KINGSLEY, Peter. Reality. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 2008
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- A conclusão aparente do ensinamento, que poderia levar a supor que não há mais nada a dizer, é uma ilusão, pois quando todas as buscas e procuras finalmente chegam ao fim, a história apenas começou, estando a decepção prestes a ter início.
- A natureza das marés da realidade, mesmo perfeitamente quieta, que arrasta novamente para o oceano quando se acredita estar a tocar em terra firme, exigindo que se deixe para trás qualquer entendimento seguro e que não haja cantinhos para memória ou segurança, pois só há espaço para o ser.
- O momento crucial em que a deusa, após guiar Parmenides ao coração imóvel da realidade, anuncia que o tempo de confiar nela acabou, e que a partir daí se deve "aprender as opiniões dos mortais, ouvindo a ordenação enganadora das [suas] palavras", ficando-se totalmente sozinho.
- O dilema dos comentadores perante a declaração de que a deusa vai enganar, uma força potente de ilusão e trapaça para os gregos, e as suas tentativas de negar o significado ou de explicar a sua razão, preferindo considerar esta última parte do poema como excêntrica e desinteressante.
- A incapacidade da deusa para acomodar o desejo humano por divisões organizadas, sendo ela a rainha da morte que tudo retira, mas também aquela que, para aqueles que ousam morrer antes de morrer, dá absolutamente tudo em troca, incluindo a ilusão na completude.
- A apresentação da deusa como uma "enganadora honesta", um mestre ou mestra de metis (ardileza), cujo anúncio de que vai enganar é um duplo vínculo perfeito, mais uma das suas voltas sutis na engrenagem das nossas mentes desamparadas.
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- A ambiguidade adicional introduzida pela palavra kosmos, que significa tanto uma "ordenação" ou "obra engenhosa" sedutora como o universo ou ordem cósmica, levando a que se entenda o mundo visível tanto como um ornamento enganosamente bonito como um universo ilusório familiar.
- A mudança necessária de atitude perante uma divindade auto-declarada do engano, com a qual não se pode raciocinar nem confiar, mas que, num nível mais profundo, estará a desenganar-nos ao mostrar como nos enganamos a nós mesmos, oferecendo as verdades mais preciosas para quem as conseguir captar.
- Os sinais prévios de trapaça no poema, desde as Filhas do Sol que usam de astúcia para trazer Parmenides à deusa, até às referências à persuasão, poder notoriamente ambíguo e enganador, e ao fato de todos os "caminhos" serem ilusões.
- A aceitação da impossibilidade e da desamparo como o curso de ação mais sábio, pois o verdadeiro problema é que todas as nossas ideias sobre a verdade são, em si mesmas, uma decepção, e as tentativas de discriminar entre realidade e decepção são o que nos mantém enganados.
- O paradoxo de que, sabendo que já não se pode confiar nela sem reservas, é quando se tem de confiar completamente na deusa — e permitir ser enganado.
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- A sobrevivência de apenas uns poucos vestígios da grande decepção de Parmenides, que são ignorados face ao foco na sua lógica, e a suposição enraizada de que o seu relato do mundo familiar nunca foi mais do que um pensamento de segunda categoria.
- A avaliação de Aristóteles, que considerou a descrição da realidade de Parmenides próxima da loucura, sugerindo que ele terá acrescentado ideias banais no final para não parecer completamente louco, uma avaliação que não poderia ser menos precisa.
- A natureza do mundo evocado por Parmenides, um mundo de beleza angustiante e de contradição, onde tudo é um véu transparente que mascara e revela o seu oposto, descrito com ambiguidades sutis e jogos de palavras.
- O exemplo da descrição da lua como uma "luz estrangeira, noturna, que vagueia pela terra", um verso de uma beleza poética exquisita que também contém um sério indicador de conhecimento prático: que a lua não tem luz própria.
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- A identidade da divindade que rege o universo visível segundo Parmenides: a deusa Afrodite, rainha da beleza, do amor e do encanto, mas também, crucialmente, a suprema deusa do engano e da ilusão.
- A compreensão grega de Afrodite como uma caçadora suprema, perita em prender a sua presa, cujas decepções levam as suas vítimas ao estado de amechania ou "desamparo".
