PADOUX, André. Comprendre le tantrisme: les sources hindoues. Paris: Albin Michel, 2010
Rajneesh e Muktananda
Rajneesh foi um guru tântrico de espécie vizinha, que rapidamente se tornou célebre. Tendo sido forçado a deixar a Índia, chegou em 1981 aos Estados Unidos, que considerava como o país da liberdade e do capitalismo liberal e onde se apresentava como o “messias que a América espera”. Após uma breve estada em Nova Jérsei, instalou-se com seus já numerosos discípulos em Antelope, no Oregon, para ali criar uma cidade ideal, Rajneeshpuram, a qual se tornou rapidamente um empreendimento muito lucrativo, de numerosas ramificações, reunindo cerca de cento e vinte milhões de dólares nos quatro anos de sua breve existência. A empresa difundia-se ao mesmo tempo na Europa, contando, a certa altura, ao que parece, mais de vinte e cinco mil membros. Ali se prometia, como em Puna, o amor livre e a libertação. Mas Rajneesh e os seus, cujos costumes e luxo (as famosas vinte e duas Rolls-Royce!) causavam escândalo, entraram em conflito com os habitantes de Antelope, comportando-se com violência extrema. Acabaram sendo processados por falsas declarações, imigração ilegal, abuso de confiança, violências de diversas naturezas, extorsão, incêndio criminoso e até mesmo tentativa de assassinato. O movimento foi condenado e Rajneesh expulso dos Estados Unidos. Foi então que, não tendo encontrado refúgio em nenhum outro país, retornou à Índia onde, sob o nome de Osho, fundou uma nova seita, que aliás se difundiu em diversos países, entre eles a França.
Muito mais importante que a precedente (mas pouco escandalosa), ainda ativa e muito variada em suas atividades, é a Siddha Yoga Dham of America (SYDA) – também chamada Siddha Yoga –, fundada pelo swami Muktananda (1908-1982), que chegou a Nova Iorque em 1971. Este movimento tem atualmente sua sede em South Fallsburg, perto de Nova Iorque, e conta com numerosos centros na América e em outras partes do mundo. Discípulo do misterioso Nityananda, de Ganeshpuri, Muktananda, cujo ensinamento se fundamentava do ponto de vista doutrinal no shivaismo não dualista caxemirense (referindo-se especialmente a Abhinavagupta), sublinhava como este último a importância da graça divina – ou mais exatamente da descida da energia (shaktipata) – sobre o discípulo para conduzi-lo à iluminação. Essa energia é a da Deusa, Shakti Kundalini, presente também no ser humano, cuja evolução salvífica deve realizar-se em particular pela transformação da energia sexual em energia espiritual – operação não isenta de riscos de desvios, mas cujo princípio corresponde ao espírito do tempo.
O SYDA, atualmente dirigido por uma discípula de Muktananda, Gurumayi Chidvilasananda, tornou-se rapidamente um empreendimento muito importante e bastante rico, reunindo em seu centro certo número de adeptos iniciados permanentes, swami (homens e mulheres), que têm função espiritual e de ensino, e diversos permanentes encarregados das atividades correntes materiais ou comerciais, assim como das de ordem social (o Siddha Yoga possui diversas fundações) ou intelectual, que estão longe de ser negligenciáveis. O movimento conta além disso, evidentemente, com numerosos participantes, afiliados ou clientes, mais ou menos envolvidos, que formam a massa de seus membros nos Estados Unidos e no restante do mundo.
Diferentemente de Rajneesh, que rompe com o mundo, o Siddha Yoga mantém relações com os meios universitários: alguns professores universitários americanos são membros, outros são convidados a ministrar conferências. Assim se viu a American Academy of Religions, instituição perfeitamente respeitável, reunir em uma de suas sessões, em 1999, partidários e críticos do SYDA, com o tema “Who speaks for Siddha Yoga?”. Este aspecto de sua atividade assumiu também a forma, sob o título de Muktabodha Institute e de Muktabodha Digital Library, da digitalização e disponibilização em linha de numerosos textos tântricos: ali se encontram não somente todos os volumes da Kashmir Series, mas também tantras importantes, alguns dos quais dificilmente acessíveis de outro modo. Esse trabalho, que prossegue sob a direção de universitários indianos e europeus, pela digitalização dos acervos de várias bibliotecas da Índia (entre as quais a do Institut français de Pondichéry), é muito útil para os pesquisadores.
O SYDA, movimento de extensão mundial, apresenta-se assim bastante diversificado. Não escapou à crítica, sem dúvida por vezes justificada, mas é em todo caso o mais importante de seu gênero, típico da expansão e da inserção do tantrismo em um mundo capitalista de mercado cujo hedonismo, culto do corpo (um corpo sexuado!) e do dinheiro carece, todavia, de valores espirituais – sobretudo se se lhe oferece a possibilidade de atingi-los sem renunciar ao prazer.
Deve-se assinalar igualmente aqui o Nityananda Institute, que se encontra em Portland, Oregon, e cujo ensinamento se fundamenta, como o do Siddha Yoga, no shivaismo caxemirense, reivindicando, como este, Nityananda, embora considere ter melhor conservado sua doutrina e observâncias. Ele nasceu de uma ruptura com Muktananda, de quem seu fundador, Rudrananda (um americano, Albert Rudolf, “Rudi”), havia sido inicialmente discípulo. Não se difundiu muito e reúne uma pequena, mas ativa comunidade cujos membros, embora vivendo em comum, permaneceram no mundo. Ele também recebe de bom grado indianistas universitários, pois para si isto é um sinal da qualidade intelectual e da seriedade de sua atividade. É um movimento menos espetacular e, ainda que disponha de recursos financeiros apreciáveis, relativamente menos vinculado ao mercado do que o SYDA. Mas é igualmente típico do tantrismo no mundo capitalista americano.