar sua pátria atemporal, reconhecendo-se ao se voltar para o mundo interior.
  • A humanidade, ao contrário, direciona suas faculdades para o exterior, para a história e para o tempo e espaço, submetida ao devir e buscando o futuro incessantemente.
  • Essa corrida em direção a uma vida falsa, que não tem fundamento nem consistência, é vista com compaixão pelo gnóstico, que a percebe como um enorme desperdício de energia.
  • A humanidade alcançou os antípodas de sua inocência original ao se engajar em um tipo de saber que a impede de viver o aqui e o agora, cortando-se do paraíso da infância.
  • O autor Cioran, considerado um gnóstico contemporâneo, critica os sistemas de valores do ser humano que tenta vencer o tempo não pela transcendência, mas pela velocidade, o que configura uma queda no tempo.
  • A história é vista como uma longa expiação, resultado de um desvio, uma corrida frenética em que se excede o tempo, imitando-o em sua impostura.
  • A avidez e o frenesi humanos são percebidos como um remorso por ter perdido a verdadeira inocência, uma memória do paraíso que assombra a todos, apesar da pressa.

O Contraste entre o Não-Ser e a Existência

  • A filosofia gnóstica compartilha com o pensamento de Cioran a ideia de que o não-ser é superior à existência, pois todos os males vieram com o nascimento.
  • A Criação é tida como o primeiro ato de sabotagem e a história não oferece salvação, sendo um tecido de utopias que geram o mal, a tirania e a servidão.
  • Enquanto nos antigos gnósticos a angústia existencial era uma alavanca para a salvação, em Cioran ela nutre uma obra que se compraz no reino das sombras.
  • A obra de Cioran é valorizada por seu poder de desfazer ilusões e tornar o leitor exigente e lúcido diante de literaturas que buscam conciliar o inconciliável.
  • O tempo é considerado nefasto, e a história ilude. O salvação no fim da história é uma utopia, pois o homem se perde ao tentar sobreviver, afastando-se de sua inocência original.
  • A incapacidade de reencontrar a inocência perdida é compensada artificialmente com o aumento dos meios de ação, substituindo instintos comprometidos por máquinas aterrorizantes.
  • A busca gnóstica é por libertar-se do medo e não participar de uma aventura inflada de terror, rejeitando a troca da eternidade pelo devir histórico, que é um "grande transfúgio do ser".
  • A renúncia ao devir para escapar da alienação pode ser vista como outra forma de alienação, mas, na verdade, os homens voltados para o devir obedecem a um instinto de morte.

Morte e Desprendimento

  • A aspiração à vida e à morte se assemelham, e desde a concepção o ser humano já está orientado para a morte.
  • A construção do ser psicossomático na primeira metade da vida busca autonomia e compensações, e a vontade de viver é mais forte do que a de autodestruição.
  • Jovens orientados para a morte não se interessam pela aventura espaço-temporal ou pelo engajamento, pois fazem a economia de uma operação fútil.
  • O distanciamento do mundo espaço-temporal só é possível após ter recebido as compensações apropriadas a cada fase da vida (infância, adolescência, juventude, maturidade).
  • A libertação ou o despertar exige o desapego do ter, do saber e do poder, o que significa iniciar um processo de desprendimento em um determinado momento da vida.
  • A atitude paradoxal exigida é a de morrer para o mundo para poder viver, após tê-lo conhecido e o ter achado um "cadáver".
  • O homem que, na idade da reflexão, continua na via da aquisição, destrói-se a Si mesmo e espalha a morte ao seu redor.
  • Culturas e sistemas de valores que morrem também obedecem a um instinto de morte coletivo, o que é perceptível na civilização ocidental contemporânea, onde as razões de viver não são mais fortes o suficiente.
  • É possível tomar distância do mundo e da história, que é uma sucessão de eventos, refletindo sobre a própria origem e escrutando o passado através dos mitos.

Uma Teologia da História

  • Mitos, especialmente cosmogonias, têm um prestígio especial e manifestam a vontade de preservar o passado do naufrágio do tempo.
  • A história, no contexto judaico, é apresentada como objeto da vontade divina, controlada e orientada por Yahweh.
  • O cristianismo, mais do que o judaísmo, é uma religião histórica, com dogmas baseados em eventos definidos, como a Encarnação, que valoriza o tempo como modo de realização do plano divino.
  • A teologia cristã da história repousa sobre um núcleo mítico que deu forma ao "discurso", com bases não verificáveis, implicando a intervenção de Deus no tempo histórico.
  • O tempo linear, da criação ao fim da história, opõe-se à concepção cíclica hinduísta. Para o cristianismo, o Filho se encarnou e adquiriu a salvação dos homens uma única vez.
  • O tempo da história sagrada é o da educação progressiva da humanidade e do crescimento do Corpo de Cristo, a Igreja. A noção de progresso na história é, no entanto, contradita pelos fatos.
  • A fé cristã é alimentada pela esperança escatológica do retorno glorioso de Cristo, mas não abole o abismo entre criatura e Criador.
  • A impaciência humana com a paciência divina leva ao desejo de apressar as promessas, o que se manifestou em movimentos como as cruzadas, anabatistas e seitas modernas.
  • A dependência do cristão em relação à história o impede de ter a ideia de que essa situação possa mudar, o que só ocorreria por uma pressão interior ou uma revolta fundamental.
  • A modernidade, com o tempo linear e acelerado, moldou um tipo de ser humano alienado, cortado da vida natural e medindo sua inteligência pela capacidade de dominar a natureza.

