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id da página: 5077 Gerardus van der Leeuw – O Meio Sagrado. Pedra Sagrada. Árvore Sagrada Gerardus van der Leeuw

Leeuw Meio Sagrado Pedra Arvore

Gerardus van der Leeuw – O Meio Sagrado. Pedra Sagrada. Árvore Sagrada.

VAN DER LEEUW, Gerardus. La Religion dans son essence et ses manifestations. Phénoménologie de la religion. Tr. Jacques Marty. Paris: Payot, 1970

  • O naturismo como hipótese explicativa da religião primitiva e a crítica moderna à sua limitação à natureza

    • No final do século XIX, ao lado do animismo, surgiu o chamado naturismo, hipótese segundo a qual a adoração dos seres divinos teria resultado da personificação das forças da natureza; reconheciam-se desde muito tempo os diversos representantes das potências naturais na religião grega, e o recente acesso ao panteão védico, vasto e variado, parecia igualmente proceder dos fenômenos da natureza, de modo que se admitia que o homem primitivo, ao refletir sobre as causas do que ocorre na natureza, teria inventado deuses, espíritos e demônios, autores desses fenômenos; o próprio uso do idioma, ao conceber os fenômenos naturais como atos, pressupõe um agente oculto, de modo que expressões como “a tempestade ruge”, “o relâmpago palpita” ou “o mar se eleva” revelariam uma “doença da linguagem” que induziu o homem a tomar por literais imagens originalmente poéticas, explicando assim a religião como uma superfluidade poética diante da ciência.
      • “O homem primitivo, ao refletir sobre as causas dos fenômenos naturais, inventou deuses, espíritos e demônios, autores desses fenômenos.”
    • A necessidade de explicar a religião atenuou-se sensivelmente, e reconhece-se que a simples reflexão sobre as causas dos fenômenos naturais não constitui religião; seria difícil considerar a religião um erro universal ou, nas palavras de Durkheim, “um sistema de imagens alucinatórias, uma imensa metáfora desprovida de valor objetivo”; mesmo ignorando tais objeções, a limitação da religião à natureza é insustentável, pois esta não é seu conteúdo principal: o homem não adora a natureza em si, mas a potência que nela se manifesta.
    • A religião não teria surgido da adoração da natureza, pois a própria noção de “natureza” é moderna, inexistindo antes de Rousseau e dos românticos; na Antiguidade, não se opunha a natureza à civilização, nem se distinguiam os objetos naturais dos produtos das artes; por isso, o termo “fetichismo” pôde ser estendido ao que se chamou “adoração da natureza”, pois tanto na natureza quanto na cultura trata-se sempre da potência sagrada, sem oposição entre o orgânico e o inorgânico.
    • A oposição mais próxima da moderna entre natureza e cultura é a que se estabelece entre o território cultivado e a solidão desértica que o circunda; com o advento da agricultura, a potência distribui-se entre natureza e cultura — o campo, dotado de potencialidade fecundante, contrapõe-se à floresta, à estepe e ao mar estéril, cuja potência é funesta —, revelando não a oposição entre potência e impotência, mas entre duas forças equivalentes.
    • A natureza desempenha papel notável em todas as religiões, mas o objeto de culto nunca é o fenômeno natural em si, e sim a potência nele inerente ou subjacente; essa potência é observada empiricamente e tratada com o mesmo rigor com que se reconhece a oposição entre o sagrado e o profano, entre o poderoso e o impotente, oposição esta mais ampla do que o contraste entre natureza e cultura, que atravessa continuamente a experiência religiosa.
  • A continuidade entre fetichismo e naturismo e a adoração das pedras como manifestação empírica da potência

    • Não há abismo intransponível entre fetichismo e naturismo, o que se evidencia na adoração das pedras; qualquer pedra de forma ou dimensão incomum desperta a intuição da potência; Jacob, ao repousar a cabeça sobre uma pedra e sonhar, reconhece empiricamente a santidade do lugar e unge a pedra com óleo, rito etiológico que revela uma experiência vivida da presença do sagrado.
      • “Quão santo é este lugar! Aqui está, verdadeiramente, a casa de Deus, aqui está a porta do céu.”
    • As tribos helenas, ao se estabelecerem na Grécia, colocaram no centro de seu território a pedra agyieus, adornada e coroada, destinada a proteger a colônia; de forma fálica, representava a potência fecundante, origem da hermé fálica e, por fim, da imagem do deus; em Israel, esse desenvolvimento foi contido pela repulsa ao antropomorfismo.
    • Em muitas partes do mundo subsiste o costume de lançar pedras sobre montes rituais à beira dos caminhos, prática que forma centros de potência, como nas pilhas de pedras dos antigos gregos ou nas “pedras de aldeia” das Índias Neerlandesas, que garantem saúde e força à comunidade, distinguindo-se entre pedras masculinas e femininas e servindo de local de entronização dos príncipes, às vezes consideradas de origem celeste.
    • As pedras ligam-se tanto à potência vegetal quanto às forças do céu, como nas pedras de raio, e o silex de Júpiter Ferétrio, guardado no Capitólio, desempenhava papel nos juramentos solenes, punindo o perjuro como o raio; outras pedras romanas, como os termini, protegiam fronteiras e limites, enquanto o lapis manalis evocava a chuva através de um encantamento mágico, ecoado em lendas medievais.
    • Os metais também possuem potencialidade, sendo considerados sexuados e sujeitos a uniões simbólicas; toda a alquimia repousa sobre tais concepções, segundo as quais os minerais seriam embriões imaturos que a metalurgia conduz à perfeição até tornarem-se ouro, ápice da maturação espiritual e material.
      • “Havia um leão vermelho, amante audaz, casado com o lírio em banho tépido, e ambos, chamas desdobradas, foram constrangidos de câmara em câmara nupcial.”
    • Quanto mais raro o metal, maior sua potência; o ouro, com a cor do sol, participa de sua força vivificante, razão pela qual gregos e egípcios o associavam à vida e à imortalidade, e as dádivas de ouro dos reis significavam concessão da própria vida; as maçãs de ouro das Hespérides e, mais tarde, as de Idun, simbolizavam a própria essência vital.
  • A sacralidade das montanhas e a concepção da potência como fundamento da criação e da divindade

