SCHAYA, Leo. Naissance à l’esprit. Paris: Dervy-Livres, 1987.
A única coisa real é a suprema coincidência de opostos, a eterna não-dualidade de todas as coisas, sua identidade essencial e absoluta. Toda coisa distinta se opõe, à sua maneira, a toda realidade da qual se distingue; é por isso que sua suprema coincidência ou identidade absoluta está situada onde não há mais nenhuma distinção, nem mesmo aquela entre Ser e Super-Ser: está situada no próprio Super-Ser que, dentro de sua Realidade não-causal, não-manifestada e incondicionada, contém indistintamente o Ser causal e todas as suas possibilidades manifestáveis ou existenciais.
Lá, tudo é indiferentemente absoluto, tudo é o Absoluto, até mesmo a possibilidade da matéria perecível. Em sua natureza ontológica, essa possibilidade é a da própria receptividade do Ser ou Espírito e, em sua atualização cósmica, o receptáculo transitório deste último. De natureza passiva, ela está destinada a ser espiritualizada, sem nunca se tornar Espírito, que é puro ato; no final, ela só pode se dissolver nele, para se tornar mais uma vez sua receptividade pura e oculta. Mas esta última, por sua vez, se identifica com o Absoluto, onde toda distinção entre Espírito e sua receptividade, entre Espírito e matéria, entre atividade e passividade, é superada.
O mesmo é verdade, como acabamos de ver, para todas as outras realidades antinômicas, seja o Ser e o Eu Superior ou, em menor grau, o Ser e a existência criada. O criado, o “servo” como tal, nunca será o “Senhor”; mas este último o absorverá em si mesmo e o absorverá consigo mesmo, em sua Essência comum e absoluta. Lá, não haverá nem Senhor nem servo, nem Espírito nem matéria, mas seu único Super-Ser, não dual e o único Ser real. Lá, 168 na escuridão mais do que luminosa do Superinteligível, está a Libertação de tudo o que é inteligível ou ininteligível, ativo ou receptivo, de toda condição de ser e saber, a condição correlativa da escuridão inferior.
É a Isso que o homem espiritual aspira, é por Isso mesmo que ele é aspirado, em sua busca interior, que é uma busca pelo Absoluto no sentido mais pleno do termo. Nessa busca, ele passa da ignorância para o conhecimento, da obscuridade espiritual para o nascimento no Espírito e, por meio do Espírito, para a própria Essência superinteligível deste último, para Aquilo que transcende o Espírito ou o Ser inteligente e inteligível. Na 'contemplação obscura', ele retorna ao 'Nada' divino ou Não-Ser, à identidade absoluta com o Super-Ser, o único Ser absolutamente Verdadeiro e Real. Como vimos, ele diz: “Nas Tuas mãos entrego o meu espírito; Tu me livrarás, YHVH, Deus da verdade” (Salmo, XXXI, 6). É a Verdade suprema que livra o homem de tudo o que não é o Absoluto, mesmo o espírito, na medida em que ainda implica qualquer condição de ser e de saber: pois essa Verdade é a da Essência superontológica e superinteligível de todo ser e de todo saber.
É por isso que afirmar o Deus da verdade, amar a Verdade que liberta, amá-Lo no mais alto grau, é, como diz Mestre Eckhart, “amá-Lo sem espírito; isto é, sua alma deve estar sem espírito e despojada de toda espiritualidade, pois enquanto sua alma tiver forma espiritual, ela ainda tem uma figura. Enquanto ela ainda tiver uma figura, ainda envolverá mediação; enquanto envolver mediação, não terá unidade ou simplicidade. Enquanto não tiver simplicidade, ela ainda não amou a Deus como Ele deve ser amado (Ele que, sendo pura Unidade, é extrema Simplicidade); pois amar como se deve, depende da unanimidade. É por isso que sua alma deve ser despojada de todo espírito, ficar sem espírito (não para se tornar antiespiritual, mas para restaurar sua própria essência espiritual à sua absolutez, onde não há mais nada relativo, onde há apenas identidade com a pura Essência de Deus, com o inefável e superinteligível Super Ser, que transcende tudo o que se chama criatura ou Deus). Pois se você ama a Deus na medida em que Ele é Deus (Ser causal), na medida em que Ele é Espírito (Ser inteligente e inteligível), na medida em que Ele é (uma) Pessoa (divina), na medida em que Ele é (uma) Figura (um Arquétipo), — tudo isso deve desaparecer. “Como então devo amá-Lo?” Você deve amá-Lo como Ele é (em Si mesmo, em Sua Essência absoluta, que também é sua), um não-Deus, uma não-Mente, uma não-pessoa, uma não-figura, melhor ainda: Unidade límpida, pura e clara, alheia a toda dualidade. E nessa Unidade (ou Não-Dualidade, que é a Identidade suprema e absoluta de tudo o que existe), devemos afundar eternamente do Ser ao Nada (ao Não-Ser ou Super-Ser, que é o Nada de todo o Nada: pura Realidade)...”. [Sermão 42: Renovamini spiritu mentis vestrae (Eph., IV, 23), em Deutsche Predigten und Traktate, pubi. J. Quint, Munique, 1963, p. 355].