HELMINSKI, Kabir Edmund. Living Presence (Revised): The Sufi Path to Mindfulness and the Essential Self. East Rutherford: Penguin Publishing Group, 2017.
A PRÁTICA DA PRESENÇA nos convida a um relacionamento consciente com Deus. A fé, a ação correta, a ética e a justiça social baseiam-se num estado em que o ser humano se lembra de Deus. No entanto, a capacidade de se lembrar de Deus está relacionada com a capacidade de estar desperto, de estar presente. Agir com intenção (niyah), com reflexão (tafakkur), com autocontrole (taqwa) e com beneficência (ihsan) pressupõe um estado de presença consciente.
Este tema está presente em todas as grandes tradições espirituais. Tem muitos nomes — despertar, recolhimento, atenção plena, lembrança, zhikr — e nenhum nome. Este estado de consciência desperta abre-nos ao espanto e à admiração. Acrescenta novas dimensões ao facto de estarmos neste mundo. Para além dessa estreita faixa de consciência que passou a ser aceite como o estado convencional de consciência, existe uma faculdade que é a chave mestra para desbloquear o nosso potencial humano latente.
Encontramos esse estado em todas as tradições onde encontramos verdadeira reverência, uma consciência do sagrado, mas no Islã toda a vida é tornada sagrada. Muitas das práticas do Islã podem ser entendidas como maneiras de exigir e desenvolver a presença: realizar abluções (wudu), oferecer a oração ritual (salaah), a cortesia (adab) de nossos relacionamentos. Para os fins de nossas reflexões, vamos chamá-la de presença.
Presença significa a qualidade de estar conscientemente aqui. É a ativação de um nível mais elevado de consciência que permite que todas as nossas outras funções humanas — tais como pensamento, sentimento e ação — sejam conhecidas, desenvolvidas e harmonizadas. Presença é a maneira como ocupamos o espaço, bem como a forma como fluímos e nos movemos. Ela molda nossa autoimagem e nosso tom emocional. Ela determina o grau de nosso estado de alerta, abertura e cordialidade. A presença decide se desperdiçamos e dispersamos nossa energia ou se a incorporamos e direcionamos.
A presença é a autoconsciência humana que é o resultado final da evolução da vida neste planeta. A presença humana não é meramente quantitativamente diferente de outras formas de vida; a humanidade representa uma nova forma de vida, de energia espiritual concentrada suficiente para produzir vontade. Com a vontade, o poder da escolha consciente, os seres humanos podem formular intenções, transcender seus instintos e desejos, educar-se e administrar o mundo natural. Infelizmente, os humanos também podem usar esse poder para explorar a natureza e tiranizar outros seres humanos. Essa potência da vontade, que por um lado pode nos conectar à harmonia consciente, também pode nos levar na direção da separação dessa mesma harmonia.