PEREIRA DA COSTA, Dalila L.. O Esoterismo de Fernando Pessoa. Porto: Lello, 1971
A sua temática, os polos principais sobre os quais se concentra a sua meditação, foram em grande parte os do platonismo. Houve uma primeira intuição pessoal do poeta e posteriormente foi colhida, mas intrinsecamente, neste pensamento, (com algumas incursões no neoplatonismo), a confirmação desta intuição; aí ela se aprofundou e desenvolveu. Deu-se como o encontro e contacto de dois pensamentos, afins em muitos pontos e ideais; e o que era estimativa e intuição atingida «a priori», sofreu no platonismo um maior aprofundamento; e foi vazada nos seus moldes. Ele foi o seu factor de estruturação. Deu-lhe a possibilidade dum enquadramento num contexto altamente formulado e que por si mesmo era a um tempo teoria do conhecimento, visão do mundo e princípio de salvação: assim também para o poeta os termos tinham sido inseparáveis.
Aqui, também, conhecer é recordar; o verdadeiro conhecimento vem, não da percepção, mas da reminiscência; na experiência sensível, os seus dados permitem acordar somente o que estava já na alma: tudo se passa sempre como nesse templo: «Mas o ritual a que assisto / É um ritual de relembrar.» A alma é imortal, pois contém nela, tira do seu fundo, as verdades que conheceu na eternidade; a vida presente é uma queda neste mundo («Aconteceu-me do alto do infinito / Esta vida»), exílio da pátria anterior, verdadeira, onde vivemos a preexistência («medonho / Abismo de quem sou em Deus, do meu / Ser anterior a mim...») E uma queda neste corpo, onde a alma vive como numa prisão, «Vera alma (...) Atada pelos braços corporais»... E como todo o ser individual, existindo em participação, em relação com a sua essência transcendente. «Mar sou; baixo marulho ao alto rujo, / Mas minha cor vem do meu alto céu, / E só me encontro quando de mim fujo.»; «Longe de mim em mim existo / À parte de quem sou / A sombra e o movimento em que consisto.»
E neste exílio, ou existência dupla, as reminiscências são os tesouros que aqui possui, trazidos dessa outra terra, dessa pátria divina. Assim, no momento de relembrar, do despertar supremo, na Ode Marítima; «Ah, quem sabe, quem sabe, / Se não parti outrora, antes de mim, / Dum cais; se não deixei, navio ao sol / Oblíquo da madrugada, / Uma outra espécie de porto?» Serão as reminiscências, as que lhe darão o conhecimento do absoluto. Uma visão do mundo e da vida, que um dia, perto do seu fim, no ano anterior à sua morte, ele diria ainda numa plena formulação, em versos que são uma poética versão do Mito da Caverna:
Neste mundo em que esquecemos
Somos sombras de quem somos,
E os gestos reais que temos
No outro em que, almas, vivemos,
São aqui esgares e assomos.
A mesma aspiração ao transcendente perpassa e informa toda a sua obra, tal como no platonismo; e o mesmo acentuado sentimento religioso, como tonalidade própria. A mesma eleição do mito como manifestação privilegiada e forma de transmissão daquelas realidades, que de tão profundas e escondidas trazem em si a marca do inefável. Neles, o poeta dirá, as que existem no cerne do seu ser próprio, como a sua mitologia individual, e aquelas que ele adivinhou no cerne desse outro ser, o da sua pátria. Atingindo e encarnando assim na sua obra, aquele fim que um dia ele viu e confessou como o supremo aqui a realizar.
«Desejo ser um criador de mitos que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» (Páginas Intimas e da Auto-Interpretação, de J. do Prado Coelho e G. Rudol Lind, pág. 100).
Mas vendo este pensamento na perspectiva nacional, vendo o poeta como captador e transmissor das vozes informuladas da sua raça (e assim num outro contexto psicológico e cultural mais vasto), e no pensamento de quem se fez e se realizou a formulação duma consciência colectiva — qual foi a problemática e as estimativas comuns que surgiram nele em total identidade e quais as que aí sofreram um ultrapassamento ou metamorfose?
Um singular pensamento que entre todos aqueles dos poetas da sua nação, permitiu e realizou um dos maiores alargamentos de limites de visão do mundo que jamais se deram na sua cultura—poder-se-á dizer que nele esta cultura sofreu uma espiritualização? Pois que aqui dá-se uma visão essencialmente realista, mas contendo no seu domínio o supra-sensível e concedendo-lhe o primado na valorização do real.
Através de Fernando Pessoa chega-nos o testemunho sobre planos do real comumente fechados à percepção e à estimativa desta cultura. Neste poeta e por ele, uma mais profunda visão, pluridimensional, é-lhe concedida. Um enriquecimento, por uma conquista de novos planos, que assim na época moderna fazem a sua entrada aí. Poder--se-á dizer que na poesia de Pessoa este processo de espiritualização anunciará já a modalidade da poesia actual deste povo?
