HULIN, M. Le principe de l’ego dans la pensée indienne classique: la notion d’ahamkara. Paris: Vrin., 1978
- A Interpretação das Fases do Sono e a Elaboração de um Esquema Original pelas Upanixades
- Necessidade de revisitar a interpretação das fases do sono, cuja simplicidade e evidência aparentes revelam-se enganosas.
- O resultado factual alcançado diverge do que seria "logicamente" esperado.
- A reflexão sobre o sonho e o sono profundo, isolada de seu contexto histórico, parece convergir para o reconhecimento de um sujeito transcendental puro, alheio ao mundo.
- Os valores tradicionais do termo Atman — pertencentes ao registro ritual ou ao da "cosmofisiologia" — refreiam as Upanisads de se alongarem demasiado nesta direção.
- A constrição das Upanisads a elaborar um esquema original devido a estas acepções menos abstratas.
- O frequente encontro destas acepções, iniciando-se pela de "corpo", nas Upanisads, interferindo em significados mais elaborados.
- A onipresença destas acepções, em particular nos primeiros capítulos da BAU, resultando numa estrutura original a ser descrita.
- O Âncora Corporal do Atman (Âtman) e sua Localização Mística no Ser
- O Atman, por ter primitivamente designado o organismo como totalidade, retém sempre um ponto de ancoragem no corpo, não se apresentando completamente "desencarnado".
- A designação de seu assento como o local central onde se opera o controle de todos os processos vitais: "esse espaço no interior do coração".
- A representação ocasional do Atman como um Purusa (purusa), um homúnculo instalado no homem e que o rege internamente.
- Possui a dimensão "de um grão de arroz ou de cevada" ou a "do polegar".
- A demonstração em certos textos deste Purusa evadindo o corpo pelo olho, pelo ápice do crânio ou pelas "veias" (nadi), que convergem internamente no coração e se conectam externamente aos raios solares.
- A interpretação usual das fases do sono e da vigília como mudanças de residência deste homúnculo: o espaço no interior do coração (sono profundo), o corpo inteiro, o espaço exterior.
- A representação flutuante e a correspondência mal estabelecida entre estas residências e os estados de consciência.
- O indicativo dos próprios flutuamentos de que a ideia de uma localização rígida do Atman, que implicaria sua ausência "noutro lugar", não é satisfatória.
- A Relação Paradoxal entre a Pontualidade e a Transcedência Infinita do Atman (Âtman)
- O encaminhamento progressivo à ideia de que a localização ocupada pelo Atman é necessariamente pontual.
- O apoio de comentadores posteriores, como Madhva, nesses textos para sustentar que as Upanisads ensinaram a atomicidade do Atman, ou da alma individual (jivanu).
- A evidência de que o Atman, capaz de absorver o universo no sono profundo, não pode ocupar um ponto arbitrário no espaço.
- O seu local de inserção, o espaço do coração, é um ponto místico, um "aleph" que não está contido no universo, mas que, ao invés, o encerra: "Isto é meu Atman no interior do coração, mais pequeno que um grão de arroz, que um grão de cevada, que um grão de mostarda, que um grão de milho painço, que o caroço de um grão de milho painço; isto é meu Atman no interior do coração, maior que a terra, que o espaço entre céu e terra, que o céu, que todos estes mundos".
- A precisão em outra passagem da Chandogya Upanishad de que o espaço no interior do coração contém "tudo o que se encontra neste mundo e tudo o que nele não se encontra".
- A sustentação da transcendência do Atman em relação ao mundo.
- O Atman (Âtman) como Centro do Mundo Visível e o Esquema de Dilatação Cósmica
- A necessidade de o corpo se situar no centro do mundo visível, como primeira esfera, dado que o ponto místico se encontra no coração e o coração dentro do corpo.
- O corpo como esfera investida e regida pelo Atman para, por sua intermédio, investir e reger a grande esfera cósmica concêntrica.
- A ideia fundamental de que o Atman se derrama, irradia a partir do seu "aqui absoluto", exterioriza-se e se multiplica.
- A exteriorização em sopros, Manas (manas), etc., é o homúnculo, o "poucet" (dedo polegar).
- O desenvolvimento em órgãos de sensação e de ação é o corpo, o "homem" em sentido ordinário.
- A dilatação em que o olho se torna o sol, a comida, as águas, etc., é o Homem Cósmico.
- A menção na Chandogya Upanishad dos "cinco orifícios do coração", as cinco direções de desdobramento do Atman, surgindo sucessivamente como sopros, sentidos e forças cósmicas (deva).
- A imagem clássica da roda: o Atman é o "cubo" de onde partem os "raios" (sopros, etc.), que chegam à "jante" (o corpo ou o cosmos).
- A tendência de inversão da hierarquia tradicional do microcosmo e do macrocosmo.
- As propriedades do Atman que "ultrapassam" o universo manifestam-se no corpo, pois o corpo está, em certo sentido, mais próximo do Atman.
