Um dos maiores estudiosos do Gnosticismo, participou ativamente dos trabalhos iniciais sobre as descobertas da Biblioteca de Nag Hammadi (vide também Evangelho de Tomé).
''Do Prefácio de Puech a seu livro PUECH, Henri-Charles. En torno a la gnosis. Madrid: Taurus, 1982''
A Gnose como Experiência Existencial e sua Essência
- A compreensão da Gnose deve ser extraída das suas manifestações históricas concretas e da experiência dos gnósticos, evitando definições abstratas ou simplificadas que a tornem insignificante.
- A investigação sobre a sua essência equivale a perguntar o que ela representa para o gnóstico individual, como ele a experimenta e como traduz essa experiência.
- O pensamento gnóstico, por mais desconcertante que pareça, obedece a um motivo comum que confere organicidade, coerência e finalidade interna a todos os sistemas.
- A Gnose identifica-se com um fator constante, solidário de uma experiência fundamental, que está presente e atua em todos os sistemas gnósticos, garantindo sua unidade e parentesco.
O Itinerário Gnóstico: da Negação à Afirmação do Eu
- A gnose é, antes de tudo, uma atitude total, existencial, que compromete a vida, a conduta e o ser integral do homem.
- Inicia-se com uma insatisfação e uma ansiedade perante a condição presente no mundo, sentida como um enclausuramento opressivo e humilhante.
- O gnóstico reage com desprezo, hostilidade e, finalmente, com a rejeição e a rebeldia contra o mundo, recusando-se a aceitar a sua condição.
- Sentindo-se um "estrangeiro" no mundo, ele aspira a distinguir-se dele, a evadir-se e a libertar-se dos seus constrangimentos, num movimento de "renúncia ao mundo", "êxodo" e "conversão" a si mesmo.
A Busca da Identidade Autêntica e a Nostalgia do Transcendente
- A percepção de ser "outro" leva o gnóstico a convencer-se de que, embora esteja no mundo, não é dele, e a buscar a sua realidade autêntica fora e longe do mundo.
- Ele concebe-se como um ser transcendente, independente das contingências, e afirma-se positivamente tal como é ou crê ser em si mesmo.
- O anseio de "ser ele mesmo" une-se à nostalgia de um "outro mundo" transcendente, lugar da "Vida verdadeira" e do "Repouso", do qual se sente exilado e ao qual deseja retornar.
- O objetivo final do itinerário gnóstico é descobrir e recobrar o seu ser pessoal autêntico, "conhecer" integralmente quem é e, assim, tornar-se plenamente no que ele é.
O Processo de Autoconhecimento como Questão de Salvação
- O processo gnóstico não é puramente especulativo, mas é orientado por sentimentos e exigências afetivas e concretas, pois envolve a própria existência e a salvação do indivíduo.
- A consciência de si nasce da experiência do mal, levando-o a generalizar a condição humana como funesta e a interrogar-se sobre a origem do mal e o sentido da existência.
- As perguntas fundamentais — "O que era? O que sou? O que serei?" ou "De onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos?" — visam explicar a situação presente e liberar-se dela.
- As respostas convergem para a certeza da eternidade do próprio ser: o gnóstico sabe que preexistia, que procede de outro lugar e que, por direito e natureza, pertence ao Além, sendo o seu ser autêntico intemporal.
A Salvação como Retorno ao Ser Original e Eterno
- O estado atual no mundo é visto como uma paradoxal anomalia, um acidente resultante de uma catástrofe ou de um drama.
- A substância do seu ser escapa ao mundo e ao tempo, oferecendo-lhe a garantia de poder subtrair-se a ambos e de que o seu futuro será idêntico ao seu passado intemporal.
- Esta convicção leva-o a considerar-se "inocente" da queda e das impurezas que a acompanham, engrandecendo-se de uma "inocência" nativa que aspira a recuperar.
- Surge assim o ideal de "regeneração" como um retorno ao estado paradisíaco anterior ao nascimento carnal, e o ideal de perfeição fundado na apatheia (impassibilidade e impecabilidade).
Os Meios da Salvação: Conhecimento e Recolhimento Interior
- A gnose não só certifica o destino de regresso à origem como fornece os meios para isso: incita à libertação do mundo e confere o poder para alcançar o destino por si mesmo.