A Perspectiva Gnóstica do Tempo e da Existência

  • O mestre Jesus ensina que "Tudo está lá desde sempre", para aqueles que conseguem distinguir o que é miragem do que é realidade.
  • As descobertas científicas revelam que o universo mental se constrói a partir de dados sensoriais relativos e ilusórios.
  • A mente, baseada em um passado que já está morto, projeta-se no futuro, criando a ilusão de continuidade.
  • Para o gnóstico, o passado não pode servir de apoio para a pergunta “Quem sou eu?”, pois a observação objetiva compartimenta e cria um hiato entre o ser humano e o seu ambiente.
  • O mestre Jesus propõe uma metanoia, uma virada de perspectiva, buscando em Si o que se pensava encontrar em um futuro ou em outro lugar.
  • A concepção messiânica de salvação na história se opõe radicalmente à concepção grega de tempo cíclico ou circular, onde não há começo nem fim.
  • No pensamento grego, o mundo é uma ordem imutável, mas também um lugar de sofrimento, o que leva à crença de que a alma está presa ao corpo.
  • O platonismo e o plotinismo se baseiam na ideia de que a alma se eleva e se perde em Deus, enquanto a gnose propõe que o Si investe o ser humano, revelando-lhe sua verdadeira identidade.
  • A gnose transcende o tempo e o espaço sem fugir deles, assumindo-os plenamente, o que é um paradoxo.
  • A originalidade fundamental da gnose reside em considerar o tempo como o momento de servidão e, ao mesmo tempo, a chance de realização atemporal, onde o ego deve perder sua batalha ilusória contra o Si.
  • A pergunta "Quem sou eu?" está ligada a "O que eu era?" e "Quem serei?", e a resposta gnóstica é universal, encontrada nos Libertos viventes, nos Despertos.
  • O mestre Jesus ensina que o começo e o fim são o mesmo, e que o feliz é aquele que se mantém no começo, pois ele conhecerá o fim e não provará a morte.
  • A gnose liberta o ser humano das amarras do tempo e do espaço ao permitir que ele descubra, no aqui e agora, o que é permanente e eterno através do contingente.

A Gnose e a Sabedoria de Jesus

  • O mestre Jesus adverte contra a tentação de fugir para o futuro e para outro lugar, pois o Reino está dentro e fora de nós, e buscá-lo em outro lugar é a ilusão que as religiões ofereceram aos homens.
  • A atitude requerida para receber a semente da gnose é o despojamento do passado, com seus sonhos e crenças, e a assunção de uma alma de criança.
  • A gnose exige a inocência original que transcende a visão dualista, e a entrada no Reino corresponde a uma mudança radical de comportamento, onde a dualidade sujeito-objeto é transcendida.
  • A visão gnóstica do tempo e da realidade é semelhante à das grandes tradições orientais, como os Vedas e o budismo, que consideram o tempo e as projeções mentais como ilusórios.
  • O Real só pode ser percebido no momento presente, quando a mente está em paz e o tempo, um dado mental, é transcendido.
  • A gnose é uma sabedoria eterna que transcende culturas e tempos.
  • A gnose não se limita a um dualismo de bem e mal; ela leva o ser humano a uma maturidade que não se contenta com soluções simplistas, como um Cristo Redentor ou a fuga para constelações harmoniosas.
  • A salvação não acontece sem o corpo, mas o gnóstico não reanima o "cadáver" da existência, ou seja, não se separa a psique do soma.
  • O gnóstico está no mundo, mas não é do mundo, e por conhecê-lo como um "cadáver", ele pode dizer: "Estou no mundo, mas não sou do mundo."
  • A gnose faz o ser humano passar do mundo das imagens para a luz que as dissolve, ou seja, a forma (o cosmos) é abolida quando a Deficiência é preenchida.
  • A filosofia não pode alcançar a gnose, pois ela é uma experiência direta, um conhecimento que não se baseia em hipóteses ou especulações.
  • O gnóstico é imortal em meio aos mortais, pois transcende tempo e espaço no aqui e agora. A transcendência e a imanência não são antinômicas, mas sim os inversos complementares de uma única Realidade.
  • O desfecho do drama humano é a morte do ego, uma vez que a ilusão da prisão é desfeita.
  • A gnose convida à experimentação direta do Reino que já está aqui, um convite para não esperar o que já veio, para que a vida não seja uma "sinistra zombaria".