- A ligação entre a descrição de Parmenides dos humanos como atordoados e governados pelo desamparo e a sua descrição de Afrodite como um "timoneiro" que "guia tudo" neste universo enganador, sendo o elo perdido a metis.
- A constatação de que Parmenides retratou Afrodite a criar e estabelecer este mundo ilusório "através de metis", sendo a metis tanto a qualidade que nos falta e nos deixa enganados, como a que permitiu a Afrodite criar o engano em primeiro lugar.
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- A relação entre a deusa do submundo (Perséfone) que ensina a realidade e a deusa da ilusão (Afrodite), sendo a chave para compreender a relação entre as duas metades do poema de Parmenides.
- A percepção de que as duas deusas centrais não são abstrações filosóficas, mas potências reais: Perséfone, rainha dos mortos, e Afrodite, rainha dos vivos, com papéis surpreendentemente semelhantes nos seus respetivos reinos.
- A relação próxima e misteriosa entre Perséfone e Afrodite no sul de Itália, onde o seu culto se fundiu numa divindade dual, Perséfone-Afrodite, combinando características diametralmente opostas.
- A conceção das duas metades do poema como os dois rostos de uma deusa dual: a vida na morte, a morte na vida, sendo a metis a qualidade tecida no tecido do universo que permite ou ser enganado ou aprender a enganar o próprio engano.
- A possibilidade remota de ser retirado da ilusão por um poder misterioso por detrás do amor, maior do que o amor, sendo a deusa escondida que, com uma ternura austera, conduz o iniciado para a realidade, pois por detrás da força que nos arrasta para a ilusão está o poder que nos pode libertar.
- A necessidade de mergulhar de volta na decepção, mas agora com o conhecimento consciente da unidade presente no coração da realidade, usando a metis para navegar através do engano.
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- A razão explícita dada pela deusa para descrever o mundo ilusório: "para que ninguém entre os mortais alguma vez consiga, em julgamento prático, cavalgar à tua frente" (hos ou me pote tis se broton gnomei parelassei).
- A imagem específica e incomum de "cavalgar à frente" (parelassei), que evoca uma corrida de bigas, e a sua ligação a uma cena famosa da Ilíada de Homero que é uma exposição clássica da metis.
- A interpretação de que o conhecimento que a deusa está prestes a dar a Parmenides será um exercício supremo em metis, proveniente da fonte última de toda a metis, para garantir que nenhuma pessoa ilusória com truques ilusórios conseguirá superá-lo ou levantar a melhor sobre ele.
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- A associação da metis com o episódio de Odisseu e Polifemo na Odisseia, onde Odisseu usa o nome Outis ("Ninguém"), levando a um jogo de palavras com ou tis, me tis (formas alternativas para "ninguém") e metis.
- A reprodução sutil deste jogo de palavras por Parmenides, ao usar uma dupla negativa enfática (ou me pote tis) no momento em que introduz o seu comentário sobre ninguém poder superar Parmenides em metis.
- A indiferença suprema de Parmenides em ser explícito ou compreendido, deixando este jogo de palavras quase invisível como a sua assinatura privada para quem fosse capaz de o ler.
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- A ligação inquebrável entre metis e decepção, exemplificada no comentário de Odisseu de que o seu "coração riu do engano total criado pelo [seu] nome e pela [sua] metis impecável".
- A ideia de que, num mundo de enganos, o engano é necessário, e o que importa tanto como dizer a verdade é ser capaz de pregar os melhores truques.
- O papel da "nomeação" como a raiz dos nossos problemas, pois a nossa obsessão em separar coisas e imaginar que as distinções intelectuais são reais é o que nos engana.
- O riso de Parmenides perante a sua própria astúcia verbal, sendo o maior riso de todos pensar que se trata apenas de um jogo de palavras, pois a deusa tem em mente algo infinitamente mais sério: a capacidade de superar qualquer um em metis num sentido vastamente mais significativo.
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- A autoevidência moderna de que a Terra é redonda, contrastando com o mistério do processo da sua descoberta.
