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id da página: 336 Frithjof Schuon O Olho do Coração Frithjof Schuon

Schuon Anjos (FSOC)


Observou-se mais acima que El-Arsh equivale a Buddhi; esta equivalência ressalta de uma maneira muito explícita da passagem seguinte do Manava-Dharma-Shastra (1,12-15): "No Ovo primordial (Hiranyagarbha), o Senhor (Brahma) permaneceu um ano divino, depois Ele fez com que o Ovo se dividisse em duas partes; e destas duas partes, Ele formou o Céu e a terra; no meio, Ele colocou a atmosfera, as oito regiões celestes e o abismo permanente das águas... E, antes do sentido interno (manas) e da consciência individual (ahankara), Ele produziu o grande Princípio intelectual (Mahat, Buddhi)..." - Estas oito regiões celestes correspondem à circunferência de El-Arsh; elas são constituídas, como esta, dos quatro pontos cardeais e dos outros pontos intermediários; os oito "Deuses" (Devas) que nelas presidem se identificam exatamente aos oito "Anjos" portadores do Trono (El-Malaikatu hamalat el-Arsh) que, eles também, são colocados nos pontos cardeais e nos pontos intermediários. O "abismo das águas" está situado sob o Céu, como o "mar" está situado sob o Trono do qual emana a "chuva"; enfim, Mahat se identifica ao Céu na medida em que este é o primeiro "lugar de Luz", portanto de alguma forma a "morada" de Mahat que este penetra, e a partir da qual Ele penetra e rege, como Trimurti, todos os mundos; da mesma forma, os quatro Arcanjos (Jibrail, Mikail Israfil e Izrail) habitam os dois sob a abóbada luminosa do Trono, e eles se identificam a este na medida em que ele abarca o conjunto de todos os mundos, e na medida em que eles são por assim dizer as "funções" do "Trono que cerca" (El-Arsh el-muhit). Er-Ruh ("o Espírito") que reside no centro do "Trono", não é outro senão Brahma que nasceu do "Ovo de ouro": "Então, o Senhor subsistindo por Ele mesmo (Swayambhu), que não é visível, apareceu... tornando visível o Universo... e dissipou a escuridão (é o Fiat Lux do Gênesis)... Ele, que o Intelecto sozinho pode perceber... tendo resolvido fazer proceder de Sua Substância as diversas criaturas, Ele produziu primeiro as águas; e Ele depositou nelas um germe. Este se tornou um Ovo brilhante como o ouro, resplandecente de mil raios, e neste Ovo o Senhor nasceu Ele mesmo como Brahma, o Avô de todos os mundos" (Manava-Dharma-Shastra 1,6-9).

De acordo com as tradições (ahadith), "o maior dos Anjos é chamado Er-Ruh ("o Espírito"); Allah diz (no Corão): O dia em que o Espírito e os Anjos se levantarão em fileiras, - e também: Allah, o Senhor dos graus (maarij), sobre os quais os Anjos e o Espírito subirão para Ele, - ou ainda: Os Anjos e o Espírito desceram nela (na noite da Revelação). - Em verdade, este Anjo cujo nome é Er-Ruh ocupará, no Dia da Ressurreição, uma única fileira por causa de sua imensidão, e o conjunto de todos os Anjos constitui uma outra fileira; e o Espírito é poderoso sobre os Anjos por sua imensidão". - Quanto aos Anjos em geral, é dito que "Allah criou os Anjos de Luz radiante, e eles estão dispostos em diferentes categorias: há os que se assemelham aos filhos de Adão por sua constituição, e outros que habitam os Céus, outros também que habitam a terra, e outros enfim aos quais foi confiada a guarda dos filhos de Adão; há também os portadores do Trono; e há (acima de todos) Er-Ruh, Jibrail, Mikail, Israfil e Izrail". - "Allah criou os quatro Anjos generosos, e ele colocou em suas mãos os assuntos das criaturas e a direção do Universo inteiro; Ele fez de Jibrail o Senhor da revelação e da mensagem, de Mikail o Senhor das chuvas e das colheitas, de Izrail o Senhor da remoção das almas (a morte) e de Israfil o Senhor da trombeta" (do Julgamento último).

