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id da página: 10084 Michel Hulin – A Mística Selvagem – Sofrimento e Temporalidade Michel Hulin

Hulin Sofrimento Temporalidade

Michel Hulin – A Mística Selvagem


HULIN, Michel. La mystique sauvage: aux antipodes de l’esprit. Paris: Presses universitaires de France, 2008

  • A natureza paradoxal da experiência humana: a ligação intrínseca entre o agradável e o desagrável

    • A observação de Sócrates no Fédon sobre a estranha relação de concomitância entre o prazeroso e o penoso, como se estivessem ligados a um único ponto.
    • A opacidade do desagradável como foco necessário de investigação, em contraste com a aparente autoevidência do agradável.
    • A opção metodológica de abordar a forma mais elementar e autêntica do desagradável: a dor física, deixando de lado temporariamente a dimensão psíquica ou moral.
  • A inadequação da dor como sensação representativa

    • A crítica à assimilação da dor a uma sensação qualitativa como as cores ou os sons, comum na psicologia empírica e na neurofisiologia.
    • A monotonia da dor, que varia apenas em intensidade e ritmo, contrastando com a diversidade qualitativa das sensações propriamente ditas.
    • O caráter parasitário da dor, que se superpõe a qualidades sensíveis diversas, como pressões ou temperaturas, mascarando sua natureza uniforme.
    • A impossibilidade de reduzir a dor a uma mera exageração de sensações táteis, dada a convergência e unificação dos registros sensoriais durante sua intensificação.
  • A dor como experiência de recusa e corpo a corpo

    • A definição da dor como um recuo interior, um "não" dito a uma sensação invasora e hostil.
    • A distinção entre os reflexos defensivos eficazes, que não são dolorosos, e a dor como um corpo a corpo estático com um invasor que não se pode repelir nem destruir.
    • A ambiguidade constitutiva do verbo "sofrer", que significa tanto "subir passivamente" quanto "suportar" ou "endurar".
    • A delimitação conceitual entre o puro ser-esmagado de um objeto inanimado e a forma ideal de suportar, que anularia a sensação de peso.
  • A dualidade neurofenomenológica da dor: elemento sensorial e elemento aversivo

    • A evidência neurocientífica da distinção, fornecida pelos casos de "assimbolia à dor".
    • A descrição do fenômeno em pacientes com lesões específicas, que percebem o estímulo doloroso sem reagir com aversão ou reflexos de evitamento.
    • A localização neurológica distinta para a componente sensorial discriminativa e para a componente afetiva e motivacional da dor.
  • A circularidade aparente na motivação da recusa da dor

    • O problema de fundamentar a recusa da dor em seu caráter intrinsecamente doloroso, após tê-la definido como aquilo que provoca recusa.
    • A constatação de que a recusa do doloroso não possui a estrutura intelectual de um juízo.
    • A compreensão da percepção do doloroso como odioso e o ato de recusá-lo como as faces representativa e ativa de um único e mesmo comportamento.
  • A universalidade e espontaneidade do comportamento de clivagem entre o favorável e o desfavorável

    • A caracterização do comportamento como universal na humanidade e comum aos animais superiores, independente de fatores culturais ou intelectuais.
    • A definição do comportamento como um clivagem originária da experiência em positivo/negativo, bom/mau, favorável/desfavorável.
    • A natureza automática, inconsciente e não reflexa dessa operação de clivagem, que governa desde as reações cotidianas até as grandes decisões existenciais.
  • A fundamentação do clivagem afetivo nos desejos e necessidades do vivente

    • A aparente base do triagem automático na existência de desejos e necessidades, cuja satisfação ou frustração define o favorável e o desfavorável.
    • A interrogação sobre a justificação e as condições de possibilidade da presença desses desejos e necessidades.
    • A distinção entre desejos contingentes, culturalmente elaborados, e os "desejos naturais e necessários" no sentido de Epicuro, ligados à sobrevivência.
    • A definição do "bom" como aquilo que permite a sobrevivência e a afirmação do ser, e do "mau" como aquilo que conduz à sua destruição.
  • A necessidade de questionar a pseudo-evidência do imperativo de sobrevivência

    • A constatação de que o vouloir-vivre não é exclusivo do homem, mas consubstancial a toda forma de vida.
    • A concepção da vida como realidade encarnada em viventes individuais, e não como entidade impessoal.
    • A descrição do vivente como uma estrutura autorreguladora que conseguiu isolar-se temporariamente do continuum físico para constituir uma unidade.
  • A constituição monádica do vivente e o amor de si como fundamento

