VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS
A SABEDORIA DA ABERTURA NO VERBO DE SALIH
Dois assuntos são tratados neste capítulo bastante curto. O primeiro é o conceito de triplicidade, que Ibn Arabi vê como a base do processo criativo. O segundo diz respeito a certos símbolos associados à salvação e à danação no Último Dia.
Neste capítulo, Ibn Arabi retorna ao assunto do número, estando aqui preocupado não com a relação entre a unidade e a multiplicidade, mas sim com o processo pelo qual a unidade singular se projeta no múltiplo, de modo que o múltiplo possa existir como a diversificação infinita do Um. A unidade por si só não é criativa, mas suficiente para si mesma, não exigindo nada além de si mesma para preservar sua integridade absoluta. O Um simplesmente é, não havendo n'Ele nenhuma implicação de devir ou de desenvolvimento. Do mesmo modo com a dualidade, a menos que haja uma relação de trabalho entre as duas entidades, há meramente dois singulares em isolamento estéril e contraditório um do outro. Se há uma relação, é o princípio de conexão que relaciona as duas entidades, unindo suas qualidades separadas para formar uma terceira entidade, nascida, por assim dizer, de sua união. Dito de outra forma, esta é a familiar triplicidade de conhecedor-conhecimento-conhecido em que o termo «conhecimento» como relação une a objetividade receptiva do conhecido e a subjetividade ativa do conhecedor para produzir o princípio do próprio conhecimento. Embora não seja especificamente declarado aqui, é o próprio homem que é precisamente a terceira entidade e a entidade de relação na dualidade Deus-Cosmo, sendo ao mesmo tempo o ponto de encontro do Céu e da Terra e também a entidade que simboliza sua união, potencialmente.
Neste capítulo, Ibn Arabi descreve o conceito de triplicidade de forma um tanto diferente. Com efeito, como se pode esperar, ele descreve uma triplicidade dupla ou bipolar que, do lado do polo divino, consiste na própria Essência singular, na Vontade ou no impulso à auto-alteração, e no comando criativo verbal «Seja!». Do lado do polo cósmico, a triplicidade consiste na essência latente, na «audição» ou na prontidão para ser criada, e na vinda à existência em obediência ao comando criativo. Aqui a primeira triplicidade é espelhada pela última, juntas formando a triplicidade completa da própria Realidade, que consiste na Unidade Essencial, no impulso à polaridade e na experiência real da bipolaridade, que ela mesma está eternamente sendo resolvida de volta à Essência. Mais uma vez, ele está descrevendo em termos de triplicidade o processo in divinis que ele descreveu em outros lugares em termos do Sopro do Misericordioso, da Imaginação Criativa, do Espelho e da relação Luz-sombra. Em tudo isso, a dificuldade de expressão adequada oculta o que é realmente uma tentativa de descrever uma bipolaridade dentro de uma bipolaridade maior. Ou seja, a bipolaridade criativa que cria a «alteridade» necessária para a autorrealização da possibilidade infinita eternamente inerente na unidade absoluta é ela mesma, por assim dizer, um polo da polaridade Unidade Essencial-bipolaridade, ambos os elementos da qual se relacionam e se unem para constituir a Realidade em Si mesma. Ibn Arabi retorna a este tema no último capítulo desta obra.
Ibn Arabi conclui este capítulo com uma discussão sobre a manifestação do interior no exterior, ilustrando isso a partir da descrição corânica dos efeitos sobre os justos e os pecadores da promessa do Paraíso e da ameaça do Inferno. Ele busca ligar esta seção à primeira, apontando que esses efeitos ocorrem em três estágios. No final do capítulo, ele lembra o leitor, mais uma vez, que a manifestação exterior da existência cósmica do homem deriva apenas de sua própria determinação interior e essencialmente predisposta.