- A atribuição da descoberta a Platão, através do mito no Fédon, onde a Terra é descrita como redonda, sendo esta a mais antiga descrição contínua sobrevivente.
- A clarificação de Platão de que as ideias não são sua invenção, mas foram transmitidas por outros, especificamente os povos que conheceu no sul de Itália, frequentemente conhecidos como Pitagóricos.
- A evidência que aponta para Parmenides de Velia, um Focense, como o primeiro filósofo a afirmar que a Terra é redonda, muito antes de Platão.
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- A lentidão na aceitação da teoria da Terra esférica, que foi debatida e ridicularizada durante séculos após Parmenides, mesmo após o cálculo do seu diâmetro com precisão.
- O problema em aceitar que Parmenides, visto como um intelectual puro sem interesse no mundo sensorial, pudesse estar implicado numa descoberta física tão fundamental, sendo descrito como um "acaso estranho da história".
- A explicação conveniente, mas pouco realista, de que a preferência de Parmenides por objetos redondos o levou a um palpite muito feliz.
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- A sobrevivência de outro fragmento de evidência que afirma que Parmenides foi a primeira pessoa a dividir formalmente a Terra em cinco zonas (equatorial quente, dois polos frios e duas regiões temperadas), um conhecimento detalhado que corrobora a teoria da Terra esférica.
- A relação intrínseca entre a teoria das zonas e a teoria da Terra esférica, pois o esquema das zonas só faz sentido pensando num globo.
- A base observacional para ambas as teorias: a familiaridade com condições meteorológicas bem fora do mundo Mediterrânico, particularmente para norte e para sul, onde fenômenos como a alteração das estrelas visíveis e a duração do dia levam à conclusão de que a Terra é uma esfera.
- A ausência total destas implicações na literatura moderna sobre Parmenides.
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- A visão grega geral de limites, simbolizada pelos Pilares de Hércules no Estreito de Gibraltar, para lá dos quais era o reino do mistério e da arrogância.
- A natureza dos Focenses como um povo à parte, que ignorava estes limites, construindo cidades em locais austeros focados no mar, como Massília (Marselha), um trampolim para viagens mais longas.
- O significado do nome "Foceia" como "Cidade das Focas", sendo a foca um símbolo apropriado para um povo anfíbio, à vontade em dois mundos, elusivo, mágico e uma encarnação perfeita da metis e da decepção.
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- As viagens dos Focenses para o Atlântico já no século VII a.C., com detalhes identificáveis a emergir no século VI.
- A viagem de Eutímenes de Massília para sul, ao longo da costa africana, pelo menos até ao Senegal, com observações escrupulosas sobre a dessalinização do oceano e animais como crocodilos e hipopótamos.
- As viagens para norte, com referências a Bretanha, Albion (Inglaterra) e Hierne (Irlanda) em relatos do século VI a.C.
- A figura de Piteas de Massília, considerado o maior explorador grego, que viajou para norte até ao Círculo Polar Ártico, e cujo relato está por detrás do mito no Fédon de Platão, sendo a fonte última da descrição da Terra como uma esfera.
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- O terror que o mar aberto inspirava nos gregos em geral, contrastando com Piteas, que no Atlântico Norte funcionou como um observatório vivo, medindo o céu, a terra, a água e as marés com instrumentos especiais.
- A compreensão de Piteas da ligação entre as marés e as fases da lua, e as suas medições meticulosas das distâncias, do tamanho da Grã-Bretanha e da altura do sol e da duração do dia até às regiões do sol da meia-noite.
- O uso que os maiores astrónomos da Antiguidade, séculos depois, fizeram dos registros de Piteas, guardados na biblioteca de Alexandria, para calcular linhas de latitude com exatidão e mapear o mundo, incluindo o diâmetro da Terra com extraordinária precisão.
- O objetivo das medições de Piteas: demonstrar pormenorizadamente que a Terra é uma esfera.
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- A clara localização das teorias de Parmenides sobre a forma e natureza da Terra no contexto das viagens dos exploradores Focenses, que confirmaram in loco que a Terra é uma esfera.
- A identidade Focense do próprio Parmenides, e os laços extraordinariamente próximos que uniam as colónias Focenses, especialmente entre Velia e Massília.
