HULIN, Michel. La mystique sauvage: aux antipodes de l’esprit. Paris: Presses universitaires de France, 2008
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A natureza paradoxal da experiência humana: a ligação intrínseca entre o agradável e o desagrável
- A observação de Sócrates no Fédon sobre a estranha relação de concomitância entre o prazeroso e o penoso, como se estivessem ligados a um único ponto.
- A opacidade do desagradável como foco necessário de investigação, em contraste com a aparente autoevidência do agradável.
- A opção metodológica de abordar a forma mais elementar e autêntica do desagradável: a dor física, deixando de lado temporariamente a dimensão psíquica ou moral.
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A inadequação da dor como sensação representativa
- A crítica à assimilação da dor a uma sensação qualitativa como as cores ou os sons, comum na psicologia empírica e na neurofisiologia.
- A monotonia da dor, que varia apenas em intensidade e ritmo, contrastando com a diversidade qualitativa das sensações propriamente ditas.
- O caráter parasitário da dor, que se superpõe a qualidades sensíveis diversas, como pressões ou temperaturas, mascarando sua natureza uniforme.
- A impossibilidade de reduzir a dor a uma mera exageração de sensações táteis, dada a convergência e unificação dos registros sensoriais durante sua intensificação.
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A dor como experiência de recusa e corpo a corpo
- A definição da dor como um recuo interior, um "não" dito a uma sensação invasora e hostil.
- A distinção entre os reflexos defensivos eficazes, que não são dolorosos, e a dor como um corpo a corpo estático com um invasor que não se pode repelir nem destruir.
- A ambiguidade constitutiva do verbo "sofrer", que significa tanto "subir passivamente" quanto "suportar" ou "endurar".
- A delimitação conceitual entre o puro ser-esmagado de um objeto inanimado e a forma ideal de suportar, que anularia a sensação de peso.
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A dualidade neurofenomenológica da dor: elemento sensorial e elemento aversivo
- A evidência neurocientífica da distinção, fornecida pelos casos de "assimbolia à dor".
- A descrição do fenômeno em pacientes com lesões específicas, que percebem o estímulo doloroso sem reagir com aversão ou reflexos de evitamento.
- A localização neurológica distinta para a componente sensorial discriminativa e para a componente afetiva e motivacional da dor.
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A circularidade aparente na motivação da recusa da dor
- O problema de fundamentar a recusa da dor em seu caráter intrinsecamente doloroso, após tê-la definido como aquilo que provoca recusa.
- A constatação de que a recusa do doloroso não possui a estrutura intelectual de um juízo.
- A compreensão da percepção do doloroso como odioso e o ato de recusá-lo como as faces representativa e ativa de um único e mesmo comportamento.
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A universalidade e espontaneidade do comportamento de clivagem entre o favorável e o desfavorável
- A caracterização do comportamento como universal na humanidade e comum aos animais superiores, independente de fatores culturais ou intelectuais.
- A definição do comportamento como um clivagem originária da experiência em positivo/negativo, bom/mau, favorável/desfavorável.
- A natureza automática, inconsciente e não reflexa dessa operação de clivagem, que governa desde as reações cotidianas até as grandes decisões existenciais.
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A fundamentação do clivagem afetivo nos desejos e necessidades do vivente
- A aparente base do triagem automático na existência de desejos e necessidades, cuja satisfação ou frustração define o favorável e o desfavorável.
- A interrogação sobre a justificação e as condições de possibilidade da presença desses desejos e necessidades.
- A distinção entre desejos contingentes, culturalmente elaborados, e os "desejos naturais e necessários" no sentido de Epicuro, ligados à sobrevivência.
- A definição do "bom" como aquilo que permite a sobrevivência e a afirmação do ser, e do "mau" como aquilo que conduz à sua destruição.
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A necessidade de questionar a pseudo-evidência do imperativo de sobrevivência
- A constatação de que o vouloir-vivre não é exclusivo do homem, mas consubstancial a toda forma de vida.
- A concepção da vida como realidade encarnada em viventes individuais, e não como entidade impessoal.
- A descrição do vivente como uma estrutura autorreguladora que conseguiu isolar-se temporariamente do continuum físico para constituir uma unidade.
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A constituição monádica do vivente e o amor de si como fundamento
- A cristalização do vivente como um centro monádico que se apropria de um espaço fechado: o corpo próprio.
- A implicação da distinção entre um interior e um exterior, e, consequentemente, entre um Eu e um não-Eu.
