Excerto do livro "PITÁGORAS E O TEMA DO NÚMERO", Mário Ferreira dos Santos, Editora Logos, 1960.
Não pretendemos alongar-nos no relato da lenda pitagórica, o que fazemos em nossa edição comentada dos "Versos Áureos" de Pitágoras.
Não que consideremos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa, porque há, nessas descrições, sem dúvida, muito de histórico e de verdadeiro. O difícil, porém, está em poder separar o que é histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos.
O fato de negar-se, peremptoriamente, a historicidade de Pitágoras, (como alguns o fazem) por não se ter às mãos documentação bastante, não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia, cuja influência atravessa os séculos até nossos dias.
Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare, cuja existência foi tantas vezes negada. Se não existiu Pitágoras de Samos, houve com certeza alguém que construiu essa doutrina, e que, por casualidade, chamava-se Pitágoras. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. Mas, pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores, que preferem declará-lo como não existente, como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação, vamos a seguir relatar algo, sinteticamente, em torno dessa lenda, que muito nos auxiliará para o estudo que ora empreendemos neste livro.
Em 1917, perto de Porta Maggiori, sob os trilhos da estrada de ferro, que liga Roma a Nápoles, foi descoberta uma cripta, que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. Posteriormente, verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio, por volta de 41 a 54 D.C., e que nada mais era do que um templo, onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa, que, afinal, averiguou-se ser pitagórica. Sabe-se hoje, com base histórica, que antes, já em tempos de César, proliferavam os templos pitagóricos, e se essa seita foi tão combatida, deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas ideias. Numa obra, hoje cara aos pitagóricos, Carcopino (La Basilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras, os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história, durante vinte e cinco séculos, essa ordem, que ainda existe e tem seus seguidores, embora esteja, em nossos dias, como já esteve no passado, irremediavelmente infectada de ideias estranhas que, a nosso ver desvirtuam, como iremos provar, o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos.