PADOUX, André. Comprendre le tantrisme: les sources hindoues. Paris: Albin Michel, 2010
A Palavra tântrica
Desde a época védica, a Índia atribuiu à palavra um valor primeiro. As especulações sobre sua natureza e suas potências estão no próprio cerne não apenas da religião, mas do pensamento da Índia. O tantrismo inscreve-se nesta tradição ao desenvolver ainda mais, levando-os ao extremo, o papel e os poderes da palavra – isso essencialmente sob a forma dos mantras – e, mais ainda, ao multiplicar os ritos e as práticas que a põem em jogo, e ao elaborar ao mesmo tempo uma vasta literatura sobre o assunto. Estas práticas e especulações formam o que se tem por costume nomear o mantrashastra, o ensino dos mantras, cujo lugar no universo tântrico é tal que este termo e o de tantrashastra, o ensino tântrico, chegaram a ser frequentemente tomados como sinônimos.
Tudo o que tem relação com a palavra, sua natureza, sua potência e seus usos está no próprio coração da realidade tântrica. O assunto é imenso: um volume inteiro não bastaria. Dar-se-á portanto uma visão geral ao envisager primeiro as cosmogonias da palavra, os aspectos que esta assume no universo e no corpo humano, e enfim certas práticas rituais onde ela desempenha um papel, preenchido antes de tudo pelos mantras, cuja importância é extrema. Antes de qualquer coisa, cumpre precisar que a palavra, em todos os casos que se verá, é a palavra falada, falante, oral: somente esta é divina e eficaz. As formas escritas que podem existir não são mais que traços concretos, úteis em sua ordem, mas consideradas como inferiores e não tendo algum valor ou efeito senão na medida em que dão a ver uma realidade que por natureza é imaterial.
A palavra cósmica
O poder e o papel cósmico da palavra, proclamados desde o Veda (o hino I.124 do Rigveda a divide em quatro), são objeto, nos textos tântricos, de uma sistematização que precisa seus aspectos e sua função, estes pontos tendo sido particularmente desenvolvidos no xivaísmo não dualista da Caxemira. Qualquer que seja sua base textual, estas especulações têm entretanto quase sempre uma particularidade que pode desconcertar os ocidentais: a de envisager a palavra não apenas como uma força de uma natureza geralmente fônica, sonora ou verbal, mas mais especialmente como se exprimindo pelo alfabeto sânscrito ou por formas da língua sânscrita, portanto como ligada à palavra falada erudita e, mais precisamente, a noções de fonética ou de gramática – o que é, cumpre dizê-lo, on não pode mais indiano. "Aderir ao pensamento indiano", dizia Louis Renou, "é antes de tudo pensar em gramático" – mas um gramático, acrescentaria eu, que é ao mesmo tempo teólogo, metafísico e místico.
Os aspectos cósmicos da palavra tântrica são muito numerosos. Vêem-se invocados em diferentes circunstâncias. Um dos mais interessantes é aquele em que a palavra tem um papel de criador cósmico sob a forma da língua sânscrita. Ele é descrito nas tradições vixnuítas assim como xivaítas, a exposição mais complexa pela imbricação metafísico-gramatical sendo a do xivaísmo não dualista: é o sistema da emanação fonemática, que é apresentado em particular, com base em antigos tantras, por Abhinavagupta, nomeadamente no 3º capítulo do Tantraloka. Ele é demasiado complexo para poder ser resumido. Diga-se apenas que a divindade aí é considerada como tendo por essência a Palavra, que é seu aspecto de energia, de shakti, e que esta energia-palavra tem por natureza e por forma a língua sânscrito. É portanto a Palavra sob a forma do sânscrito que trará o mundo à existência e o sustentará com sua toda-potência. Assim a divindade suprema, Paramashiva, que é Consciência absoluta, ao mesmo tempo Luz e Consciência (prakasha e vimarsha) – seu aspecto de consciência sendo aquele de sua energia, portanto de palavra –, vai tomar consciência da presença nela dos cinquenta fonemas do alfabeto sânscrito, na ordem da gramática tradicional, de A a KSHA. Cada fonema corresponde a um aspecto diferente da potência criadora da divindade e faz nascer nela um dos planos ou aspectos constitutivos da manifestação cósmica. Este processo não é temporal, mas fora do tempo. Ele não cessa de se produzir, formando a fonte e o substrato onipresentes e eternos, feitos de palavra, do universo. A divindade, com efeito, não poderia cessar de criar e de animar o universo que, sem isso, desapareceria.