- "Salvar-se" significa, em primeiro lugar, fugir, evadir-se, "sair do mundo", empreender um "êxodo".
- Paralelamente, o gnóstico deve concentrar as suas forças, "reunir" os "membros" dispersos da sua alma, dissipando o torpor e o esquecimento, num processo de "recoleta" e "rearticulação" do organismo espiritual.
- O "Conhecimento" — que é, primeiro, conhecimento de si — não apenas guia, mas é em si mesmo a salvação: ao manifestar-se e ser possuído, salva.
A Salvação como Realização Imediata e Perfeição Innata
- Conhecer-se equivale a reencontrar-se na verdade do seu ser, a possuir-se e a identificar-se com ele, numa operação interior de alcance ontológico.
- Esta "metamorfose" do eu aparente no eu real é uma "conversão", um retorno de si sobre si e a si.
- "Salvar-se" consiste, portanto, em "regressar a si", em "realizar-se" na integridade do seu ser pleno, num "cumprimento" (teleiosis) que se produz já no presente.
- O gnóstico sabe-se, por natureza, "perfeito" (teleios), tal como o ouro ou uma pérola cuja substância não é alterada pela lama onde está. A "ressurreição" e o "Repouso" escatológicos são considerados como já acontecidos.
Autonomia, Amoralismo e a Dissolução do Problema Soteriológico
- Tendo recobrado a autonomia, o gnóstico dispõe livremente de si mesmo, o que pode levar a um amoralismo de princípio, manifestado tanto no ascetismo quanto no libertinagem, ambos justificados pela "soberania" nativa.
- Em última análise, "salvar-se" equivale a encontrar-se na condição de um ser salvo desde toda a eternidade.
- O problema da salvação, colocado no plano do devir, dissolve-se ao resolver-se em função de uma ontologia que afirma a eternidade e perfeição innatas do ser.
Ritos e Práticas: Papel Secundário e Complementar
- Embora existam ritos e "sacramentos" em algumas correntes, estes são vistos como auxiliares ou complementos para acompanhar e confirmar a recepção da gnose.
- Ritos que empregam intermediários do mundo sensível são rejeitados por gnósticos mais radicais.
- Mesmo quando utilizados, tais práticas têm um papel secundário face à obtenção do Conhecimento através de uma revelação pessoal ou de um Mestre.
- A "redenção" (apolitrosis) é, antes de tudo, um assunto individual, uma graça interior e exclusivamente espiritual, que não necessita de ritos, obras ou práticas exteriores.
Carácter Pragmático e Vital da Busca Gnóstica
- A busca gnóstica não é desinteressada; a questão "Quem sou?" é pragmática e vital, nascida de um mal-estar e de um desenraizamento perante o mundo.
- O seu objetivo não é situar-se objetivamente no mundo, mas sim em oposição e, finalmente, fora dele.
- O autoconhecimento visa descobrir e afirmar-se como estranho e superior ao mundo, negar qualquer compromisso com ele e estabelecer uma soberana independência para além dele.
- A preocupação com o sentido da existência atual serve apenas para tentar liberar-se ou transformá-la.
O Pathos da Aventura Individual e a Exigência de Salvação
- A deriva do gnóstico tem um aspecto patético: a busca é uma "aventura" ou uma "navegação" ameaçada, e a sua existência temporal adquire um carácter dramático.
- A exigência de uma solução é apaixonada, nascida de uma combinação de inquietação, anseio, decepção, irritação, impaciência, ressentimento, negação, ódio ou rebeldia.
- A "salvação" é compreendida como um salvamento urgente, uma libertação de uma situação julgada insuportável.
Individualismo, Subjetividade e Proliferação de Sistemas
- A atitude gnóstica é profundamente individualista e egocêntrica, desembocando na afirmação decidida de um "eu" soberano e autônomo.
- Este individualismo manifesta-se na multiplicação quase anárquica de sistemas e escolas, pois cada gnóstico, ao encontrar-se a si mesmo, é impelido a elaborar o seu próprio sistema ou a interpretar à sua maneira uma doutrina inicial.
