BEAUFRET, Jean; KEARNEY, Richard; O’LEARY, Joseph Stephen (ORGS.). Heidegger et la question de Dieu. Paris: B. Grasset, 1980
Heidegger, o possível e Deus
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A tarefa heideggeriana de superar o esquecimento do ser na metafísica e a implicação para a teologia
- A metafísica como ontoteologia: redução do ser ao ente supremo (Theon) e ao ente mais geral (On)
- A ontologia fundamental como resultado da destruição (Überwindung) da ontoteologia e o renversamento da prioridade do atual sobre o possível
- A hipótese de que a descoberta da dimensão esquecida do possível pode conduzir a uma nova concepção pós-metafísica do ser e, por analogia, de Deus
- A questão de saber se a destruição da ontoteologia pode resultar numa liberação paralela, ainda que distinta, da teologia
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I. A distinção radical entre o pensamento do ser e o pensamento de Deus em Heidegger
- A afirmação heideggeriana da diferença irreconciliável entre o questionamento filosófico do ser e a resposta prévia da fé
- A distinção entre o Deus da fé, transcendente e criador, e o "deus" do sagrado que se manifesta no horizonte fenomenológico do ser
- O "deus" do sagrado como um ente divino no interior do "Geviert" (o quadruplo: terra, céu, divinos, mortais), distinto do Deus totalmente Outro da consciência religiosa
- A citação de Heidegger: "Para aquele para quem a Bíblia é revelação divina e verdade divina, possui já, antes de todo questionamento... a resposta: o ente, se não se trata do próprio Deus, é criado por Deus"
- A possibilidade condicional de participação do homem de fé no questionamento do ser
- A participação "como se" (als ob), exigindo a suspensão da atitude religiosa
- A participação a partir da perspectiva kierkegaardiana do "ou/ou", onde a fé autêntica pressupõe a consciência da possibilidade da incredulidade
- A fé que não se expõe à possibilidade da incredulidade é uma "comodidade" e não crença genuína, correlata à existência inautêntica da "curiosidade, tagarelice, ambiguidade"
- O caráter próprio da teologia como elaboração questionante da experiência de fé cristã, distinta da filosofia
- A teologia parte da Revelação como resposta, enquanto a filosofia permanece no questionamento da verdade que se vela e desvela
- A discontinuitade radical entre os "termini a quibus" (angústia/espanto/cuidado versus salto para a paz) e os "termini ad quos" (ser versus Deus) de cada domínio
- A crítica ao nivelamento promíscuo entre teologia e filosofia e os perigos de redução mútua
- A rejeição da ideia de que a teologia precise ser rejuvenescida ou substituída pela filosofia
- As reduções totalizantes exemplificadas no Tomismo (redução da filosofia ao cristianismo) e no Hegelianismo (redução do cristianismo à filosofia)
- A posição não-teísta, e não antiteísta, da filosofia heideggeriana
- O cuidado de Heidegger em distinguir o logos filosófico de Heráclito do logos teológico de São João
- A filosofia heideggeriana abstém-se de pronunciar-se sobre o "Deus-além-do-ser" da fé, situando-se fora da problemática teológica
- A insuficiência da explicitação do pluralismo heideggeriano face a domínios de experiência irredutíveis à questão do ser, como o religioso, o ético e o político
- A questão da possibilidade de um diálogo analógico entre o pensamento ontológico pós-metafísico e o pensamento teológico
- A concessão de Heidegger sobre uma relação de analogia proporcional, não direta, entre os dois pensamentos
- As três vias principais de aplicação da analogia: hermenêutica descontrutiva, descrição existential da experiência crente, e meditação pós-metafísica de Deus como Deus
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II. O sentido ontológico do possível em Heidegger: da analítica existencial ao ser como possibilitação
- O renversamento da prioridade metafísica do atual sobre o possível como passo fundamental para a ontologia fundamental
- A crítica à tradição metafísica que reduz o ser à subsistência permanente (Eidos, Ousia, Substantia, Vorhandenheit), privilegiando o ato (entelecheia) sobre a potência (dunamis)
- A descoberta de que, fenomenologicamente, o possível é superior ao atual
- A articulação triádica do possível em "Ser e Tempo"
- Possibilidade (Möglichkeit) como horizonte mundano de sentido para a projeção do Dasein, dividindo-se em autênticas (as mais próprias) e inautênticas (ônticas, lógicas, factícias)
- Potentialidade-de-ser (Seinkönnen) como capacidade do Dasein de ser suas próprias possibilidades projetadas, aplicável somente ao homem
- Possibilitação (Ermöglichen) como evento originário que torna possível toda possibilidade e potentialidade, identificado com "a força tranquila do possível"
- A ambiguidade inicial sobre a fonte da possibilitação: o Dasein ou o ser mesmo
- A progressiva identificação da possibilitação com o "ser em geral" (Sein überhaupt), que possibilita a temporalidade e o ser-do-Dasein
- O aprofundamento do conceito no "tournant" (Kehre) e a reformulação em "Sobre o Humanismo"
- A substituição de "Ermöglichen" por "Vermögen" (poder-ser, possibilitação) e a identificação explícita do ser com o poder de possibilitação
- A citação central: "O ser é, enquanto é o elemento, a 'força tranquila' da possibilitação amante (mögenden Vermögens), isto é, do possível (des Möglichen)"