Shiva, detendo assim nele sob forma arquetipal o alfabeto sânscrito e a manifestação cósmica que este faz nascer, vai, por uma série de tomadas de consciência gramaticalmente ordenadas, de projeções luminosas e de reflexos dos fonemas do sânscrito a diferentes níveis da energia cósmica, fazer aparecer, com quatro planos sucessivos da palavra, do mais alto, infinitamente sutil e supremo, ao mais baixo, concreto e manifesto, todos os níveis e todos os aspectos da manifestação cósmica, que se desdobra por etapas segundo o sistema classificatório dos tattva.
Uma mesma imbricação do linguístico e do cósmico reencontra-se, de modo menos intelectualmente sutil mas mais integrada na visão teo-antropocósmica tântrica do corpo e da palavra, em outras descrições do nascimento ao mesmo tempo divino-cósmico e corporal desta palavra onde, sempre, o divino, o cósmico e o humano são inseparáveis. Citar-se-á a que se segue, tirada de um antigo tantra xivaíta, o Tantrasadbhava, onde se veem entidades divinas nascer no corpo humano: "Esta Energia suprema, sutil, cantada como transcendendo toda prática, está enlaçada em torno do bindu do coração qual uma serpente adormecida. Ela permanece aí, assopitada, sem pensamento, ó Umá! Esta Deusa encerra nela os catorze mundos, com a lua, o fogo, o sol e os astros, permanecendo inconsciente, como estupificada por um veneno. Ela desperta então com um som (nada) muito puro feito de conhecimento, sendo barrada pelo bindu (Shiva) presente em seu seio, ó Bela! Deste barramento em seu corpo, ao movimento circular e contínuo, nascem pontos (bindu) luminosos, produtos desta divisão sexual. Eleva-se assim a Força (kala) sutil, a Kundalini. O Senhor é o bindu que se encontra em seu seio. Ele é quádruplo, ó Bem-amada! Graças à conjunção da Barrada e do Barrador produz-se um redressamento, a potência que se mantém entre estes dois bindu (Shakti e Shiva) sendo nomeada a Primogênita (Jyeshtha). Agitada pelo bindu, a Kundalini, formando uma linha reta, é chamada a Direita (Rekhini), tendo os dois bindu a suas extremidades. Ela é então a força do triplo caminho e nomeada Raudri. Mas canta-se-a também como Rodhini pois ela obstrui o caminho da liberação. Sua forma é a da lua. Ambika, ela, tem o aspecto de uma meia-lua. A suprema Energia toma assim três formas. Da união e da separação destas energias procedem os nove grupos de fonemas, repartidos em nove categorias. A Deusa entra sucessivamente nos cinco brahmamantra, sadyojata e os outros. É por isso, ó Mestra dos Heróis! que se a diz quíntupla. Nomeia-se-a duodécupla, pois há doze vogais. Dividida em cinquenta partes, ela reside nos fonemas de A a KSHA. No coração, ela é, diz-se, dotada de um átomo, na garganta, de dois átomos, de três quando está na ponta da língua. É na ponta da língua, certamente, que nascem todos os fonemas. Tal é o nascimento do som (shabda) que penetra tudo o que se move ou é imóvel."
Nesta visão mítica, portanto, a Energia divina nasce no coração humano, depois torna-se a kundalini, divina, erguida pela união sexual de duas divindades; após o que aparecem três energias divinizadas – está-se portanto no plano divino. Intervêm então cinco mantras (que são ao mesmo tempo divindades e fórmulas rituais enunciáveis), depois vêm os fonemas constitutivos do alfabeto sânscrito, portanto a palavra, força cósmica. Mas é nos órgãos da fonação – no corpo humano – que nascem estes fonemas: os planos divino, cósmico e humano estão inextricavelmente misturados.
Existem outras descrições análogas da manifestação cósmica pela palavra, isso mesmo em textos do Pancharatra – no Ahirbudhnyasamhita (capítulos 16 e 17), por exemplo, ou no Lakshmitantra (capítulos 18 a 20). Se os processos criadores diferem nos detalhes, o princípio é sempre o mesmo: são cosmogonias de base fonética, a energia divina criadora do universo permanecendo a da palavra sob a forma do alfabeto sânscrito. Achar-se-á talvez que demasiado espaço é concedido aqui a construções míticas ou intelectuais arbitrárias e bizarras. Elas merecem entretanto ser mencionadas porque são também tipicamente tântricas por sua visão cósmica quanto tipicamente indianas por seu aspecto fonético e gramatical.