No pensamento do poeta, deu-se assim como um movimento que foi mais que um alargamento daquele outro, o da sua nação; mas antes um seu ultrapassamento, numa inversão de perspectiva, surgindo diferente da forma do seu conhecimento, que apreende e pretende conhecer só o real imediato. E procurando somente nele a verdade desejada, por um conhecimento empírico; o que lhe permitirá exercer o seu poder sobre esse real; ideal que foi formulado no clímax da sua história e cultura, pelas palavras do navegador e homem de ciência, Duarte Pacheco Pereira: «a experiência, que é madre das coisas, nos desengana e de toda a dúvida nos tira». O movimento cognitivo e a procura do poeta mostra-se efectuada por outros caminhos de conhecimento e visando uma outra finalidade, não a científica e pragmática; numa posição à qual este pensamento nacional é habitualmente estranho; pois que ele procura um outro mundo para além do real sensível, ultrapassando este pensamento ao qual um historiador brasileiro, referindo-se aos escritores da época dos descobrimentos, chamou a «cauteloso e pedestre razão lusitana». (Sérgio Buarque da Holanda, Visão do Paraíso).
À forma de conhecer de Pessoa, poder-se-á chamar um certo experimentalismo, mas que não se exerce sobre os dados do mundo sensível. Estes, serão unicamente como uma subestrutura na representação simbólica, sobre a qual se erguerá o seu pensamento, ultrapassando-os. Assim, a sua experiência, realizando-se, não ao nível sensível mas num outro, inatingível para os sentidos, aqui o poeta se mostrará, como voz da sua nação, diferente dela na posição que toma em face do real e na sua captação, nos seus desígnios e valorização do conhecer.
Mas será o mesmo poeta o que aparece numa tal ligação com ela, concentrando em si e dando expressão a alguns dos seus temas, os mais profundos, perenes e específicos: a saudade, o messianismo, a «alma atlântica...» Não é a saudade empossada aqui na sua poesia do mais alto valor e significação, a um tempo cognitivo e cósmico: o testemunho dum outro mundo, da existência anterior e primitiva que aí foi vivida e do conhecimento absoluto que aí se possui? Não evocou e cantou o poeta, o messias da raça, o «Encoberto», como aquele a quem incumbe a obra salvadora para essa nação e para o mundo, abrindo e estabelecendo uma nova era?
E não é através da sua alma atlântica, da vida marítima que, numa das suas mais altas experiências, aquela memorizada na Ode Marítima, o poeta obteve um dia a realização do seu ser, tal como a sua nação o tinha obtido na história?
Como seu grande poeta, ele transporta na obra a reflexão sobre a sua problemática; mas esta problemática específica, aparece aqui, mais como o reassumir de fontes esquecidas ou abandonadas. Pois que esta obra, transportará em si mesmo, um certo espírito que será mais aquele da sua cultura medieval que moderna. No seu humanismo de referência transcendente, no seu teocentrismo, Pessoa surge talvez como o poeta mais tradicionalista da sua comunidade, aquele que restabelece a ligação dum ser e dum conhecer que outrora existiram no seu cerne, mas que, a partir duma certa época, foram abandonados ou abafados. Não é Pessoa, o novo poeta da Demanda do Graal? Esse livro tão especificamente nacional, que sobressai na cultura portuguesa medieval, e ultrapassando mesmo os limites históricos desta época, perdura por séculos, nesta cultura, encarnando-se e surgindo, não em formas puramente literárias ou eruditas, mas em formas vividas, integradas na trama da existência deste povo, nas suas mais fundas estimativas. Esse livro que concentrava em si mesmo em forma paradigmática, o seu anseio mais profundo: aquele da salvação.
Nesta consciência duma cultura, que se dá aqui no poeta, não avançando generalizações ousadas, poder-se-á dizer que nela surgem e predominam mais os substratos celtas (os que tão vivos foram no período medieval), desta etnia, que os latinos. Estes aparecerão aí fracamente, se forem vistos como uma certa ausência de tendências metafísicas; como uma atitude de perfeita aderência ao real quotidiano de espírito positivo e pragmático; uma certa forma desmitizada de conhecer e de sentir, de manipular o real e de conceber o divino; e na relação com o divino (que é fundamentalmente cultuai), deixando sempre subsistir uma nítida separação entre a sua esfera e a esfera humana. Não são também os mesmos substratos que se poderão eleger como aqueles caracterizando esta cultura na sua feição post-renascentista?
Mas, mais acusadamente, aparecerá no pensamento do poeta, a valorização do invisível visto como realidade objectiva, e a sua procura; uma existência que se processará naturalmente nesse invisível, o Outro Mundo; a predominância da imaginação no pensamento, como faculdade de poder cognitivo; a modalidade irracional deste pensamento; a forma mitológica que de preferência ele toma, um certo espírito anti-histórico; a ausência de afastamento, ou melhor, de oposição, entre o divino e o humano: mas antes, a sua interferência e comunicação, directa e frequente; a nostalgia do invisível (e por vezes, do impossível), que tomará a forma ou nome de saudade — essa que em si mesma será a mais vasta, específica e predominante forma da sua faculdade de sentir: plasmadora importante de raiz existencial.