No entanto, é impossível negar que o homem não se limita a conhecer, mas que ele age também, e que ele distingue forçosamente a ação do conhecimento; ora, se esta reflete a Realidade divina, a ação deve a refletir igualmente; se Deus não agisse, – ou antes, se ele não fosse de nenhuma forma Ato puro, – a criatura não saberia agir. Mas o Ato divino não é outro senão a expressão ou o modo secundário do Conhecimento divino. Da mesma forma que o Objeto divino do Conhecimento divino é suscetível da limitação que constitui o mundo, da mesma forma este Conhecimento Ele mesmo é suscetível de uma limitação universal: é a afirmação, o ato, que parece se opor ao Conhecimento como o mundo parece se opor a Deus; mas na realidade, o Conhecimento divino age, e o Ato divino conhece. Criados – ou “agidos” – por Deus, nós conhecemos; é por isso que, conhecendo, nós agimos. É porque a Onisciência divina nos conhece que nós existimos; nossa existência é a ciência que o Infinito tem de nossa possibilidade.
O sentido e a razão suficiente do homem é conhecer, e conhecer, é inelutavelmente conhecer a Divindade. Conhecendo a Divindade, o homem A afirma, A proclama, A ensina pela força das coisas, visto que a ação manifesta Deus por definição, e que a criatura não saberia portanto fazer nada que não afirme Deus de uma forma qualquer; da mesma forma, o ser age desde que ele vive, e sua ação é a manifestação de sua vida. A existência do homem, como a existência de todo ser, não tem nenhum sentido, se não for o de afirmação da Divindade. A Divindade afirma o homem dando-lhe a existência, e o homem afirma – e deve afirmar – a Divindade porque ele existe. Não afirmar a Divindade ou afirmar outra coisa que a Divindade não teria sentido senão se nós não existíssemos; ora, esta suposição é absurda, pois nós existimos.
O homem não pode, portanto, se impedir de afirmar a Divindade de uma maneira ou de outra, visto que ele existe. Se ele nega ou antes crê negar a Divindade, a existência mesma daquele que nega afirma O que ele nega. O homem pode dizer não, mas sua existência diz sim. Quem nega a Divindade nega sua existência, e ela lhe será retirada – porque ele a retira de si mesmo – sem que, no entanto, ela possa ser retirada efetivamente, ou seja, de outra forma que de uma maneira simbólica. Se acontece que seres negam inconscientemente sua existência negando conscientemente a Divindade, sem poder se retirar esta existência, não a tendo se dado, é ainda porque a Divindade é infinita, e que Sua afirmação deve retraçar igualmente, segundo seu modo próprio, esta Infinidade: com efeito, a Divindade, sendo infinita, comporta todas as possibilidades inerentes à Infinidade; ora, o nada é uma possibilidade, no grau que a Toda-Possibilidade lhe atribui, e Esta não pode, por definição, excluir nenhuma possibilidade. Se a Infinidade não comportasse o nada na medida da possibilidade deste, Ela seria limitada pela ausência deste nada, e não seria portanto Infinidade. Ora, o nada, embora sendo a impossibilidade, pode ser dito possível em um certo sentido, sem o qual ele não seria de forma alguma concebível, nem com mais forte razão expressável; ele não é, certamente, possível em si mesmo, pois em si mesmo ele não tem nenhuma realidade nem existência; mas ele é possível na Infinidade, e em razão Desta; em outros termos, se a Infinidade deixasse fora de Si Sua própria negação ou antes a aparência de Sua própria negação, Ela não seria Infinidade. A imperfeição não é nada de outro senão um aspecto necessário da Infinidade manifestada; a imperfeição existe, porque o Infinito é infinito, e que, por conseguinte, a inexistência da imperfeição limitaria a Infinidade que é, em relação a esta imperfeição, a Perfeição. A Imperfeição não existe de nenhuma maneira fora da Infinidade, não tendo em si mesma, como dissemos, nem realidade nem existência. O Verbo, que é a afirmação do Infinito, deve afirmar todos os aspectos ou todas as possibilidades deste. O Verbo deve, portanto, afirmar o mal, não como tal, mas como sombra necessária na afirmação cósmica do Infinito.
Todo ser é de alguma forma uma manifestação do Verbo, pois nenhum ser pode não afirmar a Divindade; todo ser comporta, portanto, a imperfeição, mas somente como parte, não como totalidade. O nada não é possível senão como parte, por relação ou relação, não em si. O Absoluto sozinho é absoluto, e se o nada não existe, é porque ele seria a ausência absoluta de realidade ou de existência; no entanto, a ausência relativa de realidade ou de existência existe, como dissemos, em razão da Toda-Possibilidade que deve incluir a possibilidade contraditória de Sua impossibilidade. A Toda-Possibilidade ou o Infinito comporta em sua própria substância a impossibilidade, e isso a título de afirmação inversa da Toda-Possibilidade; o nada é assim como uma propriedade secundária da plenitude. O vazio não existe no espaço, pois o espaço é plenitude já que o éter está em toda parte; mas o vazio é figurado no espaço pelos vazios relativos que manifestam e esgotam, por assim dizer, toda a possibilidade do vazio, que, em si mesmo, é impossibilidade. Se houvesse no espaço um vazio, este vazio não seria o espaço e não poderia, portanto, se encontrar no espaço; por conseguinte, não pode haver nenhum vazio no espaço, embora o espaço, em sua afirmação da Toda-Possibilidade, deva retraçar simbolicamente o vazio. A impossibilidade é impossível em si mesma, mas ela é possível na possibilidade, em razão da ilimitação desta. A impossibilidade ou o nada, ou o mal, é como uma mancha negra sobre um corpo branco; esta mancha negra significa a inexistência deste corpo, mas ela não pode diminuir nem limitar de nenhuma forma a existência deste corpo que é ele mesmo o plano de manifestação e de realidade da mancha. O mal não tem realidade senão a título de parte, e não em si mesmo, pois a Divindade sozinha é real em Ela mesma e por Ela mesma. Nada pode, portanto, se opor a Ela, pois a existência de um nada, na medida em que a Toda-Possibilidade lhe empresta uma existência ilusória, afirma a Divindade. Queremos dizer por isso que toda coisa afirma a Divindade, porque toda coisa é afirmada pela Divindade, e que o nada ou o mal não existem senão enquanto eles afirmam a Divindade; dizer que o nada existe é uma contradição, mas esta afirmação é evidente para aquele que compreende o sentido ontológico do nada. O mal, que é uma privação de bem, afirma inversamente a Divindade, por meio de uma relativa não-afirmação ou negação.