A palavra no ser humano: palavra e consciência
Volte-se ao plano humano. Os níveis e aspectos da palavra, que se acaba de ver enquanto bases dos planos sucessivos da manifestação cósmica, estão de fato igualmente atuantes no ser humano. É portanto da mesma maneira, por aparição de níveis progressivamente mais concretos da palavra que, segundo aqui ainda os teóricos xivaítas da Caxemira, nasce no homem a palavra, a língua, e com ela sua consciência e a consciência que ele tem do mundo: se o mundo nasce com e pela palavra, a consciência humana faz o mesmo. Esta palavra, nestes sistemas, é a vida da consciência: a tomada de consciência de si e a palavra são indissociáveis. Sobre este ponto, os exegetas xivaítas da Caxemira retomam por sua conta a fórmula do filósofo da gramática, o xivaíta Bhartrihari (século V) segundo a qual, para o homem, "não há, neste mundo, ideia ou experiência que não seja acompanhada de palavra".
Nesta perspectiva, para o ser humano, não há presença a si mesmo e ao mundo senão penetrada de palavra: conhece-se a si mesmo como sendo, como Eu, porque se fala. Esta palavra, todavia, não está presente no homem apenas no plano da linguagem, mas a todos os seus níveis, inclusive o mais alto, para, a Palavra suprema. A presença desta na consciência humana é de fato necessária, pois, para estes pensadores que são antes de tudo metafísicos, toda forma de palavra, mesmo a mais explícita, não pode ter estatuto ontológico e portanto validade como meio de conhecimento senão se repousar sobre um ponto de partida absoluto, um fundamento eterno, aliás identificado com a Consciência suprema, que é Palavra.
Esta necessidade não é apenas lógica, mas metafísica, pois, como já se disse, as teologias indianas, sejam ou não tântricas, são emanationistas: nada, para elas, pode ser manifestado no mundo que não esteja primeiro na divindade. Não há, na Índia, criação ex nihilo, não há fiat após o qual tudo é dado: a criação é contínua segundo um processo cíclico, saído eternamente da divindade; o vínculo da manifestação com a divindade é ininterrupto. Ocorre o mesmo, mutatis mutandis, para o ser humano, cuja palavra expressa não pode existir e ser válida senão se repousar sobre a palavra suprema, receptáculo, fons et origo, substrato eterno de toda palavra possível. "Como, quando se fala, diz um texto tântrico (aliás vixnuíta), poder-se-ia passar de uma palavra a outra se entre cada uma delas não se repousasse na Palavra suprema?" Esta palavra fará advir tudo o que existe, o universo não podendo estar presente (em si mesmo e para o homem) senão na medida em que a palavra lhe deu nascimento, ali permanece e continua a animá-lo.
Isso posto, no fundo de toda consciência humana encontra-se a palavra suprema, para, seminal, silenciosa, palavra antes de toda palavra, fundo de pura consciência luminosa onde tudo repousa em germe. Nela nasce uma "enunciação interior" que é antes o esboço de um movimento para a expressão ("é como um sinal de cabeça interior", diz Abhinavagupta). Com este movimento aparece a palavra vidente (pashyanti), que é a propriamente falar a primeira etapa da palavra. Ela é nomeada "vidente" porque a este nível nasce na consciência como um desejo de ver, o esboço de uma primeira visão do que será manifestado nas etapas seguintes, esta visão sendo sintética, não discursiva, e inteiramente imersa na consciência, no Eu (aham) que é a afirmação primeira do ser, de um eu transcendental. Virá depois a palavra média ou intermediária (madhyama), onde se formam, sempre imersos na consciência, os lineamentos da linguagem e do que esta exprime: o Eu (aham) e o isso (idam), a objetividade, em seu estado sutil, aí estão em equilíbrio. A percepção e a nominação do mundo nasceriam ali: está-se no ponto de partida da consciência discursiva e do que esta cria ao pensá-lo. Descreve-se por vezes este plano como aquele da linguagem interior. Vem enfim a etapa final, a da palavra "estendida" (vaikhari), assim nomeada porque todo o concreto, palavras e coisas, aí está presente, ali se estala. É o plano da linguagem, do pensamento discursivo e de toda a objetividade: o mundo onde se vive e se fala. É o mesmo processo que cria a manifestação cósmica.
