A manifestação universal comporta um modo nitidamente distinto da afirmação, a saber, a submissão, que engloba igualmente todos os seres; pode-se, por conseguinte, realmente dizer que tudo é afirmação, isto é, conhecimento sob o modo afirmativo? Ao que se responderá: o ser é submetido ao mesmo tempo que afirma, e inversamente, sem que os dois atributos se confundam. A afirmação e a submissão são seguramente distintas; mas as duas são complementares e uma se reduz essencialmente à outra. A submissão, com efeito, é como a modalidade secundária da afirmação; pois para poder se submeter, é preciso existir. A criatura, na medida em que não é manifestação de Deus, é submissão a Ele; ela afirma assim por sua submissão, e se submete em sua afirmação; isso mostra que a submissão, longe de contradizer a afirmação, está compreendida nesta. O Universo afirma a Realidade suprema e Lhe é submetido por isso mesmo; ele Lhe é submetido, como Ela é, por assim dizer, submetida à Sua própria Natureza.
(2) O homem, para estar em acordo com ele mesmo, deve se submeter conscientemente e voluntariamente, sua existência mesma sendo submissão por definição. Ele deve se submeter à sua própria realidade que é no fundo a Realidade una e suprema, a única que seja; e como o mundo que nos cerca é essa mesma Realidade pelo mistério da manifestação do Verbo, deve-se também se submeter ao mundo; essa submissão, ela também, é Conhecimento, segundo o modo próprio ao aspecto passivo das criaturas. O homem deve se submeter ao mundo não na medida em que este é mundo e na medida em que o homem é Conhecimento divino e Verbo, mas ao contrário na medida em que ele, o homem, não é senão homem, e na medida em que o mundo é Realidade divina e Verbo. Esta submissão é a conformidade ao destino, pois é por seu aspecto de destino que o mundo é Verbo diante do ego; é neste sentido somente que o mundo exige a submissão. É por isso que é dito: "Se alguém te fere na face direita, apresenta-lhe também a outra"; não é ao inimigo enquanto tal que se deve estender a face esquerda, mas ao inimigo enquanto destino, portanto enquanto ex-pressão do Verbo.
(3) Agora, da mesma maneira que, conhecendo a divina Realidade, sabe-se que o mundo e nós mesmos, não se é nada além dela, da mesma maneira, afirmando a divina Realidade, afirma-se também o mundo na medida em que ele se identifica essencialmente a Ela; e afirma-se também a si mesmo na medida em que, idênticos aliás ao mundo, se é essa mesma Realidade. É por isso que é dito: "Ama teu próximo como a ti mesmo"; e isso implica que o homem deve se amar. Ora, o homem não pode se amar na medida em que não existe, pois só se pode amar o que é; mas como nossa existência não é em definitivo nada além do Verbo, e que o Verbo não é nada além da divina Realidade, e que não há nada a não ser Ela, só se pode amá-La. Amando-A, o homem se ama, e amando a si mesmo, ele A ama. Se o homem não se amasse a si mesmo, ele não amaria a divina Realidade, já que ele não é nada além dela. "Quem conhece sua alma, conhece seu Senhor", da mesma forma, afirma seu Senhor quem afirma sua alma, isto é, quem a salva; pois, quem se ama verdadeiramente se salva, e quem quer se salvar deve se amar. Mas da mesma maneira que esta afirmação do Senhor implica a negação do que nega o Senhor, - em virtude da negação contida na Infinidade mesma do Senhor, - da mesma forma a afirmação espiritual do mundo - na medida em que ele é o Senhor - implica a negação da imperfeição, que está no mundo a título de parte, jamais a título de totalidade; deve-se afirmar o mundo na medida em que ele é o Senhor pelo mistério do Verbo, e não na medida em que ele não é o Senhor. Ele não é o Senhor, na medida em que ele é o nada segundo a necessidade da Infinidade; o mal é o nada que existe. E da mesma forma, afirmando a si mesmo na medida em que se é o Senhor pelo mistério de nossa existência que não é senão a transcrição de Seu Nome, deve-se negar a si mesmo na medida em que não se é o Senhor. Se não se negasse o nada em si mesmo, afirmar-se-ia que o nada é, e "toda casa dividida contra ela mesma cairá". Negando o nada, afirma-se, e afirmando, nega-se o nada. É por isso que é dito: "Quem quer guardar sua vida, a perderá"; pois querer guardar a vida, é afirmar o nada. Afirmando o nada, o homem se torna nada - pois se torna o que se ama; mas este homem se torna o nada que existe, o que existe não podendo cessar de existir; e o homem existe. O homem não se tendo criado, ele não pode tampouco se aniquilar; ele não pode senão se condenar. A condenação é a identificação com o nada que existe.
(4) Se é Verbo graças a nossa existência; e como se deve se submeter ao Verbo, Em Sua Essência pura como Em Suas manifestações, deve-se também ser submetido ao Verbo na medida em que ele é a si mesmo. Ora, é Verbo em si mesmo o que, em nosso ego, é inevitável e destino. O homem deve se submeter ao Verbo na medida em que este é destino, mas o homem participa igualmente de seu destino de uma maneira ativa, e isso na medida em que o homem é ele mesmo Verbo por sua afirmação existencial. Um destino qualquer é uma manifestação do Verbo na medida em que este se identifica ao mundo; mas um destino que afeta nosso indivíduo como tal, independentemente do mundo que nos cerca, é uma manifestação do Verbo, não no mundo, mas no ego; assim, é preciso distinguir um destino externo e aparentemente evitável, e um destino interno e aparentemente inevitável: um destino que se encontra e um destino que se é. Pode-se com efeito evitar uma doença a curando, ao mesmo tempo que se lhe permanece submetido na medida em que, manifestação do Verbo, ela nos oprime; e não há nenhuma contradição entre esta submissão e o esforço de se libertar da doença, a submissão se endereçando ao destino como Verbo e o esforço à doença como tal, isto é, como negação de nossa afirmação corporal, que é igualmente Verbo em sua ordem; em contrapartida, não se pode de nenhuma maneira evitar nem nossa natureza física, nem nossa idade, nem nossa morte, pois tudo isso é a si mesmo; e não se saberia evitar a si mesmo, ao menos enquanto indivíduos. Entretanto, se se submete assim a seu ego, é ainda somente ao Verbo que se submete, e não à negação que é a determinação individual; pois, na medida em que se é negação em virtude desta determinação, deve-se evitar a si mesmo também: isso não é todavia possível no plano da individualidade, mas unicamente na extinção em Deus.
(5) Se o homem não fosse essencialmente Conhecimento segundo os modos fundamentais que foram descritos, seu objetivo não saberia ser o Conhecimento, pois só se pode se tornar o que se é. Se o Universo não fosse o Conhecimento, o caminho para a Realidade não poderia ser o Conhecimento. Como tudo é Conhecimento, e que não há nada a não ser Ele, - o Amor sendo igualmente conhecimento, - não há nada que possa conduzir a Ele, a não ser Ele.
(6) Se se diz: conhecemos tal coisa, quer-se dizer: a Divindade, na medida em que somos nós, conhece a Divindade, na medida em que tal coisa; de sorte que todo conhecimento é aquele que a Divindade tem de Ela mesma; e este Conhecimento é absoluta e infinita Plenitude.