- "Esta luz que brilha além do céu, além do universo, além de tudo, nos mundos mais altos, nos mundos supremos, é a mesma que brilha no homem; é visível: percebe-se o calor do corpo ao tocá-lo; é audível: se se tapam os ouvidos percebe-se algo como um zumbido, um mugido, como o ronco do fogo".
- A Posição Privilegiada do Atman (Âtman) na Ordem da Duração e a Transcendência do Tempo
- A ocupação, pelo Atman, da mesma situação privilegiada na ordem da duração que ocupa no espaço, como centro de referência absoluto.
- O papel decisivo que a reflexão sobre a alternância dos estados de consciência deve ter desempenhado.
- A projeção do universo ao despertar, tal como o Atman o absorveu no sono profundo: "E quando desperta, como de um fogo flamejante as faíscas saltam em todas as direções, assim deste Atman os sopros saltam, cada um segundo seu domínio, dos sopros os deuses, dos deuses os mundos".
- A presença sustentadora do Atman no mundo pela sua vigília, mas sem envolvimento real em qualquer sequência de eventos internos ao mundo.
- A capacidade do Atman de anular toda situação graças ao sono.
- A expressão negativa da transcendência temporal: o Atman é "isento de nascer, de envelhecer e de morrer".
- A compreensão positiva do Atman como a fonte eterna do tempo: "Aquele em seguida do qual o ano desenrola o tempo em dias, os deuses o conhecem como a luz das luzes, como a vida imortal".
- A indicação de que o "no começo" dos mitos cosmogónicos não necessita ser interpretado literalmente.
- As Qualidades Essenciais do Ponto Místico: Infrangibilidade, Plenitude e o Prodígio do Tempo Reversível
- A propriedade mais singular do ponto místico: nada o afeta, sendo indivisível, infrangível e alheio a qualquer forma de passividade.
- O Atman, por ser interior a todas as coisas, escapa a toda influência externa.
- O núcleo absolutamente compacto, que afasta a ideia de cisão, é o espaço "cheio e imutável" no interior do coração, referido na Chandogya Upanishad.
- O repasse natural dos mesmos valores de plenitude e felicidade para sua extensão infinita, sendo esta uma faceta de sua "pontualidade".
- O indivíduo que se considera idêntico a ele "torna-se o todo, e os próprios deuses não o podem impedir porque é o Atman deles".
- A coincidência com o Atman, foco do espaço e do tempo, permite o acesso à toda-potência e ao prodígio do tempo reversível, do passado anulado: "Agora, aqueles dos seus que estão vivos e aqueles que estão mortos e tudo o que deseja mas não obtém, encontra-o se para lá se dirige (no espaço do coração)".
- A progressão na Taittiri Upanishad através de uma série de Atman concêntricos (feitos de alimento, de sopro, de Manas, de conhecimento) em direção ao mais íntimo, o feito de felicidade, o único absolutamente real.
- O Otimismo Naturalista dos Brahmanas e a Aparência da Individuação
- O conjunto de passos examinados não se desvia de modo decisivo do otimismo naturalista característico dos Brahmanas.
- A substituição da gnose pelo sacrifício implica que uma certa visão da estrutura e do funcionamento da individualidade psicobiológica permite compreendê-la como sacrifício permanente e natural.
- A mudança de perspectiva ("Aquele que assim sabe...") parece tornar supérfluas as manipulações rituais externas e o conjunto de práticas ascéticas e todas as modalidades de "renúncia".
- A inutilidade de "preparar" a individualidade ritualmente ou de purificá-la pela ascese se ela, em seu estado bruto, puder ser imediatamente identificada ao Brahman.
- A implicação do esquema concêntrico na individuação como simples aparência e o Atman como a única realidade.
- O Paradoxo da Multiplicidade e a Irrealidade da Distância do Centro
- A questão de como o universo poderia se dispor concentricamente ao redor de uma multiplicidade de centros distintos, considerando a exterioridade dos organismos e a diferença da localização do "espaço do coração" para cada um.
- A fusão cósmica como aparência própria do estado de vigília, abalada no sonho e periodicamente anulada no sono profundo.
- A comparação dos indivíduos a rios que se perdem no mar ou a diversos sucos de plantas que se misturam para produzir um mel de sabor único.
- A atribuição regular da diferenciação ao par "nome e forma", que a Chandogya Upanishad especifica ser produzido pelo espaço.
- A indicação de um princípio de dispersão e multiplicação (o espaço) que, como meio inerte, não compromete a unidade do que nele se desdobra.
- A coexistência pacífica do Atman único com um segundo princípio, semi-real, que o faz surgir sob as formas da multiplicidade.
- A ausência de postulação do aprofundamento na singularidade como obstáculo.
- A aptidão natural do ego para se absorver no Si, podendo alcançá-lo a qualquer momento ao descer pela via do sono.
- A individuação como aparência translúcida que ainda não assume o aspecto de ilusão cósmica sedutora e funesta.
- A implicação, pela necessidade de progressão para um núcleo central de indivisibilidade absoluta e felicidade, da existência de uma zona periférica marcada pela pluralidade e pelo sofrimento.
- A necessidade de se voltar para os textos que meditam sobre este paradoxo da "distância do centro" simultaneamente real e irreal.