Dá-se ali apenas a articulação de uma teoria que tem diversos prolongamentos e que é na realidade de uma riqueza e de uma sutileza extremas. Vê-se ali como nasce no ser humano, a partir de um fundo primeiro da consciência, um pensamento que se desenha pouco a pouco em visão e em expressão falada (não em ideias: a Índia nunca pensou que se pensava por ideias), movimento interior que, por patamares sucessivos, se cumpre em palavra e em pensamento explícitos; com estas produzir-se-ão a língua (as línguas) e a percepção das coisas: a tomada de consciência clara de si, a apreensão do mundo e a presença no mundo. Há ali também uma exposição da maneira como se estabelece a relação das palavras com as coisas, como se produz a aquisição de todo conhecimento, sobre o que repousa e como funciona a memória. Encontra-se igualmente uma teoria da aprendizagem (suposta se produzir em madhyama, pois é sobre este plano que se dá um nome às coisas). A exposição deste sistema em todos os seus aspectos, nomeadamente por Utpaladeva e Abhinavagupta, forma um dos mais brilhantes e cativantes capítulos do pensamento tântrico filosófico da Índia – que se teve infelizmente de aqui horrivelmente resumir.
Palavra e sopro vital
É sobretudo de modo menos metafísico, mais yógico e corporal, que a palavra aparece presente no ser humano, uma palavra que, em sua natureza e seu movimento, pouco se distingue do sopro vital, o prana, o qual, como ela, é uma força vibratória animando o homem ao mesmo tempo que o ultrapassando. Especulações sobre a presença e o papel da palavra no corpo humano encontram-se já nas Upanishads védicas. É a elas que remontam os desenvolvimentos tântricos sobre este assunto, que são todavia infinitamente mais detalhados, distinguindo nomeadamente entre planos e aspectos diferentes do sopro vital, indo de sua forma sensível de sopro respiratório a seu plano mais elevado, identificado ao brahman-som, o shabdabrahman, a característica mais notável da visão tântrica da palavra sendo que seus aspectos corporais são inseparáveis de sua natureza e de seu papel de potência cósmica. É esta potência que age no corpo tanto físico quanto imaginal, animando-o, divinizando-o e transcendendo-o – viu-se um caso um pouco estranho mas exemplar na passagem citada acima do Tantrasadbhava.
Para os textos tântricos, não há apenas os três aspectos geralmente reconhecidos do sopro vital: prana, apana e udana. Há ao menos cinco, por vezes dez, ou mais, circulando no corpo yógico (portanto ultrapassando o corpo físico), correspondendo por vezes a diferentes planos da palavra e preenchendo funções particulares. É uma das maneiras pelas quais o corpo é habitado pela palavra.
Esta está todavia nele antes de tudo sob o aspecto de uma vibração fônica sutil, o nada. Deste último, os tantras distinguem aspectos e planos diversos, de maior ou menor sutileza, desempenhando um papel no funcionamento do corpo yógico (e mesmo em certos cultos – as especulações teóricas, nomeadamente sobre a palavra e os ritos, não se separando). O nada é assim tanto a condensação da vibração fônica originária (aquela da Palavra suprema) quanto um som indo do inaudível ao audível, ou do audível à dissolução de todo som no silêncio do absoluto, se se envisage o movimento em sentido inverso: são estas noções cosmogônicas, mas reencontram-se no plano humano, no corpo-espírito, onde são vividas.
Mencione-se aqui também uma outra forma sutil de som, o bindu, a gota ou o ponto, que nasce do nada e que é o reagrupamento sobre si mesmo da energia da palavra, ponto onde ela passa necessariamente antes de eclodir e ir para o som audível e a palavra falada, ou antes de se resorver no brahman-som. Na estrutura do corpo imaginal, bindu designa frequentemente o chakra do meio da testa, ponto pelo qual passa a kundalini antes de chegar ao brahmarandhra, ponto limite superior do corpo. Mas há também um bindu do coração, de onde esta última pode elevar-se.
No corpo, mais ainda que sob a forma de elementos fonético-linguísticos, é sobretudo sob a forma dos mantras, impostos por nyasa, presentes nos chakra, ou circulando com o prana (por vezes como a vibração fônica do nada), que a palavra está presente.