VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS; MOISÉS; VIDA DE MOISÉS
A SABEDORIA DA LIDERANÇA NO VERBO DE AARÃO
A Misericórdia criativa é, mais uma vez, um assunto para discussão aqui. Ibn Arabi diz que a Profecia de Aarão derivou da Misericórdia divina, que ele prossegue ligando à mãe tanto de Moisés quanto de Aarão, uma vez que a maternidade é mais representativa da Misericórdia criativa do que a paternidade, que representa, antes, a Misericórdia mais irada e obrigatória. Anteriormente na obra ele relaciona o conceito de maternidade à Natureza e o de paternidade ao Espírito. Assim, a infinita Misericórdia do devir cósmico em toda a sua luxuriante multiplicidade e complexidade de formas é concebida em termos maternos e femininos, a própria palavra rahmah [Misericórdia] estando intimamente relacionada com a palavra rahim [útero], enquanto a Misericórdia absoluta da reintegração espiritual em toda a sua rigorosa simplicidade de princípio é concebida em termos paternos e masculinos. Como é apenas natural, no entanto, no contexto de uma tradição patriarcal, o macho domina a fêmea, o Espírito governa sobre a Natureza, e a Realidade como «Deus» tem precedência sobre a Realidade como Cosmo.
O próximo tópico principal deste capítulo é o da sujeição, do Cosmo ao homem, do homem a Deus, e do animal no homem ao espírito no homem. Depois de apontar que semelhantes não podem ser sujeitos uns aos outros, que um homem, como ser humano, não pode ser sujeito a outro homem, como humano, ele prossegue distinguindo entre a sujeição por força de vontade e a sujeição por circunstância. Assim, o homem como servidor é sujeito à vontade de seu Senhor, enquanto o homem como parte do Cosmo é circunstancialmente sujeito a Deus. Da mesma forma, como no caso da manutenção e da causalidade, aquilo que é sujeito pode também se dizer, em um certo sentido, que sujeita seu sujeitador. Assim, Deus, em Seu papel criativo e governante, é, por assim dizer, responsável e, portanto, sujeito à necessidade e à dependência de Sua criação, assim como, em Seu conhecimento de Si mesmo, quer como Essência ou como Cosmo, Ele é sujeito ao que as essências latentes Lhe dão a conhecer de Si mesmo.
Agora se chega ao que é, talvez, um dos conceitos mais ousados e profundos de Ibn al-Arabi, o da paixão divina [hawa]. Esta palavra é geralmente usada para denotar paixão cega, impulso, capricho, encantamento e desejo do tipo mais terreno. Olhando mais de perto, no entanto, para os vários significados da raiz árabe, se percebe quão sutil é o conceito que aqui é apresentado. Entre os significados da raiz hawa estão cair de cabeça, morrer, ser largo e profundo, vento, ar, soprar, espaço e abismo. Todo o sentido, portanto, da palavra, como pretendido aqui, é o de espontaneamente apaixonar-se, atirando-se, como uma rajada de vento, para a profunda vacuidade do abismo. Essa experiência é, diz Ibn Arabi, universal e necessária a toda a noção de adoração, uma vez que sem esse impulso desesperado do todo de integrar sua parte e da parte de se fundir com o todo, não haveria amor, adoração ou afirmação, cuja consumação está na Unidade do Ser.
Para Ibn Arabi, este conceito está, sem dúvida, relacionado ao seu conceito de Amor divino [mahabbah], que é ele mesmo uma outra maneira de descrever o Sopro do Misericordioso, que age em resposta ao anseio interior divino de autoconsciência e, assim, produz a irradiação "soprando" e de saída do Espírito em seu desejo urgente [hawa] de informar e animar o abismo que tudo recebe da matriz de todo devir. Em outras palavras, apaixonado amor-adoração que impele o homem a afirmar o real e o eterno em seu objeto de adoração não é nada além de um reflexo do desejo divino da Realidade onipresente de Se conhecer como Objeto e, tendo Se conhecido, de Se amar até o ponto da reconsumação, uma vez que o adorador, que é essencialmente nada além d'Ele, está apenas adorando o que também não é nada além d'Ele. Ibn Arabi não poderia ter escolhido uma palavra mais adequada, combinando como ela faz a noção de conteúdo ativo e a de recipiente que recebe, uma vez que cada objeto de amor ou de adoração é, em um sentido, um abismo que assimila, e cada adorador ou amante é "aquele-que-se-atira-de-ponta-cabeça", quer seja o Sopro da Misericórdia divina liberando o tesouro de suas essências no abismo da existência cósmica, quer seja o adorador humano derramando seu coração para sua divindade.
Ibn Arabi conclui este capítulo afirmando algo muito importante, tanto para sua própria posição no Islã quanto para a integridade de qualquer tradição mística. Ou seja, que todo verdadeiro gnóstico, enquanto interiormente consciente da universalidade irrestrita da verdade, conforme expressa tão frequentemente nesta obra, e da onipresença da Realidade em todas as coisas, no entanto, se conforma exteriormente às formulações doutrinárias e às práticas rituais daquela dispensação religiosa à qual seu destino o tornou sujeito pelo tempo e lugar de seu nascimento e vida. Em outras palavras, sua gnose, se ela é verdadeira, revela-lhe não apenas a totalidade não diferenciada da Unidade do Ser fundamental a todo ser e experiência de ser, mas também que a distinção, a diferenciação, a tensão e a alteridade são um aspecto inescapável dessa totalidade que em certos níveis requer seu devido reconhecimento e conformidade.