PUECH, Henri-Charles. En torno a la gnosis. Madrid: Taurus, 1982
A Percepção Ocidental do Tempo como Linear e Cristocêntrica
- A concepção do tempo e da história como uma linha reta, onde os eventos se sucedem de forma irreversível, é percebida como natural e imediata pela sensibilidade ocidental moderna.
- A cronologia ocidental, sistematizada a partir do século XVIII, organiza os anos a partir de um ponto central: o nascimento de Cristo.
- Os anos são contados de forma decrescente para o passado (antes de Cristo) e crescente para o futuro (depois de Cristo ou Anni Domini).
- Desta forma, a história total do mundo ordena-se em função do advento de Cristo, que serve como desembocadura do período anterior e ponto de partida do período subsequente.
A Origem Cristã e a Originalidade desta Visão
- Ambas as concepções — a linearidade do tempo e a cronologia cristocêntrica — foram impostas pelo Cristianismo e constituem elementos essenciais da sua visão do mundo e do destino humano.
- Apesar de atualmente parecerem banais, estas ideias foram, no seu momento de origem, novas e até revolucionárias, contrastando fortemente com as ideias dominantes nos ambientes onde o Cristianismo se desenvolveu.
O Contraste com a Visão Helénica Cíclica do Tempo
- O helenismo concebe o desenrolar do tempo como cíclico e não retilíneo.
- Dominado por um ideal de inteligibilidade que associa o ser autêntico ao eterno e imutável, o helenismo considera o movimento e o devir como graus inferiores de realidade.
- O movimento circular, que assegura a manutenção das coisas através da sua repetição, é a expressão mais perfeita e próxima do divino, imitando a eternidade imóvel, conforme definido por Platão.
- O devir cósmico desenrola-se em ciclos ou numa sucessão indefinida de ciclos (aiones, aeva), onde a mesma realidade se faz, desfaz e refaz de acordo com leis imutáveis.
- Alguns pensadores do final da Antiguidade, como pitagóricos, estoicos e platónicos, admitiram que em cada ciclo se reproduzem exatamente as mesmas situações e os mesmos indivíduos dos ciclos anteriores e futuros (eterno retorno).
Consequências da Visão Cíclica: Sem Começo, Fim ou Sentido Único
- Num círculo, não há um ponto absoluto de começo, meio ou fim; todos os pontos são relativos.
- Não há, portanto, um começo ou fim absoluto do mundo, que é considerado eterno, tornando inconcebíveis as noções de Criação ou Consumação do universo.
- O tempo não pode ser representado por uma linha reta limitada por um evento inicial e outro terminal.
- O tempo não tem uma direção ou sentido absolutamente definidos; a anterioridade e a posterioridade cronológicas são relativas (e.g., podemos ser posteriores à Guerra de Troia num ponto do ciclo, mas anteriores noutro).
- O problema da novidade na história nem se coloca, pois tudo se repete identicamente.
A Incapacidade Helénica para uma Filosofia da História
- Ao contrário do Cristianismo, o helenismo nunca elaborou uma verdadeira filosofia ou teologia da história.
- Tardiamente, autores como Políbio e Diodoro explicaram a convergência dos factos históricos pela ação natural da Tyché (Fortuna) ou do Acaso, ou reconstituíram o devir histórico através de ritmos ainda cíclicos.
- Platão, por exemplo, especulou sobre modelos ideais de estados, deduzindo uma sucessão necessária que representava antes "leis de decadência" do que de desenvolvimento; a história dos governos é a história de uma corrupção a partir de um estado ideal primitivo.
- O sentimento fundamental da Grécia perante o tempo era o de que o tempo equivale a degeneração e, a fortiori, não pode haver um progresso contínuo, uma vez que a perfeição reside num mundo de Essências inteligíveis e intemporais.
Razões para a Ausência de uma Filosofia da História no Helenismo
- O filósofo helénico não se interessa pelo singular, individual ou contingente; a ciência abstrai os aspectos gerais e reproduzíveis, desprezando a matéria única.
- A concepção cíclica, onde os acontecimentos se repetem e não há anterioridade ou posterioridade absolutas, impede a existência de um ponto central de referência único.
- Sem um evento único e irrepetível, é impossível definir de forma absoluta e ordenar um passado e um futuro históricos com um sentido igualmente único e irreversível.
O Mito como Expressão do Intemporal no Pensamento Tardio
- Filósofos da Antiguidade tardia, como Plotino, Proclo, o imperador Juliano, Saloustios ou Olimpiodoro, interpretavam o mito não como história temporal, mas como uma expressão falaz, convencional e simbólica do intemporal.
- Através do método alegórico, descobriam nos mitos, sob símbolos sensíveis e imagens, realidades físicas permanentes ou verdades imutáveis do mundo transcendente.
- O mito resolve-se, assim, no intemporal.
- Ele simula uma gênese e um devir, expressando discursivamente e com uma aparente sequência temporal o que, na realidade, é uma simultaneidade ontológica e eterna.
- Saloustios, referindo-se ao mito de Attis, afirma que os eventos descritos não aconteceram num passado, mas existem assim desde toda a eternidade; a palavra expressa-os sequencialmente, mas a inteligência contempla-os sempre juntos. O mesmo se aplica ao mito do Timeu.