GILLABERT, Émile. Paroles de Jésus et pensée orientale. Montélimar: Métanoïa, 1974
Jesus anuncia um novo reino
I. Contextualização da Expectativa Messiânica e a Incompreensão Enfrentada por Jesus
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Antecedentes da Expectativa Escatológica:
- Os apóstolos e grupos contemporâneos, como os essênios, viviam numa expectativa fervorosa e iminente da vinda de um Reino messiânico, conforme anunciado pelos profetas hebreus.
- Esta expectativa era marcada por uma fé intensa, mas também por uma inquietação, pois acreditava-se que o advento desse Reino seria precedido por profundos e aterradores cataclismos cósmicos.
- O propósito central desta espera era a preparação para o "Dia do Senhor", um evento de julgamento divino.
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A Rejeição de Jesus como Messias pelos Contemporâneos:
- A figura histórica de Jesus de Nazaré não se encaixava nas expectativas tradicionais do Messias glorioso e triunfante prefigurado nas profecias.
- A sua conduta — ao associar-se com publicanos e pecadores, não observar estritamente os jejuns, transgredir interpretações da Lei e realizar milagres — era considerada um escândalo e um sinal de contradição para as autoridades religiosas, particularmente os fariseus.
- Consequentemente, a sua identidade messiânica foi veementemente rejeitada e até ridicularizada, como evidenciado pelo título "Rei dos Judeus" usado de forma pejorativa.
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A Incompreensão Generalizada nos Evangelhos:
- Os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas) tendem a atribuir a principal oposição aos fariseus, enquanto o Evangelho de João utiliza com frequência o termo genérico "os judeus" para descrever aqueles que se opunham a Jesus.
- Essa oposição unânime decorria da incapacidade de conciliar a figura humana de Jesus com a imagem profética de um libertador político e cósmico, levando-os a exigir incessantemente "sinais do céu" como prova de sua autoridade divina.
II. A Natureza Radicalmente Distinta do Reino Anunciado por Jesus
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A Ruptura com a Concepção Messiânica Tradicional:
- Jesus distanciou-se categoricamente da noção de um reino temporal, político e apocalíptico, rejeitando a ideia de que a sua manifestação pudesse ser observada através de sinais externos ou fenómenos cósmicos.
- Através das suas parábolas e respostas, enfatizou que a realidade do Reino é de natureza interior, espiritual e progressiva, e não uma irrupção súbita e espetacular do divino na história.
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Características Essenciais do Verdadeiro Reino:
- Imanência e Interioridade: O Reino não é um evento futuro localizável no espaço ou no tempo ("não vem de modo visível"), mas uma realidade presente "dentro de vós" e "entre vós", acessível através de uma transformação interior.
- Processo Gradual de Transformação: A compreensão e a entrada no Reino exigem uma busca paciente, uma metanóia (mudança de mentalidade) e um processo de despojamento e humildade, simbolizado pela necessidade de se tornar "como uma criança pequena".
- Transcendência do Sensorial: O que Jesus oferece transcende completamente a experiência sensorial humana comum — "o que o olho não viu, o ouvido não ouviu e a mão não tocou".
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A Crítica à Busca por Sinais Externos:
- A demanda por demonstrações de poder e sinais espetaculares foi firmemente rejeitada por Jesus, que classificou tal atitude como própria de uma "geração má e adúltera".
- Esta busca era sintomática de uma incompreensão fundamental sobre a verdadeira natureza de Deus e do seu Reino, que deve ser discernida espiritualmente e não empiricamente.
III. A Profundidade da Incompreensão e suas Consequências Doutrinárias
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A Incompreensão Persistente dos Próprios Discípulos:
- Os discípulos, embora próximos de Jesus, partilhavam das mesmas expectativas escatológicas tradicionais do judaísmo, mostrando-se repetidamente incapazes de compreender a sua mensagem radicalmente nova.
- Questões sobre "o fim dos tempos", "o dia da vinda do Reino" ou "o momento do seu aparecimento" demonstram que eles permaneciam aferrados a uma visão temporal e externa do Reino.
- Repreensões severas, como a de que haviam "abandonado o Vivente que está diante de vós para falar dos mortos" (os profetas), sublinham a profundidade deste desencontro.
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A Apropriação e Distorção Paulina da Mensagem:
- A interpretação de São Paulo, que não conheceu Jesus historicamente, representou um desvio significativo da mensagem original.
- Paulo recentrou a fé na crença num evento histórico futuro — a morte expiatória e a ressurreição corporal de Cristo — como único meio de salvação individual no além-morte.
- Esta "teologia da revindicação" ou "religião de salvação" satisfez o anseio humano por garantias futuras e compensações, mas, ao fazê-lo, afirmou o "eu" individual (a salvação do ego) em oposição ao convite de Jesus para a negação e o despojamento do "eu" (a salvação do ego).
- Esta visão, embora aparentemente mais espiritual que a expectativa de um reino terrestre judaico, permaneceu fundamentalmente enraizada na mesma lógica de um messianismo futuro e exterior.
