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id da página: 2298 Mario Ferreira dos Santos Heraclito Mário Ferreira dos Santos

Mario Ferreira dos Santos Heraclito

Mário Ferreira dos Santos — breve síntese

Heráclito (Natural de Éfeso 540?-480? a. C.)

Dele conhecemos apenas fragmentos esparsos nas obras de seus comentadores. Temas:

1) recíproco condicionar-se dos opostos (pólemos) e harmonia dos contrários, limitando-se uns nos outros, de onde o nascimento e a conservação dos seres (conciliação das antíteses; permuta e identidade dos contrários);

2) identidade do Um eterno (fogo) e devir universal como exigência da razão — idéia do fogo, unidade de substância de todas as coisas, e comum envoltura dos contrários (Heráclito afirma a realidade do ser);

3) idéia do perpétuo escoamento das coisas e do sujeito cognoscente; tudo flui (panta rei); "Tu não podes banhar-te duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti" (antítese da experiência e da razão);

4) visão irônica dos contrastes, que permite que as coisas boas e más sejam interpretadas diferentemente. "O charco é, para os porcos, o paraíso...";

5) a fé como condição de verdadeiro conhecimento;

6) caminho da sabedoria: conhece-te a ti mesmo.

A filosofia de Heráclito encontra hoje seus cultores apaixonados. Aristóteles, para muitos, desce para segunda plana, e Heráclito retoma um lugar de prestígio. Heráclito, entretanto, não podemos negá-lo, presta-se a várias interpretações. Seu sistema não é tão rígido que os seus exegetas se vejam privados de dar vazão à imaginação. Não se atribua a isso falsificações, propriamente. A interpretação fundamentada da obra de Heráclito não é somente a que se cinge às normas estabelecidas por um Léon Robin, por Herman Diels, Zeller, Burnet, Tannery, Joel, Rivaud, Abel Rey. Existem, ainda, novos cultores que alargam as suas perspectivas.

Mas sublinhemos alguns aspectos interessantes: segundo Heráclito, o devir e a passagem contínua do finito ao infinito e, inversamente, constitui o único processo infinito que se move em contrários, a unidade do ser e do não-ser, a essência do mundo. Heráclito viu nessa instabilidade de todas as coisas, na mutação contínua de todo ser, a lei mais geral do universo. Tudo flui, nada tem consistência, de maneira que não podemos "entrar duas vezes no mesmo rio". O universo é luta e paz; verão e inverno, fluxo e tempo, saciedade e fome, etc.

A contradição, princípio dominante do mundo, é segundo Heráclito, inerente às coisas. Assim, tudo o que é, não existe exclusivamente senão como unidade dos contrários, "tudo sai do Um e para o Um volve tudo". Segundo Aristóteles, o princípio de Heráclito, de que "Ser e não-ser são idênticos", vai de encontro ao princípio dos contrários. Diz Aristóteles que, segundo a filosofia de Heráclito, é antes o princípio "Nada existe" o admitido, em vez de "Tudo existe".

Aristóteles quer dizer que, admitindo-se com Heráclito que toda coisa é e não é ao mesmo tempo, uma junção, assim, dos dois momentos contrários, da qual ela é a unidade, não se pode produzir nenhum movimento de um estado contrário ao outro.

Compreendemos o caráter simbólico da palavra fogo em Heráclito. Substituindo-a por energia, temos a concepção que modernamente influi na filosofia da ciência. Os vitalistas e os animistas do século passado encontrarão aí muitas semelhanças. Hipócrates também considerava o fogo a fonte da vida. A idéia de alma unida ao fogo, como de vida, é comum na mentalidade primitiva e antiga, mesmo a de sopro, a de ar, porque o sopro é quente, tem fogo. Podemos deduzir dessa idéia a formação de muitas palavras e de idéias primitivas.

Não devemos tomar ao pé da letra essas expressões simbólicas.

O nome de Heráclito liga-se a modernas correntes da filosofia. E não há exagero quando dizemos que se observa um retorno aos pré-socráticos.

Esse retorno é um traço de profunda "historicidade da atual filosofia", impregnada de indecisões, de dúvidas, de inquietações. A figura aristocrática de Heráclito impõe-se prodigiosamente. É um temperamento de inspirado e solitário, de melancólico, como o chamou Teofrasto. Houve a lenda ridícula que fazia de Heráclito um homem que chorava continuamente. Alguns professores de filosofia registraram-na como verdadeira e constroem a figura de Heráclito como a de um homem que traz sempre lágrimas nos olhos e palavras de desespero nos lábios. Deve-se isso a Luciano, cujo retrato caricatural do famoso efésio foi aproveitado pelos adversários das doutrinas heraclitianas.

O seu maior contentor foi Parmênides, cuja filosofia examinaremos em breve.