MALHERBE, Jean-François. Souffrir Dieu. La prédication de Maître Eckhart. Paris: Cerf, 1992
Ser uma imagem livre de toda imagem
"Tornar-se como uma imagem!" Este conselho parece surpreendente na boca de um pregador tão voluntariamente iconoclasta como Mestre Eckhart. E, no entanto, vale seu peso em ouro. Para compreender sua justeza, convém perguntar o que é uma imagem:
Ora, ouça-me com muita atenção. O que é realmente uma imagem, reconhecer-se-á em quatro pontos, ou talvez mais. Uma imagem não é por si mesma, nem para si mesma; provém, antes, daquele de quem é imagem e a ele pertence com tudo o que é. Não é propriedade e não pertence ao que é estranho àquele de quem é imagem. Uma imagem toma seu ser direta e unicamente daquele de quem é imagem, tem um mesmo ser com ele e é o mesmo ser.
... Pergunta-se frequentemente como se deve viver. Aprenda-se aqui com aplicação. Deve-se viver da maneira como foi falado a respeito da imagem. Deve-se estar para ele, deve-se ser para ele, não se deve estar para si, não se deve ser para si, não se deve ser para ninguém.
Não pertencer senão a Deus somente é a melhor maneira de não pertencer a ninguém. Ele nos criou à sua imagem e semelhança: soberanos. Não pertencer senão a ele é uma condição de libertação. Com efeito, não se poderia ser liberto e pertencer a outro, ainda que seja um amigo, nem a si mesmos, tanto é verdade que pertencer a si é ainda uma maneira de ser possuído por uma imagem de si. Uma imagem muito forte ilustra o que significa pertencer a si, é ter a língua carregada:
O que há de surpreendente se o doente não encontra sabor nos alimentos e no vinho? Não tem o verdadeiro sabor do vinho e dos alimentos. A língua tem uma espessura, um revestimento que misturam seu sabor àquele e que é amargo segundo a natureza da doença. As coisas não puderam chegar lá onde teriam sabor; parecem amargas ao doente e tem razão, pois a espessura que recobre sua língua não pode senão fazê-las parecer amargas. Enquanto essa espessura não se vai, nada tem seu verdadeiro sabor. Todo o tempo que aquilo que nos separa de Deus não é afastado, não se saboreia Deus tal como ele é em si e nossa vida parece muitas vezes triste e amarga.
Ou seja, querer pertencer a si mesmo é uma doença que provoca amargura e tristeza. E o verdadeiro liberto é aquele que renunciou a esse desejo, que se deixou curar pelo nascimento do Filho nele, que se deixou purificar pelo beijo da deidade. Encontrar-se-á mais adiante a ideia de uma "espessura", de uma crosta, de uma casca fazendo obstáculo ao verdadeiro conhecimento. Mas antes, é útil perguntar como é possível libertar-se de toda imagem, de toda espessura que possa nos separar da verdade. Com efeito, queira ou não, o ser humano, enquanto vive, é atravessado por imagens tão diversas quanto numerosas. Como desfazer-se delas?
Se, pois, consigo não me representar em nenhuma imagem e não representar nenhuma imagem em mim, e se evacuo e rejeito o que está em mim, posso ser transferido para o ser "um" de Deus, e tal é o ser puro do Espírito. Tudo o que é semelhança deve ser empurrado para fora, a fim que seja transferido em Deus e torne-me um com ele, uma substância, um ser, uma natureza e o Filho de Deus. E depois que assim foi feito, nada está oculto em Deus que não seja manifestado ou não se torne meu.
É por isso que, para que sejas um com Deus, nenhuma imagem deve se formar em ti, que nela se imprima ou nela se exprima, isto é, que nada em ti esteja oculto que não se torne manifesto e seja lançado fora.
As imagens são inevitáveis. Mas não é preciso ater-se a elas, é preciso mesmo ir ao seu encontro e desalojá-las, enquanto imagéticas, para metabolizá-las e lançá-las depois para fora.
Isso diz o quanto a pedagogia eckhartiana é próxima do que se chamará a démarche psicanalítica seis séculos mais tarde:
E, com efeito, ninguém pode conhecer Deus se não se conhece primeiro a si mesmo. Deve penetrar no que tem de mais baixo e no que Deus tem de mais interior, deve penetrar no que é primeiro e mais elevado em Deus, pois lá se concentra tudo o que Deus pode realizar.
É assim, podia-se aliás esperá-lo, que o Mestre dominicano ensina como conhecer Deus, isto é, em definitivo, como tornar-nos verdadeiramente Deus nós mesmos:
Se devo conhecer Deus sem mediação e sem imagem e sem comparação, é preciso que Deus se torne verdadeiramente eu e que eu me torne verdadeiramente Deus.
Mas para isso, é necessário quebrar até o simbolismo mesmo que produz as imagens em nós.
Se é verdade que
não deixa de ser menos que
a casca deve ser quebrada para que saia o que contém. Pois se queres ter o fruto, deves quebrar a casca. E portanto, se queres encontrar a natureza em sua nudeza, todos os símbolos devem ser quebrados, e quanto mais se penetra nela, mais se está próximo do ser. E quando a alma encontra o Uno onde tudo é um, ela permanece nesse único Uno. Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas.
E é nessa ponta extrema de sua audácia que o místico turíngio acaba por concluir que o liberto chega a "renunciar a Deus por Deus":
o mais elevado e mais extremo a que o homem possa renunciar, é renunciar a Deus por Deus.