VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS
A SABEDORIA DO SUBLIME NO VERBO DE ISMAEL
O principal tópico deste capítulo é a relação entre o servidor e o Senhor, que representa a particularização da relação universal, discutida anteriormente, entre Deus e o Cosmo. Mais uma vez, assim como com o termo «Deus», o termo «Senhor», na visão de Ibn Arabi, tem significado apenas no contexto de sua relação com o conceito de servidor. Ou seja, não pode haver senhorio ou domínio sem servidão. Assim, como foi explicado na Introdução, essa relação denota a polaridade do servidor, como a coisa particular, individual criada e existente, e o Senhor, como o aspecto particular de Deus que cria e determina o destino dessa coisa de acordo com sua realidade latente e essencial em Deus. O que se segue disso é mais uma das declarações de Ibn Arabi que instila horror na mente da elite religiosa. Ele diz que, porque cada ser criado é e não pode ser outro senão o que seu Senhor determina, conforme informado por sua própria predisposição eterna, cada coisa deve, portanto, necessariamente ser, como o Corão diz, «agradável ao seu Senhor», independentemente de essa aprovação ontológica parecer, à visão inexperiente, como louvor ou censura, recompensa ou punição. O Senhor não pode deixar de aprovar o que Ele quis que fosse, nem o servidor, na realidade, pode desaprovar o Senhor que, com efeito, o determina apenas de acordo com o que ele mesmo inevitavelmente é em essência.
Ibn Arabi prossegue apontando que o senhorio é um conceito que deriva do conceito dos Nomes divinos, que, como vimos, denotam a complexidade e a multiplicidade infinitas de relações particulares como aspectos da relação universal que é qualificada pelo Nome universal, Deus. Mais uma vez, a Tradição do Profeta é citada, «Quem se conhece a si mesmo, conhece seu Senhor», que é aqui interpretada à luz de sua visão da relação. Ou seja, «Quem se conhece a si mesmo como ele é em divinis, conhece seu Senhor particular como agente de sua própria libertação para a existência.»
Aqui, novamente, Ibn Arabi procura deixar clara a distinção entre o termo «Deus», que implica polaridade e relação, assim como dualidade, triplicidade e multiplicidade, e o termo «Essência», que denota o Um em Si mesmo, Sozinho e totalmente único, além da necessidade de qualquer alteridade polarizadora, não importa quão contingente. Assim, as noções de Deus e Senhor não estão relacionadas à de Essência divina.
No final deste capítulo, Ibn Arabi, tendo enfatizado a reciprocidade dos termos servidor e Senhor e a unidade essencial de todos os Nomes divinos, busca também corrigir qualquer equívoco no leitor de que o princípio de distinção e diferença entre conceitos e as realidades que eles denotam é redundante ou sem importância. Sempre se esforçando para uma visão tão inteira e equilibrada quanto possível, ele está aqui sustentando que uma visão inteira e completa da Realidade, de como as coisas realmente são, exige que tanto a verdade da unidade da universalidade quanto a verdade da unidade da singularidade e da unicidade sejam apreendidas juntas em síntese, cada uma corrigindo e compensando a outra como aspectos necessários da auto-experiência da Realidade. Assim, embora de um ponto de vista o servidor seja o Senhor seja Deus seja nada além da Realidade, do outro ponto de vista o servidor não é o Senhor não é Deus não é a Realidade, no sentido de que cada um, enquanto interior e essencialmente em um estado de inexorável identidade com todos os outros, no entanto, reserva para si, de forma válida e legítima no contexto da Realidade, suas próprias características especiais e peculiares. É para o gnóstico, portanto, como servidor, reconhecer não apenas sua identidade eterna com Deus, como essência latente, mas também que ele não é e nunca pode ser Deus como tal; que cabe a ele adorar e a Deus ser adorado, qualquer que seja seu grau de realização ou gnose.
Concluindo o capítulo, Ibn Arabi explica que, de acordo com a declaração corânica de que a misericórdia divina é mais forte do que a ira divina, a noção de punição no Inferno, que significa uma terrível separação de Deus, não pode, em última análise, ser mais do que uma consequência secundária da ignorância, uma vez que todos os seres existentes, em última análise e finalmente, compartilham da misericórdia da realidade essencial n'Ele.