    • A cristalização do vivente como um centro monádico que se apropria de um espaço fechado: o corpo próprio.
    • A implicação da distinção entre um interior e um exterior, e, consequentemente, entre um Eu e um não-Eu.
    • A tese de que a unidade do vivente não deriva da coesão mecânica de seus tecidos, mas do esforço por perseverar no ser.
    • A definição da forma primária da autoconsciência como um amor de si irrefletido, incondicional e ilimitado, que prefere tacitamente a si mesmo ao resto do universo.
  • A função da sensibilidade e dos sentidos ao serviço da autoconservação

    • A compreensão dos sentidos como instrumentos de informação que supõem um querer ser informado por parte do vivente.
    • A especialização dos sentidos à distância, como a visão, para produzir imagens cerebrais fiéis que permitam discernir preventivamente os caminhos bons e os perigosos.
    • A complementaridade necessária entre a capacidade cognitiva de discernimento à distância e uma sensibilidade de contato, diretamente afetiva, representada pelo tato.
    • A descrição da sensibilidade de contato como um dispositivo de urgência para interpretar o caráter favorável ou nocivo das influências físicas no momento do contato.
    • A função intuitiva do prazer em confirmar ao vivente que trabalha para sua conservação.
    • A função alarmante da dor, que faz o vivente alucinar sua própria morte através da ruptura sentida de sua unidade monádica interior.
  • A projeção de sentido pelo vivente e a assimetria constitutiva do tempo

    • A tese de que o vivente, como ser sensível, projeta sentido em um ambiente que em si mesmo não o possui, com base na assimetria do prazer e do desprazer.
    • A definição de sentido como orientação e assimetria, contrastando com a isotropia da natureza física.
    • A crítica à aparente evidência do sentido objetivo do tempo, mostrando sua dependência de uma intuição a priori do escoamento temporal.
    • O objetivo de apreender a temporalidade originária, o tempo em estado nascente, anterior às medidas objetivas.
  • A experiência de pensamento de uma consciência sem desejo e sua relação com o tempo

    • A hipótese de seres inteligentes cujo comportamento não fosse regido pela lei do agradável e do desagradável, vivendo em um estado de indiferença.
    • A dificuldade de representar tal estado, com aproximações baseadas em momentos de repouso e ausência de solicitações.
    • A argumentação inicial de que mesmo uma consciência indiferente permaneceria no tempo através da percepção de mudanças objetivas no mundo ou em si mesma.
  • A impossibilidade da atenção e da consciência do tempo sem interesse

    • A refutação da possibilidade de uma consciência do tempo baseada na mera observação neutra, dado que a atenção é inerentemente seletiva e motivada por interesse.
    • A afirmação de que nenhum ato de atenção é gratuito, sendo sempre guiado por um interesse, direto ou indireto, positivo ou negativo.
    • A conclusão de que uma consciência destituída da dicotomia afetiva seria também destituída de atenção e, portanto, de motivo para segregar e comparar elementos da experiência.
  • A descrição do modo de presença no mundo de uma consciência não desejante

    • A caracterização dessa consciência como não estando distraída, mas sim em um modo de presença radicalmente diferente, contemplando cada instante como uma Grande Singularidade.
    • A ausência de qualquer comportamento de reter ou antecipar objetos, por falta de apego positivo ou negativo.
    • A conclusão de que, sem olhar para trás ou para frente, tal consciência não poderia estar no tempo.
  • A impossibilidade de notar mudanças e estabelecer sucessão sem um motivo pragmático

    • A refutação da ideia de que uma consciência poderia notar mudanças de modo neutro, como um aparelho de gravação.
    • A argumentação de que o simples gesto de notar pressupõe um motivo, mesmo que mínimo.
    • A tese de que, sem interesse pragmático pela identidade e diferença, os objetos A e B não poderiam ser percebidos nem como idênticos, nem como diferentes, nem, portanto, como sucessivos.
  • A sucessividade como projeção de uma insatisfação essencial da consciência

    • A síntese de que a sucessividade não é uma simples dada, mas a projeção externa de uma insatisfação que habita a consciência.
    • A crítica ao termo "insatisfação" em seu sentido psicológico, que pressupõe um futuro já constituído.
    • A inversão conceitual: a dimensão fantasmática do futuro é um reflexo da insatisfação primária da consciência, baseada na dicotomia irracional do bom e do mau.
  • A geração da assimetria temporal a partir da preferência afetiva

    • A explicação da assimetria do tempo a partir do ato de imaginar um "melhor" que, ipso facto, recusa e constitui o presente como passado.
    • A tese de que o futuro e o passado não são quadros prontos, mas resultam da assimetria irredutível da preferência afetiva.
    • A identificação da preferência afetiva, para além de qualquer "porquê", como a ponta de flecha do tempo e a mais original quebra de simetria.