Vê-se por estas indicações que Er-Ruh (ou Seyidna Mitatrun) corresponde, assim como foi dito mais acima, ao Princípio criador, Brahma; correspondência que ressalta muito nitidamente do que é dito de Er-Ruh no Gênesis: "O Espírito de Deus era levado sobre a face das águas". Seyidna Israfil e Seyidna Mikail se identificam, por suas funções respectivas, a dois aspectos fundamentais e complementares de Vishnu, pois ambos afirmam a manifestação, o primeiro "em sentido vertical" (ou segundo a "dimensão principial"), a saber, pela ressurreição dos mortos no fim do ciclo, e o segundo "em sentido horizontal" (ou segundo a "dimensão manifestada"), dando aos seres vida e subsistência. Quanto a Seyidna Jibrail e a Seyidna Izrail, eles se identificam, por suas funções respectivas, a dois aspectos fundamentais e complementares de Shiva: ambos removem, transformam ou absorvem a manifestação, o primeiro "em sentido vertical" ou de uma forma "positiva" trazendo a manifestação de volta a seu Princípio, e o segundo "em sentido horizontal" ou de uma forma "negativa", a saber, pela destruição (ou antes pela dissociação, separação ou decomposição). Por outro lado, os cinco Arcanjos se refletem até na ordem corporal, e isso sob a aparência dos cinco elementos que, eles também, estão na base, não da manifestação como tal, mas daquela do mundo sensível que a simboliza integralmente: assim Israfil dá a vida pela força do Princípio (bi-amriLlah), portanto de uma maneira quase "sobrenatural" ou "milagrosa", e não através de um encadeamento causal de ordem puramente "física" ou "horizontal", enquanto que Mikail a dará de uma forma "natural", isto é, mediante a causalidade ordinária; ora, existe uma diferença totalmente análoga entre o ar, alimento primordial e universal no quadro do mundo terrestre, e a água, alimento relativamente secundário em relação ao ar; ou ainda: Jibrail reduz a manifestação ao Princípio em modo principial, enquanto que Izrail a reduzirá "a nada" em modo manifestado; da mesma forma o fogo reduz a matéria por uma espécie de integração direta "essencial", enquanto que a terra a absorverá por integração indireta, "material"; enfim Er-Ruh será representado aqui pelo eter que contém e penetra os outros elementos, exatamente como o "Espírito" contém e penetra os "Arcanjos".

De acordo com Ibn Abbas, "Israfil pediu a Allah que lhe desse a força dos sete Céus, e Allah lha deu; e (que lhe desse) a força das sete terras, e Allah lha deu; e (que lhe desse) a força dos ventos, e Allah lha deu; e (que lhe desse) a força das montanhas, e Allah lha deu; e (que lhe desse) a força dos homens e dos jinn (literalmente: "dos dois pesados", isto é, daqueles que não são criados de Luz como os Anjos, mas uns de terra e os outros de fogo, elementos cuja materialidade é expressa pela ideia de peso), e Allah lha deu; e (que lhe desse) a força dos leões, e Allah lha deu". Estes pedidos significam a predisposição receptiva da Inteligência angelical; é evidentemente a Força divina que "contempla" ou "realiza" este Arcanjo, e não há manifestação de força que não derive dele, como indica aliás o relato, ainda que em "sentido inverso". Mas continua-se: "E da planta de seus pés até sua cabeça, ele tem cabelos e bocas e línguas sobre os quais se estendem véus; ele glorifica Allah com cada língua em mil linguagens, e Allah cria de sua respiração um milhão de Anjos que glorificam Allah até o Dia da Ressurreição, e estes são: os "Próximos" (El-Muqarrabun) junto a Allah, e os "Portadores do Trono" (El-Malaikatu hamalat el-Arsh), e os "Magnânimos" (El-Kiram), e os "Escribas" (dos destinos) (El-Katibun); e eles têm todos o aspecto de Israfil. E Israfil olha a cada dia e a cada noite três vezes para o inferno e se aproxima sem ser visto e chora; e ele emagrece e se torna como o tendão de um arco, e chora lágrimas amargas".

"Quanto a Mikail, Allah o criou cinco mil anos depois de Israfil; ele tem cabelos de açafrão da cabeça até os pés, e suas asas são de topázio verde; e, sobre cada cabelo, ele tem um milhão de faces, e, em cada face, ele tem um milhão de olhos, e ele chora com cada olho, por misericórdia para os pecadores, dentre os crentes; e em cada face ele tem um milhão de bocas, e em cada boca ele tem um milhão de línguas; cada língua fala um milhão de linguagens, e cada língua pede perdão a Allah para os crentes e os pecadores; e de cada olho caem setenta mil lágrimas, e Allah cria de cada lágrima um único anjo à imagem de Mikail, e eles glorificam Allah até o Dia da Ressurreição. Seu nome é: Querubins (Karubiyun); eles são os ajudantes de Mikail e se debruçam sobre a chuva e as plantas e as colheitas e os frutos; e não há coisa nos mares, nem frutos nas árvores, nem plantas na terra que não estejam sob sua dominação e das quais ele não cuide".