- A distinção do "Vermögen" heideggeriano da "possibilitas" representada e da "potentia" como essência de um "actus"
- A essência amorosa (mögen) da possibilitação (Vermögen) do ser
- O duplo sentido do amor do ser: o amor do homem pensante pelo ser e o amor do ser pelo homem, que possibilita previamente o pensamento
- O pensamento como a possibilidade mais própria do homem, possibilizada pelo ser para, por sua vez, possibilizar a essência dos entes
- A reciprocidade expressa na frase: "O ser como o possibilitação-possibilitante é o 'possível'... o ser mesmo que, desejando, possibilita o pensamento"
- A culminação na noção de "Ereignis" (Acontecimento Apropriador) em "Tempo e Ser"
- A tradução do "esti gar einai" de Parmênides como Vermögen
- O ser e o tempo só são na apropriação (Ereignis), que apropria o homem ao que lhe é próprio
- O renversamento da prioridade metafísica do atual sobre o possível como passo fundamental para a ontologia fundamental
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III. Para uma teologia do possível: analogias e diferenças fundamentais entre o possível ontológico e o possível teológico
- A aplicação analógica da descoberta do possível a uma teologia pós-metafísica e escatológica, evitando os perigos de "substituição" e "não-envolvimento"
- A desconstrução das "idolas" ontoteológicas de Deus
- A crítica às noções escolásticas de Deus como "Actus Purus", "Ipsum Esse Subsistens", "Causa Sui", que ignoram o divino como sagrado e o Deus da fé
- A citação de Heidegger: "Perante o Deus Causa Sui, o homem não pode rezar nem sacrificar... A pensamento que abandonou o Deus Causa Sui é talvez mais fiel ao Deus verdadeiramente divino"
- O possível kenótico: Pensar Deus como Posse (Pode-Ser) em vez de Esse (É-Ser)
- A proximidade com a noção bíblica de Amor divino como promessa e doação (Kénose), em contraste com o Amor como autossuficiência atualizada
- A resolução da antinomia onto-teológica omnipotência/liberdade: a criação como possibilitação de um mundo a ser realizado pelo homem em diálogo com Deus, e não como realização prévia
- A superação do problema do mal: o Bem como resultado do diálogo com a graça possibilizante; o Mal como fruto da vontade solipsista humana, responsabilizando o homem
- A superação da anomalia do Deus auto-suficiente que não pode amar o outro: o Deus-Posse como vulnerabilidade e abertura ao outro, fiel ao Deus bíblico profético
- A citação de Levinas sobre Deus como "nudez", "fome" e "desamparo"
- A passagem do mundo do indicativo (o que é) para o mundo do condicional (o que poderia ser), expresso nas preces para que "venha a nós o Vosso Reino"
- O possível escatológico: A temporalidade radical de Deus como "Pode-Ser" futuro
- A diferença fundamental entre a alteridade escatológica de Deus (outrem que ser) e a finitude topológica do ser
- O Amor (Mögen) teológico como caridade/kenose de desapropriação, versus o Amor ontológico como cuidado/guarda (wahren) de apropriação (Ereignis)
- A distinção terminológica proposta entre o possível ontológico como "poder-ser" (can-be) e o possível teológico como "pode-ser" (May-Be) condicional e promissivo
- O possível ético: Deus como "Deve-Ser" (Seinsollen)
- A natureza a-moral da ontologia, descritiva e não prescritiva, em contraste com a exigência ética inerente à fé
- A defesa de Heidegger contra as acusações de anti-eticidade ou anticristianismo: a ontologia do sagrado é distinta da teologia da revelação
- A diferença entre a "ausência de Deus" como destino do ser (ontológico) e como falta de fidelidade humana (ético-escatológico)
- A responsabilidade humana pelo advento do Reino, em contraste com a apropriação (Ereignis) do ser como decreto do próprio ser
- A ética como desapropriação: o chamado a ir além do próprio (ontológico) para o Outro (ético), exemplificado no Cristo kenótico que renuncia à igualdade com o Pai
- A citação de Levinas sobre o "Infini que paralisa o poder pela sua resistência infinita ao assassínio... a resistência ética"
- A convergência entre a escatologia teológica e o materialismo utópico (Bloch, Marcuse, Castoriadis) na perspectiva do Posse socioético
- Conclusão: O diálogo analógico entre o pensamento do ser e o pensamento de Deus
- A necessidade de distinguir a "dynamis" ontológica (Kraft, "Es gibt" impessoal) da "Dynamis Theou" evangélica (kerygma pessoal do Espírito)
- O objetivo de clarificar a revelação da fé, protegendo-a dos dogmas rígidos da ontoteologia, sem nada acrescentar-lhe
- A "conjuntura histórica" de crise como oportunidade para repensar, por analogia, o ser como Poder-Ser e Deus como Pode-Ser escatológico
- O "Avento possível" (mögliche Ankunft) do mundo (ontológico) e do Reino (teológico) como horizontes distintos mas contemporâneos
- A prefiguração do advento do ser nas "coisas" (Dinge) que desvelam o mundo, e do advento de Deus nos gestos de amor e justiça (semeia)
- A heterogeneidade radical final: a fé como espera (erwarten) ética e prática do Kairos; o pensamento do ser como acolhimento (warten) descritivo da abertura topológica
- A citação final de Heidegger: "Não nego Deus. Descrevo a sua ausência. A minha filosofia é uma maneira de permanecer aberto ao acolhimento de Deus"