Skip to main content

Irina Tweedie

TWEEDIE, Irina. Daughter of fire: a diary of a spiritual training with a Sufi master. The complete unabridged ed ed. Princeton, NJ: Recording for the Blind & Dyslexic, 2008.

ESTE LIVRO É UM RELATO do treinamento espiritual segundo a antiga tradição iogue.

"Mantém um diário", disse meu Mestre, "um dia ele se tornará um livro.

Mas há de escrevê-lo de tal modo que possa auxiliar outros.

As pessoas dizem que tais coisas aconteceram milhares de anos atrás — lê-se em livros a respeito. Este livro será uma prova de que tais coisas realmente acontecem hoje, como aconteceram ontem e acontecerão amanhã — para as pessoas certas, no tempo certo e no lugar certo.

Conservei a forma de diário. Julgou-se que ela transmite melhor a imediaticidade da experiência, e pela mesma razão emprega-se ao longo de todo o texto a primeira pessoa do singular: sucedeu comigo, estou envolvido nisso dia após dia.

Quando se tentou escrevê-lo de maneira impessoal, mais como um relato, percebeu-se que ele perdia seu impacto.

O primeiro rascunho do manuscrito foi iniciado em setembro de 1971, em Tongue, Sutherland, Escócia, quase dez anos após haver encontrado meu Venerado Mestre. Não se podia enfrentá-lo antes, nem sequer olhar as anotações. Era como pânico; temia-o. Sofrimento demais está envolvido nele; está escrito com o sangue de meu coração. O lento desgaste da personalidade é um processo doloroso.

O ser humano não pode refazer-se sem sofrimento. Pois ele é tanto o mármore quanto o escultor. – Alexis Carrell, O Homem, Esse Desconhecido

O sofrimento possui uma qualidade redentora. A dor e a repetição são agentes fixadores.

O leitor achará este texto muito repetitivo. Naturalmente. Pois é a história de um ensinamento. E ensinamento é repetição constante. O discípulo há de aprender a lição repetidas vezes para poder dominá-la, e o mestre deve repetir a lição, apresentá-la sob outra luz, às vezes em forma distinta, para que o discípulo compreenda e recorde. Cada situação é repetida muitas vezes, mas cada vez desencadeia uma reação psicológica ligeiramente diferente, conduzindo à experiência seguinte, e assim por diante.

Esperava receber instruções sobre Yoga, aguardava ensinamentos maravilhosos, mas o que o Mestre fez foi principalmente forçar-me a enfrentar a escuridão dentro de mim, e isso quase me matou.

Em outras palavras, ele fez-me descer ao inferno, o drama cósmico encenado em toda alma assim que ousa levantar o rosto para a Luz.

Fê-lo de modo muito simples, empregando admoestação violenta e até agressão. Minha mente foi mantida em estado de confusão a ponto de ser desligada. Fui abatido em todos os sentidos até ter de chegar a termos com aquilo em mim que rejeitara por toda a vida. É surpreendente como o método clássico de treinamento, elaborado talvez há milhares de anos, é semelhante às técnicas psicológicas modernas; até a análise de sonhos tem seu lugar nele.

Em algum lugar de uma das Upanishads — não me recordo qual — há uma sentença que resume nossa busca pela espiritualidade: "Se quiser a Verdade tão intensamente quanto um homem que se afoga quer o ar, realizá-la-á num instante."

Mas quem quer a Verdade com tamanha intensidade? É tarefa do Mestre inflamar o coração com a chama inextinguível do anseio, e é seu dever mantê-la ardendo até que se reduza a cinzas. Pois somente um coração que se queimou até esvaziar-se é capaz de amor. Apenas um coração que se tornou inexistente pode ressuscitar, pulsar ao ritmo de uma nova vida.

"... Há de morrer antes que possa viver de novo..."

É meu sincero e ardente desejo que esta obra seja um indicador no Caminho, ao menos para alguns de nós. Pois, como diz um conhecido provérbio: "Somos tanto o Peregrino quanto o Caminho."

Nota: Sempre que o pronome Ele é usado no texto com letra maiúscula, refere-se a Deus e nunca ao Mestre.


Página
Irina Tweedie