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A Elaboração de Narrativas Contraditórias nos Evangelhos Canónicos:
- Os redatores dos evangelhos, influenciados tanto pelas expectativas judaicas quanto pela teologia paulina, enfrentaram o dilema de harmonizar a mensagem original de Jesus com a crença na sua segunda vinda gloriosa.
- O resultado foi a inserção de discursos apocalípticos (como o Discurso Escatológico de Marcos 13, Mateus 24 e Lucas 21), repletos de referências ao Antigo Testamento (Daniel, Isaías), que são estranhos ao ensino autêntico de Jesus sobre o Reino presente e interior.
- Esta composição textual criou uma contradição insolúvel dentro do cânone, entre um Reino "já presente" e um Reino "ainda por vir" com poder e glória.
IV. A Redescoberta do Ensino Autêntico através do Evangelho de Tomé
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O Valor Testemunhal dos Logia (Ditos) de Tomé:
- A descoberta do Evangelho de Tomé, uma coleção de ditos de Jesus (logia) sem narrativa apocalíptica, proporcionou um acesso mais direto à provável mensagem original.
- Estes ditos, frequentemente mais directos e desprovidos do enquadramento teológico posterior, reforçam consistentemente a natureza interior, imediata e não-apocalíptica do Reino.
- Exemplos como "O Reino está dentro de vós e fora de vós" ou "O que esperais já chegou, mas não o reconheceis" contrariam frontalmente a narrativa de um fim dos tempos iminente.
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A Confirmação da Rutura com o Profetismo:
- Os logia em Tomé mostram Jesus a rejeitar explicitamente a contínua dependência dos discípulos nas figuras proféticas do passado, insistindo que a oportunidade única está no "Vivente" presente diante deles.
- Esta postura corrobora a ideia de que Jesus se via não como o cumprimento de profecias externas, mas como a revelação direta e definitiva do Pai.
V. Enquadramento do Ensino de Jesus na Metafísica Oriental e Tradicional
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A Convergência com os Princípios da Metafísica Perene:
- A essência do ensino de Jesus sobre o Reino — interior, atemporal e exigindo uma transformação da consciência — alinha-se profundamente com os princípios da "philosophia perennis" ou metafísica tradicional, encontrada no Vedanta Advaita, no Budismo (especialmente Zen/Tch'an) e no Sufismo.
- Conceitos como a identidade entre o homem realizado e o Divino ("Eu e o Pai somos um"), a ilusão da separatividade e a realização através do autoconhecimento e do desapego do ego são centrais nestas tradições.
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O Processo de Realização Espiritual:
- A jornada para o Reino é conceptualizada como um retorno ao "Princípio" ou "Centro" interior, uma reintegração na Realidade absoluta (o Soi/Brahman/Deus) da qual o ser humano aparentemente se separou.
- Esta "queda" não é um evento moral, mas uma condição existencial de ignorância (avidya) ou esquecimento da nossa verdadeira natureza divina.
- A salvação, portanto, não é uma aquisição futura, mas a realização presente de uma unidade sempre existente, que dissolve a ilusão do ego separado.
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A Crítica às Estruturas Religiosas como Obstáculos:
- A acusação de que fariseus e escribas "tomaram a chave da ciência e ocultaram-na" simboliza a crítica a qualquer estrutura religiosa que, ao institucionalizar e externalizar a busca espiritual, acaba por se tornar um obstáculo para a verdadeira compreensão interior e direta.
- A verdadeira autoridade reside, portanto, não na exegese de textos ou na obediência a leis externas, mas na experiência interna de iluminação ou "despertar" (bodhi), testemunhada pelos "sábios despertos" de todas as tradições.
VI. Conclusão: O Mal-Entendido Histórico e a Mensagem Perene
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O Triunfo da Interpretação Escatológica:
- A mensagem original de Jesus, que focava a realização espiritual imediata, foi largamente suplantada e obscurecida pela interpretação escatológica e de salvação futura, primeiro pelos discípulos que não a compreenderam, depois por Paulo e finalmente pelos redatores dos evangelhos canónicos.
- Esta reinterpretação prevaleceu porque ressoou com os desejos humanos de segurança, compensação e afirmação individual perante o sofrimento e a injustiça.
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A Relevância Contemporânea do Ensino Original:
- A redescoberta do núcleo autêntico do ensino de Jesus, libertado das camadas de interpretação apocalíptica, revela uma mensagem de profunda sabedoria espiritual, focada no presente e na transformação interior.
- Esta visão, que enfatiza a transcendência da morte através da realização da Vida eterna agora, ressoa mais fortemente com a sensibilidade moderna, céptica em relação a milagres externos e intervenções divinas súbitas, do que a teologia tradicional da expiação e da ressurreição final.
- Assim, a figura de Jesus é reposicionada não apenas como um mestre judeu reformista, mas como um sábio iluminado cuja mensagem sobre a natureza do Reino se insere na linhagem universal dos que apontam para a Realidade última, que é imanente e transcendente, exigindo apenas que se "nasça de novo" na consciência dessa unidade.