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Michel Henry Beatitudes


PALAVRAS DO CRISTO

É em presença de verdadeiros discursos que se encontra o leitor das Beatitudes, seja na versão de Mateus ou naquela de Lucas. Tudo se passa como se, por trás deste tecido de proposições inverossímeis, uma outra Razão está operando, um outro Logos que, para ir ao encontro de tudo isto que os homens dizem ou pensam deles mesmos, os atingem no coração de seu ser. Como se esta Palavra, longe de ser estranha a nossa realidade verdadeira, não lhe fosse não somente ligada segundo uma conveniência que ainda nos escapa, mas consubstancial. Existiria então uma chave para compreender o ensinamento enigmático do Cristo. Esta chave não seria proveniente de algum saber esotérico, de mitologias arcaicas ou de cosmogonias absurdas, ela se manteria oculta em nós. Ela só seria capaz de nos introduzir na inteligência de nós mesmos.

Para se utilizar desta chave, convém a princípio reconhecer que o lugar circunscrito pelos paradoxos das Beatitudes “não é outro senão a condição humana”. São portanto as palavras do Cristo dirigidas aos homens “a respeito deles mesmos” que estão em questão. Só a análise destas palavras pode nos fornecer o princípio de inteligibilidade que buscamos.

Para quem escruta com mais atenção as palavras do Cristo, parece que os paradoxos não resultam da única oposição do visível e do invisível, nem do pertencimento a este último de nossa vida verdadeira. “É no interior desta, entre as modalidades vividas por ela, entre seus próprios sentimentos, que se levantam as relações desconcertantes proclamadas pelo Cristo nas Beatitudes”.

Esta subversão geral de todos nossos sentimentos é idêntica àquela da lógica que lhes é inerente. Como com efeito a felicidade poderia ser idêntica à sensação penível da fome ou da sede, aos sofrimentos das perseguições sofridas, aos vexames da calúnia; ou ainda ao incômodo da pobreza, às lágrimas, ao ódio, aos ultrajes, às humilhações que o desprezo dos outros suscita em nós?