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id da página: 8718 IBN ARABI – ENGASTES DE SABEDORIA – NO VERBO DE SALOMÃO Ibn Arabi

Ibn Arabi Fusus Salomon


VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS

A SABEDORIA DA COMPAIXÃO NO VERBO DE SALOMÃO

Mais uma vez, neste capítulo, Ibn Arabi retorna a um de seus assuntos favoritos, o da Misericórdia divina. Em termos gerais, quando ele fala da Misericórdia divina, ele quer dizer a Misericórdia criativa que generosamente e infinitamente concede existência às essências latentes em resposta ao desejo de autoconsciência divina. Aqui, no entanto, ele aponta que a Misericórdia é implícita não apenas no ato da criação cósmica, mas também na reversão aniquiladora desse ato, que restauraria todo o ser somente a Deus. A primeira Misericórdia dirige a atenção [himmah] de Deus para a criação e a manutenção de Sua imagem cósmica, enquanto a segunda Misericórdia refoca toda essa atenção sobre Ele mesmo, sozinho, em Sua unicidade e autossuficiência perfeitas. Pela primeira Ele dá livremente de Seu poder e consciência em resposta ao impulso das essências latentes para realizar na existência o que elas estão eternamente predispostas a se tornar. Pela segunda Ele obriga rigorosamente o Cosmo a reconhecer que, em si mesmo, ele não é nada além d'Ele e a ceder seu ser de volta às suas fontes n'Ele. Assim, o segundo tipo de Misericórdia é essencialmente sinônimo da Ira divina, enquanto o primeiro é essencialmente o mesmo que o Bom Prazer divino. É irada no sentido de que ela busca aniquilar a existência das criaturas e infligir-lhes a dor de ser, afinal, «nada digno de menção».

De outro ponto de vista, a primeira Misericórdia está relacionada ao conceito da Vontade divina, enquanto a segunda está relacionada ao Desejo divino, a primeira estando preocupada puramente com o devir existencial, enquanto a segunda busca encorajar o re-acordar do sonho da existência cósmica para uma consciência mais clara de Seu único direito de ser. No entanto, em sintonia com o Corão [VII:156] e a Tradição, Ibn Arabi aponta que a segunda Misericórdia está contida dentro e subordinada à primeira, confirmando assim a continuidade da polaridade Deus-Cosmo, mas apenas no contexto da Unidade da Realidade, uma vez que o Cosmo não é senão Sua forma.

O outro assunto principal discutido aqui é o do domínio ou da maestria. Já se viu que cada profeta é visto como um canal particular para a transmissão do Espírito divino, que inicia, anima e determina. Assim, assim como Jesus foi favorecido com o poder espiritual de reviver, também Salomão foi favorecido com o poder espiritual de efetuar mudanças na maneira como as coisas físicas e elementares se comportavam, além da usual revelação verbal. Muitos dos profetas, portanto, transmitem não apenas a Palavra de Deus como usualmente entendida, mas também algum outro aspecto ou modo do poder criativo e determinante do Espírito. No caso de Salomão, Ibn Arabi está dizendo que ele recebeu, sem a necessidade de disciplinas especiais, e particularmente para si mesmo, o poder de dominar e dirigir formas físicas e elementares.

O outro assunto importante tratado neste capítulo é o do conceito de criação de instante a instante.