PÉTREMENT, Simone. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Os "Poderes" no Novo Testamento
Segundo os autores do Novo Testamento, particularmente segundo Paulo Apóstolo, o mundo é dominado por “potências”, que eles normalmente descrevem como más ou ao menos ignorantes. Paulo fala frequentemente de certas “autoridades”, às quais parece atribuir o domínio do mundo e que considera como mais ou menos inimigas de Cristo e dos cristãos. Ele fala, por exemplo, dos “governantes desta era”, que não conheceram a Sabedoria de Deus e que, por essa ignorância, “crucificaram o Senhor da glória”. Em outro lugar, fala dos “dominadores desta escuridão presente”. É claro que aqui ele se refere às potências que governam o mundo. Às vezes fala, de modo mais vago e misterioso, de “principados” (archai), de “domínios” ou “autoridades” (exousiai), de “potências” (dynameis) e de “senhorios” (kyriotetes). Na Epístola aos Efésios, essas potências estão ligadas aos “governantes do mundo”. Em outras epístolas, vê-se que elas foram vencidas pela crucificação de Cristo e que serão destruídas por ele ainda mais plenamente no fim do mundo. Certamente, na Epístola aos Colossenses, diz-se que elas foram criadas por Cristo e para ele (como todas as coisas criadas) e que ele é sua “cabeça”; mas é evidente que, em certo momento, elas se extraviaram, pois nessa mesma epístola ele teve de vencê-las. Paulo fala também de anjos, e esses anjos às vezes parecem ser potências cósmicas. Ele fala também de “pretensos deuses”, cuja divindade — mas não, ao que parece, existência — ele nega. Sem dúvida, cumpre reconhecer também potências cósmicas de certa espécie nos “elementos do mundo”, que Paulo parece assimilar aos deuses na Epístola aos Gálatas e aos anjos na Epístola aos Colossenses. Finalmente, podem-se citar outras expressões paulinas que parecem referir-se às potências cósmicas invisíveis, e dificilmente há uma de suas epístolas em que esse tipo de ser não apareça sob uma forma ou outra.
É legítimo pensar que sempre se trata do mesmo tipo de seres? Não poderiam os nomes que acabamos de citar referir-se, às vezes, simplesmente a autoridades sociais? Isso poderia valer para os “governantes desta era”. Mas, em geral, as potências a que Paulo se refere sob os nomes de principados, domínios e assim por diante não podem ser apenas autoridades sociais. Na Epístola aos Efésios, está escrito que as potências estão nos céus. Na Epístola aos Colossenses, elas parecem ser assimiladas aos anjos e aos “elementos do mundo”. Na Epístola aos Romanos, elas são associadas aos anjos, bem como à “altura” e à “profundidade” (palavras misteriosas que provavelmente se referem ao espaço supraterrestre e aos lugares subterrâneos). Na Primeira Epístola aos Coríntios, os supostos deuses estão “ou no céu ou na terra”. Na mesma epístola, a morte é incluída entre as “potências”. Cumpre recordar também que, na Bíblia grega dos Setenta, os nomes de potências, autoridades, principados e governantes são utilizados para designar seres angélicos. O mais provável — e creio que geralmente aceito — é que, em Paulo, esses nomes se refiram tanto às autoridades sociais quanto às potências da natureza, duas figuras de poder que podem agir em harmonia.
Às vezes Paulo parece atribuir às potências um chefe, ou substituí-las por uma única potência. Na Segunda Epístola aos Coríntios, ele fala do “deus desta era”, e na Epístola aos Efésios, do “príncipe da potência do ar”, expressão que sem dúvida se refere ao chefe das potências que reinam sobre a terra, embora não estejam no mais alto céu. Essa figura do chefe das potências antecipa a do “príncipe do mundo” (literalmente “arconte do mundo”) encontrada no Quarto Evangelho.
Paulo não é o único no Novo Testamento a falar de potências cósmicas que são espécies de anjos. O autor da Epístola aos Hebreus leva-nos a compreender que o mundo presente está submetido aos anjos quando escreve: “Pois não foi aos anjos que Deus submeteu o mundo vindouro, de que estamos falando.” Observamos que o autor do Quarto Evangelho fala do “governante do mundo”. Sem usar essa expressão, Lucas considera claramente o diabo como governante do mundo quando o faz dizer: “Dar-te-ei toda esta autoridade e sua glória; porque me foi entregue, e eu a dou a quem quiser.” Mateus expressa a mesma ideia. Além disso, Lucas parece pensar que, até certo momento da pregação de Cristo e de seus apóstolos, Satanás tinha sua morada no céu acima da terra. A mesma ideia se encontra no Quarto Evangelho e novamente no Apocalipse, onde o diabo (o dragão) é expulso do céu com seus anjos e lançado sobre a terra depois que a criança, isto é, Cristo, foi conduzida diante de Deus. Na Primeira Epístola de Pedro, diz-se de Cristo que ele subiu ao céu, “tendo sido submetidos a ele os anjos, domínios e potências”.
A questão que às vezes se levanta, a saber, se, aos olhos dos primeiros cristãos, as potências eram boas, más ou neutras, é bastante fácil de resolver. Na grande maioria dos textos, elas são evidentemente más. Os únicos textos duvidosos são os da Epístola aos Colossenses, onde elas aparecem como submetidas a Cristo; mas, como vimos, nessa mesma epístola está escrito que Cristo as venceu. Na Primeira Epístola aos Coríntios, elas são chamadas inimigas de Cristo, e na Epístola aos Efésios, espíritos do mal. O “deus desta era”, o “príncipe da potência do ar”, o “príncipe do mundo”, o dragão do Apocalipse são evidentemente maus, e assim também, para Mateus e Lucas, é o diabo, senhor dos reinos deste mundo.
Podemos, portanto, ver que, para os escritores do Novo Testamento, o mundo é dominado por forças visíveis e invisíveis que são mais más do que boas. A presença dessa concepção em seu pensamento é quase indiscutível, e pensamos que ninguém a negaria. O que não se percebe, porém, é a importância dessa concepção e sua ligação essencial com a teologia de Paulo e de João. Frequentemente ela é considerada resultado da dependência de Paulo e João em relação a seu tempo, e pensa-se que essa dependência concerne a uma parte subordinada, não essencial, de seu pensamento. Mas, como observou Cullmann, “ao considerar que todas essas questões são mais ou menos subordinadas e formam um contexto determinado pelas concepções da época, a maioria dos comentadores estabelece uma distinção arbitrária entre afirmações centrais e afirmações secundárias. Cumpre repetir que há apenas um critério objetivo para determinar o que é essencial: as primeiras confissões de fé. Ora... nessas breves sínteses da verdade revelada, os primeiros cristãos mencionam quase sempre as potências invisíveis.”
Cumpre recordar ainda que G. Aulén mostrou que, no Novo Testamento e na Igreja antiga, a teoria da redenção e a cristologia estão estreitamente ligadas à descrição das potências. Ele mostrou que a teologia da redenção que se tornou quase clássica no Ocidente desde São Anselmo não era a teoria da Igreja antiga nem a do Novo Testamento. “A Igreja antiga”, escreve ele, “tem um único grande leitmotiv que reaparece constantemente: o Christus victor, Cristo combatendo e triunfando sobre os ‘tiranos’, as potências hostis a Deus.” Embora admitindo que numerosas teorias da redenção foram sustentadas desde o início, H. E. W. Turner escreve, a propósito da imagem do Christus victor: “A importância central desse aspecto da doutrina da Redenção dificilmente pode ser superestimada.”