- Não existe uma "ortodoxia" ou uma "Igreja" gnóstica universal, mas sim conventículos e "comunidades carismáticas" sem estrutura fixa, unidas apenas por laços espirituais.
- O maniqueísmo constitui uma exceção notável, ao constituir-se deliberadamente como uma Igreja com dogmas canónicos, intangíveis e autoritários.
Aristocratismo Espiritual e Esoterismo
- A atitude gnóstica é também aristocrática: o "Perfeito" é um "nobre", um "escolhido" que forma parte de uma elite de "Pneumáticos" ou "Espirituais".
- Este sente-se incomparavelmente superior aos "Psíquicos" (que têm alma mas não espírito) e, sobretudo, aos "Hílicos" ou "Carnais" (que são apenas matéria).
- As revelações são, por consequência, "esotéricas", reservadas ao "pequeno número" de iniciados, incapazes de serem compreendidas pela massa.
Carácter Revolucionário e Subversão da Visão do Mundo
- A atitude gnóstica é revolucionária, pois isola o indivíduo pelo seu carácter exclusivo e radical e subverte a visão do mundo helênica então admitida.
- O gnóstico opõe-se ao cosmos ordenado, nega as suas leis e a sua constituição hierárquica, vistas como constrangimentos.
- O mundo sensível é "degradado" e condenado, arrastando consigo na condenação os corpos, os astros, o tempo e até o Demiurgo criador.
- Esta rebeldia contra a condição humana, a existência, o mundo e Deus pode conduzir à imaginação de uma subversão final total (eversio) ou a um nihilismo de negação e aniquilação do mundo.
Projeção da Experiência nos Mitos e Doutrinas
- A experiência subjetiva e as reflexões individuais do gnóstico são frequentemente transpostas para um plano impessoal, sistematizadas em doutrinas e mitos de valor universal e metafísico.
- A interrogação pessoal ("O que era? O que sou?") transforma-se numa interrogação sobre a condição humana geral, resolvida na perspectiva de um devir cósmico e transcósmico (e.g., os "três Tempos" do maniqueísmo).
- O mal-estar existencial conduz à concepção da existência atual como uma decadência consequente de uma "Queda" primordial (do Homem Primordial, de Adão, etc.).
- A existência é explicada por uma degradação, uma passagem do pleroma (plenitude) para o hysterema (deficiência, carência).
- A condenação do mundo leva à condenação do seu criador (o Demiurgo bíblico ou platônico), opondo-se-lhe um "Deus desconhecido", transcendente e salvador, e estabelecendo uma dualidade radical (Espírito/Matéria, Bem/Mal).
Identificação com as Entidades Mitológicas e Consubstancialidade
- O gnóstico projeta-se nas entidades da sua metafísica: o "Salvador" é também um salvandus (que deve ser salvo) e espelha a imagem ideal de si mesmo; Sophia, caída e salva, é a mãe dos Pneumáticos, com cujas aventuras o gnóstico se solidariza.
- Ele não apenas liga a sua sorte à de seres celestiais, mas está convencido de ser "consubstancial" a eles, e até a Deus, possuindo uma "porção", "semente" ou "centelha" de luz divina.
- As doutrinas cosmogônicas e antropológicas constroem-se em função da soteriologia, certificando-o de que é suscetível de ser salvo e capaz de se salvar, possuindo os meios para regressar à sua "pátria" celestial.
Linguagem e Temas: Adaptação e Sentido Renovado
- O gnóstico utiliza uma linguagem e temas comuns na Antiguidade tardia (e.g., vida como cativeiro ou sono, retorno como despertar, ascensão da alma, encontro com o "Gêmeo" espiritual).
- No entanto, longe de serem meros clichés ou sincretismos, estes termos e temas são adaptados e recriados, adquirindo uma vivacidade, amplitude e alcance novos ao expressar sentimentos reais e um propósito definido.
- O valor exacto de cada termo ou tema só se percebe no seu contexto e na sua conexão com os outros, formando um complexo significativo que revela a intenção geral do sistema.
- A análise deve focar-se no jogo e na organização destes leit-motiv para perceber a unidade, a especificidade do "estilo" gnóstico e a particularidade de cada doutrina.
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