    • As montanhas santas, reconhecidas em todo o mundo, são dotadas de potencialidade que pode assumir a forma de demônios ou deuses; sua majestade, inacessibilidade e estranheza as tornam morada do “totalmente outro”; o Fuji, no Japão, o Olimpo grego e o T’ai shan chinês são exemplos de centros espirituais da criação, antecedendo os deuses que neles passaram a residir, pois o cume é o mais antigo dos céus.
      • “Criaste meia-noite e meio-dia; o Tabor e o Hermon regozijam-se em teu nome.”
    • Segundo a Bíblia, a divindade manifesta-se sobre as montanhas, como no Sinai ou nas referências dos salmos que esperam o socorro “das montanhas”; para os hindus, elas são refúgios sagrados não por sua grandeza, mas por estarem carregadas de potência, que se move livremente, assumindo formas diversas.
      • “As montanhas são nosso refúgio, elas tomam formas a seu bel-prazer e, nas florestas, vagam sobre os próprios cumes.”
    • A montanha era considerada o primeiro elemento da criação; do oceano caótico ergueu-se a elevação primordial, origem de toda essência; os egípcios situavam nela o deus criador, símbolo do umbigo da terra, centro do mundo; na Grécia, o omphalos dos santuários representava o mesmo princípio; nascer de uma pedra era tão natural à mentalidade antiga quanto nascer da terra fértil, como mostram os mitos de Mitra, Atena e o relato de Deucalião e Pirra.
  • A árvore como portadora de potência e símbolo do vínculo vital entre o homem, a coletividade e o cosmos

    • Assim como a pedra e a montanha, a árvore é portadora de potência; o naturismo viu nela símbolo dos fenômenos celestes, mas a pesquisa posterior mostrou que são as potências celestes que se manifestam na árvore; na Grécia, acreditava-se que a árvore abrigava uma força viva, expressa nas hamadríades que nascem e morrem com ela, e exemplos semelhantes são encontrados no Egito, onde o sicômoro “contém os deuses” e serve de trono à divindade.
    • O caráter sagrado do tronco seco e morto, comum ao Egito e à Grécia, expressa o mistério da alternância entre morte e vida, motivo do culto “sob todo o árvore verde” e de sua persistência simbólica, como no julgamento de Joana d’Arc, em que a presença sob a árvore foi associada à inspiração demoníaca.
    • Para o homem primitivo, a vida é potência, não lei; sem concepção de causalidade natural, a morte e a renovação na natureza são acontecimentos espontâneos, não milagrosos; assim, o vínculo entre a árvore e a vida humana é de identidade essencial e não mera analogia: o homem, ao constatar a força do renascimento vegetal, aspira a partilhar de sua solidez vital, buscando unir-se a ela por meio de ritos mágicos.
    • Em diversas culturas, enterra-se o placenta ao pé de uma árvore, e sua vitalidade acompanha a da criança; contos e rituais reiteram a correspondência entre o florescimento do vegetal e a prosperidade do herói; exemplos da Melanésia e das Índias Neerlandesas mostram a “crescimento conjunto” entre homem e árvore, onde o ato de plantar é sexualmente simbolizado, reforçando a identidade de essência entre o humano e o vegetal.
      • “Quando o chefe Ngau Tamate-wka-Nene via crescer sua árvore de vida, seu mana também crescia intensamente.”
    • A equivalência entre homem e planta implica ausência de qualquer noção de “natureza” separada; as línguas austronésias possuem um mesmo termo para a alma humana e a do arroz; o trabalho humano não é técnico, mas evocatório das potências que o cercam; a mulher é o campo e o campo é a mulher, reflexo de um mundo ainda indiferenciado.
    • A árvore representa não apenas a vida individual, mas a potência vital da coletividade, expressa nos ramos festivos da primavera, nos símbolos de renovação como o lulab judaico ou as árvores de maio e de liberdade; ela é o salvador que sustenta a vida e reúne a comunidade ao seu redor.
    • A expansão mítica do símbolo culmina na imagem da árvore cósmica, presente do paraíso bíblico ao jardim dos deuses, passando pelos mitos egípcios, persas e indianos; o sycomoro egípcio, o haoma e o soma orientais, o visco dos romanos e germânicos, todos figuram o mistério da morte e da vida, a seiva que comunica a divindade ao mundo.
    • O Yggdrasill, árvore do imaginário germânico, amplia infinitamente o arquétipo do värträd, árvore tutelar da comunidade, e representa a totalidade dos três mundos, sustentando a vida universal enquanto é corroído em suas extremidades; longe de negar o símbolo, o sacrifício de Odin em seu tronco o exalta ao máximo, revelando de forma suprema o mistério da morte e da vida.