"Quanto a Jibrail, Allah o criou quinhentos anos depois de Mikail; ele tem mil e seiscentas asas, e ele tem cabelos de açafrão de sua cabeça até os pés; e o sol está entre seus olhos, e sobre cada cabelo, ele tem o brilho da lua e das estrelas; e, a cada dia, ele entra no Oceano de Luz trezentos e setenta vezes. E, quando ele sai, cai de cada asa um milhão de gotas, e Allah cria de cada gota um único anjo à imagem de Jibrail, e eles glorificam Allah até o Dia da Ressurreição: estes são os "Espirituais" (Ruhaniyun).

"E a aparência do Anjo da morte é parecida com a de Israfil pelos visages e as línguas e as asas e a imensidão e a força, sem adjunção nem missão." - De acordo com uma tradição que remonta ao próprio Profeta, "quando Allah criou o Anjo da morte, Ele o velou diante das criaturas por um milhão de véus. Sua imensidão é mais vasta que os Céus e as duas terras (o Oriente e o Ocidente); os países orientais e ocidentais de cá de baixo (o mundo terrestre) estão entre suas mãos como um prato sobre o qual teriam sido colocadas todas as coisas, ou como um homem que teria sido colocado entre suas mãos a fim de que ele o comesse, e ele come o que ele quer; e assim o Anjo da morte gira e revira o mundo como os homens reviram entre suas mãos seu dinheiro. Ele está preso por setenta mil correntes; cada corrente tem o comprimento de uma viagem de mil anos; e os anjos não o abordam, e eles não sabem seu lugar, e não ouvem sua voz, e não conhecem seu estado. E quando Allah criou a morte, Ele lhe deu por mestre o Anjo da morte; este disse: Senhor, o que é a morte? Então Allah ordenou aos véus que eles descobrissem a morte para que o Anjo a visse e Allah disse aos Anjos: "Parem e olhem, isto é a morte". E todos os Anjos ficaram de pé e disseram: "Nosso Senhor, tu criaste uma criação mais terrível que esta?" Allah disse: "Eu a criei, e Eu sou maior que ela, e cada criatura a provará". E Allah disse então: "O Izrail, toma-a! Eu a subordinei a ti." Izrail respondeu: "Ó Divindade, por qual força a tomarei? Pois ela é maior que eu". E Allah lhe deu a força; e Izrail tomou a morte, e ela permaneceu em sua mão; e a morte disse: "Ó Senhor, permite-me chamar nos Céus uma única vez". E Allah o permitiu; e ela chamou em voz alta: "Eu sou a morte que separa os amigos! Eu sou a morte que separa o esposo da esposa! Eu sou a morte que separa as filhas das mães! Eu sou a morte que separa o irmão das irmãs! Eu sou a morte que destrói as casas e os palácios! Eu sou a morte que enche os túmulos! Eu sou a morte que vos procura e vos encontra, "e se estivésseis "sobre torres elevadas" (Corão, IV, 80)! E não resta criatura que não me prove". - É dito também que Izrail agarra as almas dos filhos de Adão e dos outros seres, tais como os pássaros e os animais de terra, e tudo o que possui uma alma. A tradição relata que seus atributos são análogos aos de Israfil, e que ele está sentado sobre um trono no sexto Céu; ele tem quatro asas que se estendem do Oriente ao Ocidente; é dito ainda que o resto de seu corpo é coberto de tantos olhos quantas criaturas existem, e que eles olham para tudo o que possui uma alma; e quando ele agarra uma alma, o olho que tinha olhado esta se fecha; e quando todas as criaturas estiverem mortas, todos estes olhos que estão sobre seu corpo se terão fechado, e não restará senão seu olho (que o concerne a ele mesmo); e ele sabe que não lhe restará senão este olho" (que se extinguirá por sua vez no fim do Universo).

Tudo o que as descrições citadas têm de impotente, em sua complexidade dificilmente inteligível à primeira vista como também em sua aparente "monstruosidade", não faz senão traduzir a impossibilidade que há em traduzir em linguagem humana as Realidades celestes; a pensamento humana, inapta como ela o é a agarrar simultaneamente uma grande diversidade de aspectos, sobretudo quando sua sutileza e complexidade implicam aparentemente contradições e que eles estão submetidos a espécies de "movimentos" incessantes, - a pensamento humana, diz-se, não pode conter senão uma imagem quebrada, fixa, simplificada e paradoxal, das Realidades que a superam; é a transcendência mesma do que ela deve conter que quebra por assim dizer os limites naturais da expressão. Descrever uma Realidade celeste, é, analogicamente falando, descrever uma melodia, ou mais particularmente uma melodia polifônica, ou ainda, para empregar uma outra imagem, é descrever os movimentos infinitamente diferenciados e combinados das ondas do Oceano a um cego que jamais ouviu falar do mar. A imensidão mesma do que deve ser expressa por meios limitados e fracos dá às imagens, por um lado, um caráter de esboços, e por outro uma marca de horror que traduz bem a incompatibilidade entre as "dimensões" celestes e a "matéria" terrestre.