- A tese de que a unidade do vivente não deriva da coesão mecânica de seus tecidos, mas do esforço por perseverar no ser.
- A definição da forma primária da autoconsciência como um amor de si irrefletido, incondicional e ilimitado, que prefere tacitamente a si mesmo ao resto do universo.
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A função da sensibilidade e dos sentidos ao serviço da autoconservação
- A compreensão dos sentidos como instrumentos de informação que supõem um querer ser informado por parte do vivente.
- A especialização dos sentidos à distância, como a visão, para produzir imagens cerebrais fiéis que permitam discernir preventivamente os caminhos bons e os perigosos.
- A complementaridade necessária entre a capacidade cognitiva de discernimento à distância e uma sensibilidade de contato, diretamente afetiva, representada pelo tato.
- A descrição da sensibilidade de contato como um dispositivo de urgência para interpretar o caráter favorável ou nocivo das influências físicas no momento do contato.
- A função intuitiva do prazer em confirmar ao vivente que trabalha para sua conservação.
- A função alarmante da dor, que faz o vivente alucinar sua própria morte através da ruptura sentida de sua unidade monádica interior.
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A projeção de sentido pelo vivente e a assimetria constitutiva do tempo
- A tese de que o vivente, como ser sensível, projeta sentido em um ambiente que em si mesmo não o possui, com base na assimetria do prazer e do desprazer.
- A definição de sentido como orientação e assimetria, contrastando com a isotropia da natureza física.
- A crítica à aparente evidência do sentido objetivo do tempo, mostrando sua dependência de uma intuição a priori do escoamento temporal.
- O objetivo de apreender a temporalidade originária, o tempo em estado nascente, anterior às medidas objetivas.
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A experiência de pensamento de uma consciência sem desejo e sua relação com o tempo
- A hipótese de seres inteligentes cujo comportamento não fosse regido pela lei do agradável e do desagradável, vivendo em um estado de indiferença.
- A dificuldade de representar tal estado, com aproximações baseadas em momentos de repouso e ausência de solicitações.
- A argumentação inicial de que mesmo uma consciência indiferente permaneceria no tempo através da percepção de mudanças objetivas no mundo ou em si mesma.
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A impossibilidade da atenção e da consciência do tempo sem interesse
- A refutação da possibilidade de uma consciência do tempo baseada na mera observação neutra, dado que a atenção é inerentemente seletiva e motivada por interesse.
- A afirmação de que nenhum ato de atenção é gratuito, sendo sempre guiado por um interesse, direto ou indireto, positivo ou negativo.
- A conclusão de que uma consciência destituída da dicotomia afetiva seria também destituída de atenção e, portanto, de motivo para segregar e comparar elementos da experiência.
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A descrição do modo de presença no mundo de uma consciência não desejante
- A caracterização dessa consciência como não estando distraída, mas sim em um modo de presença radicalmente diferente, contemplando cada instante como uma Grande Singularidade.
- A ausência de qualquer comportamento de reter ou antecipar objetos, por falta de apego positivo ou negativo.
- A conclusão de que, sem olhar para trás ou para frente, tal consciência não poderia estar no tempo.
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A impossibilidade de notar mudanças e estabelecer sucessão sem um motivo pragmático
- A refutação da ideia de que uma consciência poderia notar mudanças de modo neutro, como um aparelho de gravação.
- A argumentação de que o simples gesto de notar pressupõe um motivo, mesmo que mínimo.
- A tese de que, sem interesse pragmático pela identidade e diferença, os objetos A e B não poderiam ser percebidos nem como idênticos, nem como diferentes, nem, portanto, como sucessivos.
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A sucessividade como projeção de uma insatisfação essencial da consciência
- A síntese de que a sucessividade não é uma simples dada, mas a projeção externa de uma insatisfação que habita a consciência.
- A crítica ao termo "insatisfação" em seu sentido psicológico, que pressupõe um futuro já constituído.
- A inversão conceitual: a dimensão fantasmática do futuro é um reflexo da insatisfação primária da consciência, baseada na dicotomia irracional do bom e do mau.
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A geração da assimetria temporal a partir da preferência afetiva
- A explicação da assimetria do tempo a partir do ato de imaginar um "melhor" que, ipso facto, recusa e constitui o presente como passado.
- A tese de que o futuro e o passado não são quadros prontos, mas resultam da assimetria irredutível da preferência afetiva.
- A identificação da preferência afetiva, para além de qualquer "porquê", como a ponta de flecha do tempo e a mais original quebra de simetria.