MALHERBE, Jean-François. Souffrir Dieu. La prédication de Maître Eckhart. Paris: Cerf, 1992
Sim ou não, Deus existe e vale a pena passar a vida procurando-o?
Esta questão, sensível ao coração se não ao espírito, exige uma resposta clara ao corpo. Trata-se, em última análise, da vida e do seu sentido, e não apenas de alguma abstração para uso de filósofos e teólogos.
A este respeito, as respostas convencionais pecam por excesso e, por isso, são insuficientes.
O "Deus existe, eu o encontrei" de André Frossard associa-se com demasiada frequência à requisição de Deus sob a bandeira de interesses muito particulares.
E o "Deus está morto, tudo é permitido" de Nietzsche, se expressa um salutares desprendimento em relação às teocracias de todas as ordens, falta em última análise à exigência instituidora da humanidade, cuja requisição universal se dá a ler no recesso mais singular de cada um dos seus membros.
Certamente, a humanidade só advém como humanidade na medida em que, em verdade, o homem ultrapassa o homem. Eckhart, aliás, fazia sua a fórmula de Sêneca:
Mas o super-homem nietzschiano não é nada além da hipérbole de uma singularidade exacerbada.
Eckhart tinha pressentido o perigo dessa ilusão e, quatro séculos antes de Kant, salientava já a salutares necessidade do trabalho do universal no coração do singular.
Em toda a lucidez, é preciso admitir que a existência de Deus não muda nada no permitido e no proibido.
Tudo o que honra Deus em verdade, isto é, sem o sequestrar de nenhuma maneira, engrandece o homem.
E tudo o que verdadeiramente engrandece o homem honra a justiça de Deus.
É aí, e só aí, que se encontra o critério da vida prática. Mestre Eckhart formulou-o com toda a clareza, trata-se em cada ocasião de apreender em mim a humanidade em si, apreender-me enquanto humanidade:
É a este trabalho do universal no coração da própria singularidade que cada um de nós é chamado se quiser merecer o nome de homem.
Se, apesar de certas formulações que, tiradas do seu contexto, puderam ser julgadas obscuras, a fé religiosa de Mestre Eckhart permanece católica, convém reconhecer que a sua visão fundamental é "transreligiosa".
A sua pertença à Igreja Católica, da qual era um dignitário, era para ele uma raiz nutridora mas não um cárcere, um ponto de partida mas não uma chegada.
Só lhe importava a busca da honra de Deus em todas as coisas!
Mas, finalmente, esse Deus de quem se cultiva a honra, existe sim ou não?
A aposta de Pascal pôde iludir por algum tempo, que propunha viver como se Deus existisse, pois no fim das contas, ninguém tinha nada a perder.
Parece-me, no entanto, que a pregação do Mestre dominicano, três séculos antes de Pascal, convida-nos já a arriscar a aposta inversa: viver como se Deus não existisse!
Não seria essa, de fato, a maneira mais segura de não o sequestrar?
Viver como se ele não existisse, esperando-o ao mesmo tempo. Fingir ignorá-lo e "espreitar a sua tossida por detrás do arbusto", não seria afinal a maneira mais subtil de obrigá-lo a desvelar o seu próprio jogo? A pedagogia mais respeitadora da sua autonomia, como da nossa? E a prática mais radical do desapego?