- A discrepância entre a imagem moderna de Parmenides como um filósofo abstracto e desligado do mundo e a natureza intensamente prática, astuta e mundana dos Focenses, sendo esta discrepância uma criação nossa.
- A injustiça de interpretar mal o seu ensino sobre a realidade como uma negação da experiência e ignorar os vestígios sobre o resto do seu poema, considerando-se os Focenses um povo no exílio.
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- A reação ao conhecimento avançado dos Focenses: Eutímenes foi ridicularizado como contador de histórias e mentiroso durante setecentos anos, e os seus relatos de hipopótamos e água doce no oceano foram denunciados como fantasias absurdas.
- A descrença generalizada nas viagens de Piteas para norte, mesmo por pensadores de mente aberta como Dicearco, da escola de Aristóteles.
- A aporia (caminho sem saída, desamparo) de Eratóstenes, o astrónomo de Alexandria, que, perante as observações de Piteas, se viu "totalmente perdido", querendo acreditar nos factos astronómicos mas achando a história da viagem demasiado incrível, um estado associado a navegadores perdidos no oceano.
- A condenação veemente de Estrabão, o geógrafo mais famoso da época de Cristo, que considerou os relatos de Piteas inacreditáveis, um embuste, uma fraude e um conjunto de mentiras que levou muitos a desviar-se.
- A conclusão de que o conhecimento sobre o cosmos, incluindo a Terra esférica e as suas zonas, que Parmenides incluiu no final do seu poema, cumpria literalmente a promessa da deusa de que ele superaria qualquer um no conhecimento do mundo.
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- A constatação crucial de que, ao apresentar este conhecimento avançado, Parmenides está simultaneamente a dizer-nos que todo ele é uma decepção, sendo notável que alguém na vanguarda do conhecimento do seu tempo o descreva assim.
- A percepção de que se pode realizar os nossos sonhos, fazer grandes descobertas, alcançar tudo e ir para lá do desconhecido, e tudo isso é apenas uma aparência, irreal.
- O papel de Parmenides e de outros como ele em lançar conscientemente as bases da nossa cultura e do nosso mundo, estruturando as formas como pensamos a um nível mais profundo do que temos consciência.
- O aviso, há mais de dois mil anos, para usar a ciência, mas não ser enganado por ela, um aviso que ignorámos como crianças impacientes, orgulhando-nos de diferenciar o verdadeiro do falso sem perceber que até as nossas verdades são falsas, e a nossa ciência é uma mitologia frágil do momento.
- A relevância do fato de a ideia da Terra esférica ser apresentada no Fédon de Platão como um mito, não sendo um acidente, mas porque os amigos de Platão o ensinaram bem.
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- A justificação específica para a sequência do ensino da deusa: primeiro a realidade última na sua completude, depois a ilusão, pois sem a experiência direta da realidade estamos totalmente desamparados e não podemos compreender coisa alguma.
- A rejeição da ideia de que se pode, a partir da confusão, trabalhar gradualmente em direção à verdade, pois não há escadas nem fases para a realidade: ou se está preso na ilusão ou não se está.
- A inutilidade das tentativas de qualificar, quantificar ou categorizar a decepção, pois não há graus relativos de decepção, há apenas decepção, e a melhor de todas é a que se mostra transparente.
- A impossibilidade de compreender a ilusão enquanto se está preso nela, sendo o entendimento da ilusão posterior ao entendimento da realidade, e o conhecimento de muitas coisas posterior ao conhecimento da única coisa.
- A oferta extraordinária do sistema de Parmenides: a completude e a perfeição logo no início, pois se o fim não estivesse presente no início, nunca se poderia lá chegar.
- O problema final: não se pode chegar à realidade a partir da decepção, sendo necessário ser-se levado para lá, como Parmenides, e só então se percebe que a ilusão e a realidade são uma e a mesma coisa, integralmente uma à outra.
- A conclusão paradoxal e verdadeira: ao abraçar totalmente a decepção, experiencia-se a realidade, mas ao tentar evitá-la, acaba-se enganado, sendo crucial viver a ilusão ao máximo, pois ao fazê-lo, não se é mais do que a realidade a completar o seu próprio anseio.